Senador colombiano defende projeto de lei para legalizar indústria da cocaína

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"Todo ano os programas de erradicação de coca custam 4 trilhões de pesos", disse o senador colombiano Iván Marulanda, do Aliança Verde, "Comprar toda a colheita de coca anualmente custaria 2,6 trilhões de pesos. Custa menos comprar a colheita do que destrui-la".

Marulanda está à frente de um projeto de lei, atualmente em trâmite no Congresso, para legalizar a cocaína. Em entrevista ao site VICE News ele explicou que a legislação pretende que o "Estado compre toda a colheita de coca da Colômbia". Há uma expectativa de que essa mudança possa trazer centenas de milhares de trabalhadores para o mercado legal. Ele é assertivo: o uso é para aliviar dores, não recreativo.

— Com essa intervenção do governo, duas coisas fundamentais irão acontecer. Primeiro, você trará 200 mil famílias a uma esfera legal, onde não seriam mais perseguidas pelo Estado — explicou o senador ao site VICE News, acrescentando que essas famíias precisam estar sempre se deslocando, desmatando mais áreas verdes para plantar coca. — A Colômbia está destruindo cerca de 300 mil hectares de floresta por ano. Estima-se que as famílias produtoras de coca sejam responsáveis por 25% do desmatamento anual.

O senador explica que, com o projeto, o Estado irá fornecer a matéria prima a produtores artesanais, principalmente indígenas, na produção medicinal, de alimentos e de chá, por exemplo. Isso, segundo Marulanda, permitiria que, enfim, esses produtores pudessem se desenvolver — o que não conseguiram até hoje por causa da perseguição da Justiça contra a coca.

O Estado ainda forneceria a coca a grupos de pesquisas pelo mundo, que poderiam estudar a planta para produção de analgésicos, e aos usuários, o que ocorreria sob escrutínio de um programa de saúde pública.

— Na Colômbia, o consumo pessoal de cocaína é legal. É legal por causa de uma decisão da Justiça que reconhece o uso pessoal como parte dos direitos humanos. Entretanto, o que não temos é a cocaína produzida legalmente para suprir essa demanda. O que temos são consumidores em contato com o crime organizado, que fornece a cocaína em mercados de droga locais — afirmou o senador. — É cocaína de baixa qualidade, geralmente misturada com substância irregulares. Está em todos os lugares: nas nossas escolas, universidades, nos parques e nos parques.

— O Estado colombiano a distribuiria aos usuários sob um programa de saúde pública, por meio de médicos que avaliariam se uma pessoa está apta a consumir cocaína para tratar sua dor. Eles têm as condições físicas e mentais certas? Essa é a pergunta que teríamos que fazer — explicou à VICE. — Outra coisa importante aqui é que nem todos os consumidores ficam viciados. Menos de 10% dos consumidores de cocaína se viciam.

Para o senador, a maior dificuldade do projeto é abrir um canal de conversa com a população, porque o tema é um tabu no país.

— Colombianos são nascidos e criados com essa premissa de que o tráfico de drogas é uma guerra. Não há informação sobrea a coca e a cocaína — apontou Marulanda. — No momento, há diversos partidos com poder, que ganharam esse poder por vender essa guerra contra as drogas. É a bandeira política deles e ganhou diversos votos. [...] Com esse projeto de lei, espero que possamos começar a conversar.