Ser mãe negra no Brasil ainda é lutar pelo direito de ver o filho crescer

Dayo tem 1 ano e 8 meses. Já Vinícius tem 16 anos. (Foto: Montagem/Yahoo/Reprodução/Instagram)
Dayo tem 1 ano e 8 meses. Já Vinícius tem 16 anos. (Foto: Montagem/Yahoo)

“Partiu! Me sinto pronta!” foi o primeiro pensamento da cantora Luedji Luna ao saber que estava grávida. Mãe de Dayo, de 1 ano, ela conhece as belezas e dificuldades de ser mulher negra e mãe de uma criança negra no Brasil.

"Vou ensinar ele assim: se a polícia te parar diz que vc é filho da Luedji Luna, do Zudizilla, e neto do Gilberto Gil. O que se passa na cabeça de uma mãe preta de filho retinto”, desabafou outro dia no Twitter.

O relato de Luedji nos avisa sobre uma questão dolorida no país: ser negro aqui precede uma cartilha de comportamentos. “Que roupa devo vestir?”, “Que cabelo devo usar?”, “Não esqueça o documento, filho”, “Não abre a bolsa dentro da loja, filha”.

O medo da morte é constante e, no caso das mães negras, a luta ainda é por ter o direito de ver seu filho crescer em paz, com direitos assistidos e oportunidades. “Um pouco antes dele nascer veio o maior medo de qualquer mãe preta: da morte, da violência. Dayo ia ter somente um nome. O segundo nome dele, ‘Oluwadamisi’, quer dizer: Deus protege minha vida! Só os deuses mesmo pra proteger nossas crianças, porque o Estado faz o contrário”, desabafa Luedji Luna.

Procuro espaço onde ele se enxergue, onde ele se veja em um posição de poder e decisão, não apenas no lugar de servidãoLuedji Luna sobre o filho Dayo

O temor da cantora não é gratuito. Entre 2016 e 2020, 35 mil crianças e adolescentes de 0 a 19 anos foram mortos de forma violenta no Brasil – uma média de 7 mil por ano. Na faixa etária de 15 a 19 anos, o perfil da violência letal está consolidado. As mortes violentas têm alvo específico: mais de 90% das vítimas são meninos, e 80% são negros. Os dados são do Panorama da Violência Letal e Sexual contra Crianças e Adolescentes no Brasil, lançado pelo UNICEF e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Na música “Cabô”, Luedji traduz os dados citados acima: “Cabô, quinze anos de idade/Eram só 6 horas da tarde/ Quem vai pagar a conta?/ Quem vai contar os corpos?”.

Maternidade precoce

Se Luedji sentiu-se pronta apesar dos receios, a antropóloga Izabel Accioly experimentou o outro lado da moeda. Foi mãe de Vinícius muito cedo e precisou adiar muitas etapas da vida para dar conta da maternidade. “O primeiro medo que me deu foi com meus pais. Achava que minha mãe me expulsaria de casa, que meu pai deixaria de falar comigo”, conta.

Izabel fala também de outro lugar importante: mãe de um adolescente de 16 anos, ela convive todos os dias com os índices cruéis que recaem sobre as juventudes negras. Accioly precisa blindar o filho de muita coisa, embora ela mesma precise se refugiar.

Muitas vezes mães negras não tiveram a oportunidade de criar um valor positivo sobre si mesmas. Quando a gente tem filho, esse desafio dobra. Como posso ajudar essa criança a desenvolver auto estima se não tenho nem para mim?Izabel Accioly

É fato que pessoas negras conhecem o racismo ainda na infância. A antropóloga aponta que é necessário apresentar às crianças modelos positivos de negritude para que elas possam ter em quem se espelhar. “É importante estar atento a comentários e episódios racistas que possam afetar a criança nos ambientes em que ela circula: casa de familiares, escola, pracinha, shopping... A criança negra ainda não tem ferramentas para se defender de um ataque racista. O adulto responsável precisa estar atento para evitar o pior”, reforça.

Dica: É importante que pais e responsáveis estejam atentos se a Lei 10.639 está sendo aplicada na escola em que a criança estuda. A lei torna obrigatória a inclusão da história e cultura afro-brasileira na grade curricular do ensino fundamental e médio.

O direito de maternar deve ser pauta antirracista

Luedji Luna reflete sobre maternidade e desfaz a idealização do amor romântico (Foto: Reprodução/Instagram@luedjiluna)
Luedji Luna reflete sobre maternidade e desfaz a idealização do amor romântico (Foto: Reprodução/Instagram@luedjiluna)

Luedji e Izabel representam apenas uma parte do grande espectro de mulheres negras brasileiras. Quando afunilamos as opressões, os dados ficam ainda mais assustadores. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que famílias de mulheres negras e mães solos possuem indicadores de saneamento básico e inadequações em suas residências piores que as de mulheres brancas.

Números de 2020 apontam que o Brasil tem mais de 11,4 milhões de famílias formadas por mães solos, sendo que a grande maioria delas é negra (7,4 milhões). Falar em maternidade negra é ainda falar na necessidade de superarmos a pobreza, solidão, abandono, racismo, desumanização.

Ser mulher, negra e mãe neste Brasil é triplamente desafiador. Há uma pauta do movimento feminista hegemônico muito ligada ao direito ao corpo. Algumas pessoas pensam que a gente está falando apenas sobre aborto. Mas, o direito ao corpo é também sobre o direito de ser mãe, de não sofrer violência obstétricadiz Izabel

Ainda que o encontro de opressões coloque mulheres negras em um lugar subalternizado, a antropóloga aponta para outra peça desse quebra-cabeça: “Esse lugar é também um ponto de vista único, que apenas nós mulheres negras conseguimos articular”.

E se a maternidade tem mesmo esse poder de garimpar aquilo que mais importa, Luedji Luna está conhecendo de perto as transformações: “Uma coisa que percebi foi a minha necessidade de me impor mais, me priorizar, estabelecer limites, dizer não. Era um aspecto que precisava melhorar na minha vida, e com a maternidade isso veio à tona: coragem, ímpeto”.

Maternidade no plural

Ao Yahoo, Luedji revelou que o filho, por ter nascido durante a pandemia, “vive numa redoma”. No entanto, recentemente os pais o colocaram em uma escola de educação infantil. O espaço tem uma proposta decolonial, com professores e alunos negros. “Ainda tenho um longo caminho, mas por hora, nos poucos momentos de sociabilidade que ele tem, procuro espaço onde ele se enxergue, onde ele se veja em um posição de poder e decisão, não apenas no lugar de servidão”.

A maternidade no plural deve ser pauta nesse e em todos os outros Dia das Mães. Luedji começa sua jornada com Dayo encontrando força na educação decolonial, enquanto Izabel, por ter sido mãe adolescente, precisou apostar na experimentação. “A minha principal estratégia é mostrar para ele referenciais positivos de negritude. Quero que ele se sinta valorizado. Tenho que apoiar e comprar as brigas junto com ele”, diz Accioly.

Transformar discurso e hashtags em ações concretas

Não dá para fugir: a mudança verdadeira que todos queremos passa pela transformação do agora, embora a nossa geração não consiga ver de perto. Luedji acredita que é preciso construir esse futuro com urgência, votar certo, pensar em uma agenda específica para a juventude negra. “Cobrar políticas públicas de reparação para essa população, reconhecer e ceder seus privilégios, transformar discurso e hashtags em ações concretas que garantam essa liberdade, e essa felicidade para todas as crianças”.

Nesse Dia das Mães, Izabel também deixa um recado: “Um recado de acolhimento para todas as mães que não estão com seus filhos. Acolher mães que estão sobrecarregadas, que se sentem falhas. Há uma ideia de que nós somos seres infalíveis. A gente não quer ser vista como anjos infalíveis, a gente quer ser vista como humana”.