Dez mil moléculas modificadas: o saldo do seu treino

Agência Einstein
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Sporty Hispanic girl doing lunges with dumbbells at home, empty space
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Por Fábio de Oliveira, da Agência Einstein

Milhares de mudanças moleculares ocorrem no nosso corpo quando nos exercitamos. Um bom retrato das alterações está em uma pesquisa recém-divulgada pela Escola de Medicina da Universidade Stanford, nos Estados Unidos. É uma coreografia orquestrada de processos biológicos envolvendo metabolismo energético, estresse oxidativo, inflamação, reparação de tecido e resposta do fator de crescimento, descrevem os autores no resumo do periódico científico Cell, onde o trabalho foi publicado. Ao todo, eles catalogaram 9.815 moléculas alteradas no sangue depois de uma sessão de exercícios. De acordo com os pesquisadores, uma mensuração tão completa assim talvez nunca tenha sido feita. Esses achados podem resultar em um simples teste sanguíneo capaz de determinar o quanto uma pessoa está apta fisicamente, um complemento aos que já são feitos hoje.

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Para realizar o estudo, os cientistas recrutaram 36 homens e mulheres, com média de índice de massa corporal de 29 (dentro do normal) e idades entre 40 e 75 anos. Todos fizeram o teste de VO2, que mede o pico de captação e consumo de oxigênio durante o exercício. Uma amostra do sangue dos voluntários foi colhida antes do teste. Os participantes, então, puseram uma máscara de medição de oxigênio e correram em uma inclinação leve até atingirem o nível mais alto de utilização de O2. Amostras de sangue foram colhidas novamente depois de 2 minutos, 15 minutos e 60 minutos.

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Nos dois primeiros minutos depois do exercício, marcadores de inflamação, de recuperação de tecido e de estresse oxidativo, um subproduto do metabolismo, dispararam logo depois dos participantes descerem da esteira, quando o corpo começou a se recobrar. Nesse intervalo, as amostras de sangue revelaram que o organismo estava sintetizando alguns aminoácidos para ter energia, mas, cerca de 15 minutos depois, passou a usar como combustível a glicose, o açúcar do sangue. Segundo Michael Snyder, líder da pesquisa e um dos avaliados na iniciativa, o corpo recorre à reserva de glicose para se recuperar do esforço físico. Por isso, esse processo ocorre um pouco mais tarde.

Os cientistas também notaram algumas consistências no patamar de mensurações dos participantes que tiveram uma melhor performance no teste de VO2, apesar de isso não ser a intenção inicial. Eles observaram uma forte correlação entre milhares de moléculas, como marcadores de imunidade, metabolismo e atividade muscular, e o nível de capacidade aeróbica de um indivíduo.

Ação em todo o corpo

Os impactos do exercício físico são sistêmicos. No cérebro, há liberação do BDNF, um fator neurotrófico (tipo de proteína) que tem papel central no desenvolvimento e fisiologia do sistema nervoso central. “As capacidades de raciocínio e de aprendizado também são afetadas positivamente, assim como a saúde mental”, diz o educador físico Bruno Gion, das Clínicas Einstein. A prática promove o equilíbrio na disponibilidade de substâncias que fazem a comunicação entre os neurônios (neurotransmissores) associados ao processamento das emoções. Entre eles, a serotonina e a dopamina.

No sistema cardiovascular, o aumento da frequência cardíaca e da circulação de sangue durante o treino exige uma adaptação dos vasos sanguíneos. Substâncias envolvidas na vasodilatação, como o óxido nítrico e as prostaglandinas, são liberadas, contribuindo para regularizar a pressão arterial.

O estudo americano deixa claro que estamos longe de uma pílula do exercício. Em 2015, pesquisadores australianos e dinamarqueses aventaram essa hipótese ao escrutinar o que acontece dentro dos músculos, em nível molecular, após um treino. O time de Stanford se deparou com quase 10 mil alterações. E nenhuma delas foi o gatilho de todo o processo.

(Fonte: Agência Einstein)