Sete vezes mais infectados, funcionários da segurança e limpeza são negligenciados em 1ª fase da vacina contra Covid em SP

João de Mari
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Nurse Melissa Valentin applies the Pfizer-BioNTech COVID-19 vaccine to a health worker in at the Ashford Presbyterian Community Hospital in San Juan, Puerto Rico, Tuesday, Dec. 15, 2020. (AP Photo/Carlos Giusti)
O Ministério Público do Estado de São Paulo afirmou que a representação ainda não foi distribuída para um promotor (Foto: AP Photo/Carlos Giusti)

Os funcionários das áreas de segurança, limpeza e lavanderia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) foram sete vezes mais infectados pela Covid-19 do que médicos que atuam em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). No entanto, essa categoria não foi definida como prioridade na primeira fase de vacinação contra o coronavírus na cidade de São Paulo. Profissionais da saúde denunciam negligência.

De acordo com vereadora Luana Alves (PSOL-SP), que reuniu diversas denúncias de profissionais dessas áreas e enviou uma representação ao Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP), há falta de transparência nos critérios de priorização da primeira remessa de doses da vacina município.

“Estamos desde o ínicio da semana passada recebendo relatos de profissionais da saúde denunciando que não receberam a vacina. A campanha comecou pelo HC, que teve orientação [do governo do Estado] de vacinar todos do hospital: administrativo, limpeza, enfim, profissiões que estão em constante risco. Mas acontece que nas prefeituras a orientação foi outra e pediram para que cada gestão de UBS enviasse uma lista só com médicos, enfermagem e fisioteparia. Gerou um mal estar muito grande”, conta Luana.

Para ela, há uma percepção de que os hospitais HC e Emílio Ribas, “os mais próximos a ‘mídia’” do governador João Doria (PSDB), como ela mesma diz, são os que tão recebendo a vacina. “Quem está em hospital periférico e UBS não está recebendo”, avalia, como se houvesse um preterimento dessas unidades.

O Ministério Público do Estado de São Paulo afirmou que a representação ainda não foi distribuída para um promotor.

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A vereadora, que trabalhou em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) antes de ser eleita, alega ainda que não há previsão expressa à imunização de profissionais de Atenção Primária à Saúde (APS), bem como de profissionais de limpeza, administrativos e de segurança que trabalham nas unidades de atendimento ao vírus em bairros, sobretudo periféricos.

“Tive uma reunião com trabalhadores de hospitais municipais e era assim: profissionais que são contratos por OSs [Organização Social de Saúde] recebiam vacina e os que eram direto da prefeitura não recebiam”, denuncia ela, referindo-se aos funcionários terceirizados por alguma empresa de saúde, modelo muito comum na administração de hospitais e UBSs em São Paulo.

Agentes comunitários sem vacina

Além disso, a vereadora acusa que “professores eméritos da Universidade de São Paulo (USP), que têm matrícula no HC, mas que não atendem há décadas, de receberam a vacina”. O HC é associado à faculdade de medicina da USP. Ela também chama atenção para a falta de cuidado com agentes comunitários.

“Mestrandos do HC que também não atendem receberam vacina, enquanto isso as agentes comunitárias de saúde que estão em risco constante, indo para rua e fazendo campanha para a vacinação, não estão na lista”, conclui.

Segundo dados da Prefeitura, no município de São Paulo há quase 9 mil agentes comunitários. Eles são responsáveis por fortalecer o elo entre a comunidade e as equips das UBSs, portanto, são profissionais que conhecem a população de determinado bairro e têm contato direto com moradores.

No documento oficial da Prefeitura de São Paulo onde há o instrutivo que orienta as unidades de Saúde sobre os critérios de priorizazção do público a ser vacinado, não há qualquer menção sobre essa categoria da limpeza e segurança.

Há uma menção sobre funcionários de UBS, porém, como o texto só diz “profissionais da porta para atendimento de sintomáticos respiratórios”, não fica claro quem exatamente deve receber o imunizante.

Procurada pela reportagem, a Prefeitura respondeu aos questionamentos da exclusão de funcionários da limpeza e segurança com um texto falando sobre a chegada do primeiro lote da vacina de Oxford/AstraZeneca. Não disse também se haverá inclusão da categoria na primeira fase do plano de vacinação.

A reportagem entrou em contato com o HC de São Paulo questionando sobre as denúncias e aguarda retorno.

Sete vezes mais infectados

De acordo com dados do inquérito sorológico feito com cinco mil funcionários do HC para mapear os riscos de contaminação dentro do ambiente hospitalar, divulgado em setembro do ano passado, funcionários terceirizados, como da limpeza e segurança, foram sete vezes mais infectados pela Covid-19 do que médicos de UTI.

Segundo a pesquisa, entre os profissionais que trabalham nas UTIs e que têm contato direto com os doentes, só 6% foram infectados. Já entre os funcionários terceirizados, de setores como os de limpeza, lavanderia e segurança, 45% já contraíram o vírus.

De acordo com o levantamento, a escolaridade, local de residência, uso de transporte público e tempo gasto entre a casa e o hospital, também levantados na pesquisa, são fatores de risco maiores do que o próprio ambiente hospitalar.

O objetivo da pesquisa era saber se os profissionais que trabalham na área exclusiva da Covid-19, mesmo assintomáticos, já tinham sido infectados pelo coronavírus. A conclusão é que a maioria dos profissionais foi contaminada pelo coronavírus fora do local de trabalho.

“Os dados mostram que a transmissão comunitária, em um país com problemas estruturais como o nosso, pode ser maior até mesmo do que dentro de um hospital”, dise a infectologista Silvia Costa, que coordenou a pesquisa, à época.

Vacina em São Paulo

Em coletiva de imprensa nesta terça-feira (26), o Instituto do Butantan afirmou que prevê para dia 3 de fevereiro a chegada dos 5.400 litros de insumos para a produção no Brasil da CoronaVac, vacina contra Covid-19 desenvolvida em parceria com o laboratório Sinovac Biotech — valor capaz de gerar 8,6 milhões de doses desse imunizante.

O país já conta com mais de 10 milhões de doses da CoronaVac autorizadas para uso emergencial pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), tanto importadas prontas da China quanto doses envasadas pelo Butantan.

Segundo Dimas Covas, diretor do Instituto, ainda há outra carga de 5,6 mil litros para o envase de outras 8,6 milhões de doses que está em “processo adiantado de liberação”, perfazendo dessa forma insumos para 11 milhões de doses dessa vacina.