Sequência quase esquecida, "Top Gun: Maverick" relembra experiência do cinema pré-streaming

É impossível sair da sala de cinema sem contar nos dedos as inúmeras chances que esse filme tinha de dar errado. (Foto: Xavi Lopez/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)
É impossível sair da sala de cinema sem contar nos dedos as inúmeras chances que esse filme tinha de dar errado. (Foto: Xavi Lopez/SOPA Images/LightRocket via Getty Images)

Por mais incrível que "Top Gun: Maverick" seja, é impossível sair da sala de cinema sem contar nos dedos as inúmeras chances que esse filme tinha de dar errado. A começar pela simples premissa. Tom Cruise, astro hollywoodiano há mais de 30 anos, decidiu resgatar um filme famoso, mas com zero conexão com a audiência jovem atual. Uma história sobre o homem sem poderes como protagonista, sobre a força do homem dos anos 1980. Nada em conexão com as maiores bilheterias atuais como Harry Potter, Avatar, Star Wars, Marvel ou DC.

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Visuais caros e pandemia

Inclua aí ainda um diretor de poucos sucessos e uma afeição a visuais caros e deslumbrantes, Joseph Kosinski, responsável por "Tron: O Legado" e Oblivion. Por fim, um ano antes da estreia do longa com quase 200 milhões de dólares de orçamento, a pandemia do coronavírus ataca a Terra e um adiamento de mais de um ano é colocado no calendário. Se as pessoas já não lembraram de "Top Gun" sem pandemia, o que dizer agora? Elas esperam o novo filme do Homem-Aranha ou o novo do Tom Cruise? O que ninguém esperava é esta sequência fosse, talvez, o principal argumento na discussão sobre o que é o cinema na era do streaming.

Era de blockbusters

Acontece que numa era de blockbusters quase que dominados por filmes de herói, o espectador sente uma estafa deste estilo, e até de longas de outros gêneros que replicam Marvel, DC e afins. A experiência do cinema tradicional, feita pela aventura de gênero sem um escolhido ou super poderes, quase sumiu, assim como os astros que carregam filmes como Tom Hanks, Brad Pitt, Sandra Bullock, Julia Roberts ou Tom Cruise. Nenhum deles tem sucesso recente comparável a um filme da Disney, por exemplo. Até hoje, quando Maverick se tornou a maior estreia dos quase 40 anos de carreira de Tom Cruise.

E por que isso aconteceu? Primeiro, talvez, por todas as dúvidas antes postas no filme terem sido sanadas pelo trabalho de marketing impecável e, lógico, a qualidade altíssima da parceria Kosinski e Cruise. O mais impressionante, porém, é como o boca a boca definiu o sucesso de bilheteria - mais do que o impacto da propaganda - trazendo para o filme um status de "cinema de verdade", que nem os mais vocais defensores disso (como Nolan e Villeneuve) conseguiram.

E muito também se deve à obsessão em tornar a história não só em algo real, mas tão simples e terreno que faz a audiência se sentir perdida dentro de uma fantasia 100% relacionável. E ainda que seja das produções mais complexas do ano, Top Gun Maverick encanta e envolve pela simplicidade de seu roteiro, que serve como um trampolim para o mergulho mais intenso do cinema em 2022.