Sergio Moro é mesmo candidatíssimo a presidente em 2022?

Antes do divórcio com Bolsonaro, apoiadores inflavam bonecos de Sergio Moro em passeata na avenida Paulista. Foto: Nelson Almeida/AFP (via Getty Images)

“De tudo, de tudo, pelo menos ele mostrou que é honesto”.

Ouvi a frase de quem, pelas preferências partidárias, tem, ou tinha, tudo para não gostar de Sergio Moro, o ex-ministro da Justiça que saiu do governo atirando contra o presidente Jair Bolsonaro.

No campo jurídico, Moro tem muito ainda a explicar sobre as razões que o levaram a deixar o governo. As perguntas, em sequência, levam a um questionamento básico: o que o levou a aceitar o convite para integrar o governo de quem, como ele mesmo disse, deixou claro o que era e o que queria desde a campanha?

O ex-ministro também terá de explicar por que a suposta interferência no comando da Polícia Federal foi a gota d’água para o divórcio. Do que ele desconfia exatamente? E quais foram as outras gotas que fizeram o copo transbordar ao fim da última cena?

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Dito isso, no campo simbólico o ex-juiz, de fato, surge agora como “candidatíssimo” a presidente da República em 2022.

Quem diz isso não sou eu, mas o próprio ex-chefe em conversas com aliados.

Uma testemunha da conversa disse à Folha de S.Paulo que, na avaliação do presidente, Moro queria chegar ao Supremo Tribunal Federal para, de lá, criar um palanque que o alçasse ao seu posto. 

Se for isso mesmo, o raciocínio de Bolsonaro não faz sentido. No STF, Moro sairia da cena política em uma Corte composta por outros dez membros com muito mais recursos retóricos e teóricos. A não ser que colocasse o próprio posto sob desconfiança ao opinar fora dos autos ou ser voto vencido em sentenças que geralmente não alcançam a linguagem popular. Era capaz, assim, de se queimar duas vezes, com os pares e com possíveis eleitores.

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O STF só terá vaga para um novo ministro no fim deste ano, quando o decano Celso de Mello se aposenta. Caso fosse empossado, Moro teria menos de um ano para construir seu trampolim.

Apesar do delírio, com traços persecutórios peculiares ao presidente, Moro seria, sim, um forte candidato a presidente se a eleição fosse hoje. 

Até 2022, ele tem, porém, alguns problemas. Um deles é a possibilidade de se autoincriminar com o depoimento contra o chefe feito à Polícia Federal.

Se houver crime no relato, ele pode ser enquadrado por peculato. Se não houver, poderá ser enquadrado pelo acusado por denunciação caluniosa. 

Caso chegue a 2022 livre de qualquer embaraço jurídico, Moro teria de assumir de vez o lado político. 

Para isso, precisa de um partido.

No campo da esquerda, o ex-juiz é persona non grata por ter condenado o ex-presidente Lula. Do PCdoB ao PSB.

À direita, campo onde até outro dia provocava suspiros a quem enchia bonecos infláveis em sua homenagem, o caminho também está obstruído. O bolsonarista-raiz quer ver o diabo, mas não o ex-aliado chamado de Judas pelo presidente. Só aí são 33% dos eleitores refratários.

Uma opção natural seria se filiar ao PSDB. Falta combinar com João Doria, outro candidatíssimo a presidente que, certamente, não quer sombra no caminho do Palácio dos Bandeirantes até Brasília.

Restaria, então, repetir os passos de Bolsonaro.

Em 2018, o então deputado do baixo clero foi lançado presidente em um partido nanico, interesseiro e interessado, sem grandes alianças nem aliados de peso nem tempo de TV. 

A fragilidade da plataforma se tornou um ativo em um momento em que o eleitor não estava nem um pouco a fim de ouvir o que os peixes-graúdos tinham a dizer em seus latifúndios partidários.

Bolsonaro montou seu exército de Brancaleone, apostou nas redes e venceu a prova.

A exemplo dele, a candidatura de Sergio Moro teria de ser incubada em um partido menor, onde poderia dar as cartas e aproveitar a exposição nas redes para compensar o que fatalmente faltará em estrutura partidária e tempo de TV.

Uma opção natural seria o Podemos, partido do senador e conterrâneo Álvaro Dias (PR). Na última eleição, a sigla elegeu apenas 11 deputados.

Em Brasília, corre a história de que a relação entre Moro e Bolsonaro azedou de vez quando o presidente ficou sabendo de um suposto “jantar secreto” entre o então ministro e o senador paranaense em Curitiba.

No começo do ano, Álvaro Dias já afirmava que o amigo não tinha liberdade para trabalhar no governo e não escondia seu desejo de lançá-lo à Presidência.

Se fosse fazer uma aposta, é desta cartola que sairá, se é que sairá, o coelho.

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