"Sempre há uma luz no fim do túnel": como é trabalhar em uma pandemia durante a gravidez

Uma mulher grávida usa uma máscara em Hong Kong. (Getty Images)

A médica Coral Olazagasti, da Escola de Medicina Zucker em Nova Iorque, descobriu em 15 de dezembro de 2019 que estava esperando um filho, depois de "desejar um bebê por anos". Depois de ouvir notícias de um vírus emergente na China, um "pensamento distante se tornou uma preocupação real" quando o número de mortes continuou a aumentar.

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Quando o vírus chegou a Nova Iorque, a saudável mulher de 31 anos de idade começou a temer pelo bebê ainda não nascido, a quem "já amava".

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Alimentados por uma obrigação autoimposta de prestar assistência, os "instintos maternos de Olazagasti combatiam diariamente os instintos médicos dela".

Embora ainda esteja trabalhando, a médica instou os profissionais de saúde a "mudar nossa mentalidade e abster-se de nossa atitude reflexiva de nos forçarmos a atravessar uma doença, porque poderíamos acabar realmente espalhando doenças para os próprios pacientes que estamos tentando ajudar".

Enquanto todos vivemos essa "pandemia horrível", a Dra. Olazagasti assegurou que "sempre há uma luz no fim do túnel".

Uma mulher grávida usa um cachecol como uma máscara em Paris. (Getty Images)

"Essa, como outras pandemias no passado, vai passar"

Escrevendo para a revista Cancer Care Chronicles, a pesquisadora de hematologia-oncologia descreveu como ficou preocupada no final de janeiro, quando o coronavírus foi identificado em 21 países. Acredita-se que o vírus tenha surgido em um mercado de frutos do mar e animais vivos na cidade de Wuhan, capital da província de Hubei, no final de 2019.

Em 20 de janeiro, os EUA relataram o primeiro caso depois que um homem retornou de Wuhan e desenvolveu a febre e a tosse características do vírus.

Na segunda semana de fevereiro, a Dra. Olazagasti enfrentava um "período de três meses de rotatividades de consultas de pacientes internados" combinado com "crescentes receios de quando seria o momento no qual ela iria se deparar com o perigoso COVID-19".

Pesquisas anteriores sugerem que o coronavírus é leve em quatro de cinco casos, no entanto, pode desencadear uma doença respiratória chamada COVID-19. O "conhecimento médico" da Dra. Olazagasti significa que ela sabia que a gravidez é, por si só", considerada um estado imunossupressor".

"Apesar de não querer, comecei a temer não apenas por mim, mas também pelo meu bebê ainda por nascer, a quem eu já havia me apegado tanto", escreveu ela. O "maior medo da médica se tornou realidade" quando Nova Iorque relatou seu primeiro caso em 29 de fevereiro.

"Nos dias seguintes, vi o número dobrar e a quantidade de casos aumentando de maneira chocante",contou.

“Meus pensamentos continuavam flutuando entre um sentimento de medo e meu senso quase reflexivo de altruísmo, razão pela qual escolhi essa profissão dentre outras. Eu, como muitos outros na minha profissão, desenvolvi ao longo dos anos uma mentalidade que me obriga a escolher o trabalho, em detrimento de qualquer outra coisa.”

Ainda trabalhando, a Dra. Olazagasti afirmou que "ficar exposta ao vírus está se tornando uma possibilidade maior, com o passar dos dias", com seus pensamentos "ativamente paralisantes" de como isso poderá afetar seu bebê.

Com pesquisas limitadas disponíveis sobre como a infecção afeta a gravidez, a médica está "escolhendo acreditar" que está segura.”Viver e trabalhar nesta época de pandemia horrível durante a gravidez definitivamente não é fácil", escreveu a Dra. Olazagasti.

“Sempre há uma luz no fim do túnel, e acredito que essa, como outras pandemias do passado, vai passar”.

Um recém-nascido usa um protetor facial em um hospital em Bangkok. (Getty Images)

Coronavírus: as mulheres grávidas podem transmitir a infecção ao feto?

Embora ninguém possa descartar essa possibilidade, acredita-se que seja muito difícil que o coronavírus se espalhe "intrauterinamente".

Cientistas da Universidade Fudan, em Xangai, examinaram 33 mulheres grávidas que estavam confirmadas como portadoras do vírus.

Três das mulheres deram à luz bebês que "apresentaram infecção precoce" cerca de dois dias depois.

"Como todos os bebês infectados testaram positivo pela primeira vez em dois dias, acredito que isso tenha ocorrido depois do nascimento e não no útero", disse o professor Paul Hunter, da Universidade de East Anglia.

"Isso não altera o consenso atual de que a transmissão no útero seja improvável".

Testes do líquido amniótico das mulheres, sangue do cordão umbilical e leite materno deram resultados negativos.

"Parece mais provável que os três bebês tenham sido infectados logo após o parto, possivelmente pelos dedos da mãe", disse anteriormente o professor Andrew Whitelaw, da Universidade de Bristol.

O coronavírus que está circulando é um dos sete tipos de uma classe de vírus que infectam humanos.

Outros incluem o resfriado comum e a síndrome respiratória aguda grave (Sars), que mataram 774 pessoas durante o surto de 2002/2003.

“A transmissão de mãe para o bebê de coronavírus ainda não foi observada com atenção”, disse anteriormente o professor Andrew Shennan, do King's College London.

"Estudos demonstraram que o coronavírus não passou para o líquido amniótico, o sangue do cordão fetal, a placenta ou para o trato genital das mães infectadas".

Cientistas do Hospital Zhongnan, em Wuhan, China, descobriram que seis bebês nascidos de mulheres com coronavírus não pegaram a infecção, mas possuíam proteínas de combate imunológico na corrente sanguínea.

Um especialista ressaltou, no entanto, que não há evidências de que essas proteínas previnam o coronavirus de infectar os recém-nascidos.

Uma mulher grávida usa uma máscara em Bogotá, Colômbia. (Getty Images)

Coronavírus: Qual é o conselho para mulheres grávidas?

As mulheres grávidas foram estimuladas a tomar cuidado especial para não pegar o coronavírus, no entanto, essa pode ser uma questão de prevenção por garantia.

"Infecções e gravidez não são uma boa combinação em geral, e é por isso que tomamos a medida de precaução enquanto tentamos descobrir mais", disse anteriormente o professor Chris Whitty, principal consultor médico do Reino Unido.

No entanto, as mulheres grávidas não compõem os 1,5 milhão de britânicos vulneráveis ​​que foram instruídos a ficar em casa por três meses. Estes incluem asmáticos graves e pacientes com câncer no sangue.

De acordo com o Colégio Real de Obstetras e Ginecologistas (RCOG), "as mulheres grávidas não parecem ser mais propensas a ficar gravemente pior do que outros adultos saudáveis, caso desenvolvam a doença do coronavírus".

Praticamente inédito, tendo surgido há apenas três meses, especialistas estão aprendendo mais sobre o vírus todos os dias.

"O que sabemos é que a gravidez, em algumas poucas mulheres, pode alterar a maneira como o corpo lida com infecções virais graves", de acordo com o RCOG.

"O que levou as decisões tomadas pelas autoridades a colocar mulheres grávidas na categoria vulnerável é a cautela."

O Colégio Real de Parteiras instou as gestantes a comparecerem às consultas agendadas no hospital, chamando-as de "essenciais para garantir o bem-estar das mulheres grávidas e de seus bebês".

Para aqueles que apresentam sintomas e estão socialmente isolados, o RCOG recomenda que a parteira ou a clínica pré-natal sejam avisadas dessa condição com antecedência para que possam tomar as providências necessárias.

Algumas mulheres que não apresentam sintomas relatam ser solicitadas a comparecer a essas consultas sozinhas.

Uma mulher grávida usa uma máscara em Hong Kong. (Getty Images)

Alexandra Thompson