Ser fotógrafa: acima do gênero, uma questão de caráter

Da América Latina à Europa e passando pelo mundo árabe, as mulheres fotojornalistas tentam ganhar visibilidade em um setor extremamente masculino, unindo-se e agarrando-se aos temas que lhes interessam.

"Os responsáveis dos jornais muitas vezes me perguntam: 'Você se vê capaz?' e é subentendido... porque você é uma mulher... eu era mais capaz que eles!", diz Françoise Huguier rindo, com seus 50 anos de experiência e um World Press Photo do ano de 1993 por seu diário de bordo em uma viagem sozinha à Sibéria.

"Os homens teriam que cuidar das crianças", diz Huguier. "Vi muitas amigas minhas abandonarem a profissão quando tiveram filhos. Eu não precisei", explica à AFP no festival internacional Visa pour l'image, em Perpignan, sul da França, onde apresenta uma mostra de seu trabalho em Mali, na Rússia e também na Coreia do Sul.

Conciliar a profissão com os filhos é, para as mulheres, mais um obstáculo no setor dominado por homens, tanto nas redações quanto nos júris, segundo o Observatório da Diversidade da associação Les filles de la photo ('as garotas da foto', em português).

- Lutar por sua curiosidade -

Neste ano, são oito mulheres expondo no Visa, um renomado festival de fotojornalismo.

Huguier, a reitora, considera que teve "sorte" por conseguir abrir caminho na década de 1970, uma época "mais complicada". Em seus 80 anos, ela não quer parar, principalmente sabendo que ganhará 700 euros de aposentadoria como independente.

"Quando tenho algo na cabeça, não solto. Sou cabeça dura! Tem que seguir a curiosidade, se tem vontade de fazer uma pauta, tem que lutar", admite Huguier.

Tamara Saade, a mais jovem do concurso com 25 anos, concorda com ela. "É uma questão de caráter, mais que de gênero ou de sexo", acrescenta essa libanesa, cuja exposição mostra a crise em seu país após a catastrófica explosão de 2020 em Beirute.

"Sempre houve mulheres fotógrafas, mas foi dado mais ênfase aos homens", lamenta Saade, citando as "inspiradoras e incríveis" Myriam Boulos, Tania Habjouqa e Randa Shaath. "As mulheres fotojornalistas não estão escondidas. Nós somos uma espécie rara! Só que os jornais não nos chamam".

A sororidade é uma das estratégias defendidas por sua colega venezuelana Ana María Arévalo Gosen, de 33 anos.

- A força do coletivo -

"Ainda estamos longe de alcançar a igualdade. No entanto, pelo menos na América Latina, há alguns movimentos coletivos para unir as mulheres (...) Nos organizamos para conseguir publicações de nossos trabalhos, aprendemos com todas, com nossas experiências", explica a fotojornalista da Venezuela.

"O segredo está em unir forças para lutar", destaca Gosen.

Tamara Saada denuncia, no entanto, a necessidade de ficar mais atenta para contornar as "microagressões" em campo. "Recebo comentários que meus colegas homens não recebem", diz ela.

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