Sergio Guizé afirma que reprise de 'Êta Mundo Bom!' acontece em bom momento do país

KARINA MATIAS
*ARQUIVO* SÃO PAULO, SP, 1106.2018 - O ator Sergio Guinzé. (Foto: Zanone Fraissat/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Candinho, o protagonista ingênuo e otimista de "Êta Mundo Bom!" (2016), está de volta à TV a partir desta segunda-feira (27), nas tardes da Globo. Para o ator Sergio Guizé, 39, intérprete do personagem, a mensagem da novela cai com uma luva para o momento atual do país, em meio à pandemia do novo coronavírus e à polarização política.

"A trama fala de esperança e de respeito, tudo o que a gente não tem visto hoje, principalmente aqui no Brasil, onde está rolando uma coisa de ódio e de guerra. Candinho é um personagem muito bonito, que quer unir as pessoas e jamais pensa o mal do outro. Tem muita cena dele dividindo pão, dando lição de moral em bandido, em político", afirma o ator, em entrevista à reportagem.

Guizé só teme um ponto: que o protagonista possa ser chamado de comunista nas redes sociais por pensar diferente. "Capaz de Candinho aparecer com uma bandeira do comunismo atrás em algum meme, só porque o cara não é racista, não é egoísta, só porque ele não tem casa, carro", comenta, em tom de brincadeira.

Na história escrita por Walcyr Carrasco, Candinho é criado na fazenda de Cunegundes (Elizabeth Savala), onde é tratado como empregado. Mas ele é expulso ao ser flagrado beijando Filomena (Débora Nascimento), filha da megera, que não vê com bons olhos o relacionamento dos dois por ele ser pobre.

O caipira segue então para São Paulo em busca de sua mãe biológica, sem saber que ela é a rica Anastácia (Eliane Giardini). Ele é acompanhado pelo burro Policarpo, um de seus melhores amigos e com quem costuma conversar.

Guizé lembra que carregava muita cenoura e maçã nos bolsos para ter uma boa relação com o animal, que na verdade se chama Juca. O começo não foi tão simples, recorda o ator. Em uma das primeiras cenas com Policarpo, gravada em Vassouras (RJ), Guizé conta que resolveu montar no burro e o resultado inicialmente não foi dos melhores.

"Ele começou a rodar, rodar, cada vez mais rápido. E eu olhando para as pessoas em volta, e elas rindo. Eu não conseguia nem falar: 'Me ajuda'", diz. A peripécia, porém, ficou tão divertida que foi incluída na cena de abertura da novela. "Mas aquele olho aberto, aquela boca aberta ali é de desespero", afirma.

Na capital paulista, Candinho vira amigo do menino de rua Pirulito (J.P Rufino) e reencontra Pancrácio (Marco Nanini), professor de filosofia desempregado que usa vários disfarces para pedir esmola. "Assim como na novela em que é o Candinho olhando para o mestre dele [o professor], era eu como ator olhando para o meu mestre [Nanini]", diz Guizé.

Para fazer o personagem, o ator afirma que leu o livro "Cândido, ou o Otimismo" (1759), do filósofo francês Voltaire, e que foi uma das bases de Carrasco para escrever a novela. Guizé também se inspirou no seu ídolo Charles Chaplin e fez uma homenagem à sua avó Maria, que era do interior do Paraná. "Foi ela que me criou, e ela falava desse jeito [caipira] e era muito engraçada. Pensava muito nela fazendo o Candinho, pena que ela não estava viva para ver", comenta Guizé sobre a avó, que morreu em 2001.

Outro ponto importante, segundo ele, foi a direção de Jorge Fernando (1955-2019), que o deixava livre para interpretar o personagem. Até 1º de maio, "Êta Mundo Bom!" divide a faixa do Vale a Pena Ver de Novo com "Avenida Brasil".

"Tudo o que acontece de ruim na vida da gente é pra 'meiorá'". Essa é a frase símbolo de Candinho e que acabou conquistando também o não muito otimista Guizé. "Eu sou desconfiado naturalmente, mas era desconfiado de tudo. A mensagem [do personagem] realmente foi me pegando, de ver os acontecimentos por um outro lado, ver o copo cheio, sabe, e que pessoas como ele realmente existem, como a minha avó."

O ator considera Candinho um dos marcos de sua carreira, lembrado até hoje pelo público, especialmente as crianças. Guizé, que já deu aula de arte na rede pública de ensino, afirma que sabia da grande responsabilidade que tinha ao interpretar o personagem. "Quando eu dava aula, não lembro de ter tocado os alunos com esses princípios de esperança, respeito ao próximo, hombridade como toquei com o Candinho. Acho que de algum jeito eu cumpri o meu papel."

Ao lado da mulher, a atriz Bianca Bin, 29, que também está no elenco de "Êta Mundo Bom!", o artista passa a quarentena em Indaiatuba, interior de São Paulo, e afirma estar ansioso para ver a reprise de "Êta Mundo Bom" -apesar de não ter televisão por lá, ele diz que vai assistir pelo Globoplay.

Durante o período de isolamento social, Guizé tem aproveitado o tempo livre para pintar, tocar violão e ler. Entre os livros escolhidos estão "O Conto da Ilha Desconhecida", de José Saramago, e "Insania Furens - Casos Verídicos de Loucura e Crime", de Guido Palomba. Esse último já é uma preparação para o seu próximo trabalho na Globo, a série "Mal Secreto", que será inspirada na trajetória de Palomba, um dos psiquiatras forenses mais famosos do país.

O ator também está aprendendo a mexer mais com computador e tecnologia, algo que não era muito fã. "Eu sempre fui contra e pensava: 'Poxa, as pessoas estão se relacionando só por telefone, olhando para baixo, e eu sempre fui do abraço, de encontrar. E agora é o contrário, tem que ter uma rede social, porque o contato está muito difícil. Então, estou me matando para aprender", diz.

Apesar do momento complicado no Brasil e no mundo, Guizé tem procurado seguir o conselho de Candinho. "Ele falava: 'Olha, você pode ficar sossegado que você sempre vai ter um irmão'. Eu acredito nisso também...A gente sempre vai ter nesse momento difícil alguém para se unir e construir as coisas juntas", conclui.