Sem recursos públicos, curta brasileiro em realidade virtual concorre em Veneza

EDUARDO MOURA

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Pela primeira vez um filme produzido por estúdio brasileiro participa da competição de melhor filme em realidade virtual, a Venice Virtual Reality, dentro do Festival de Veneza.

"A Linha" concorre na categoria "Interativo" com outras 14 obras, vindas em sua maioria dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido. Também é um dos favoritos para levar o grande prêmio do júri para realidade virtual do festival.

Narrado em inglês pelo ator Rodrigo Santoro, o curta-metragem de 12 minutos se passa na década de 1940, numa São Paulo em miniatura, transformada em um ferrorama. Ao som de um choro paulistano, o espectador vê, ao fundo, o edifício Banespão e, um pouco à direita, o pico do Jaraguá.

"Era uma época muito rica, em que São Paulo deixava de ser provinciana e começava a se tornar uma metrópole", diz Rodrigo Terra, cofundador do estúdio Arvore, responsável pelo filme interativo.

O curta conta a história de amor dos personagens Pedro e Rosa, que todo dia, seguindo a linha do ferrorama, percorrem o mesmo caminho e fazem as mesmas tarefas, até que um imprevisto muda a rotina dos dois. 

O espectador interage apertando botões e girando manivelas como se tivesse na sua frente uma mesa de ferrorama em tamanho real. A interatividade não é acessório, mas parte essencial da narrativa.

A ideia do roteiro surgiu há cerca de dez anos. Na época, o diretor Ricardo Laganaro tinha em mente um curta-metragem tradicional, em live-action. Depois de uma década na gaveta, decidiu retomar a história em uma outra linguagem. 

Terra não revela quanto custou a produção de "A Linha", mas afirma que não recebeu nada de recurso público.

Para ele, uma possível premiação em Veneza pode abrir caminho para financiamento privado no mercado brasileiro de audiovisual e de cultura como um todo --investimentos de alto risco, diz Terra.

"Existe um mercado de venture capital (capital de risco) que está começando a entender que a América Latina pode ser um lugar interessante para se investir."

Questionado sobre os rumos que o governo Bolsonaro tem tomado em relação à Ancine e ao audiovisual brasileiro, Terra diz que "na esfera federal a gente precisa de mais diálogo. Mas essa política precisa e deve, cada vez mais, ser responsabilidade dos estados e dos municípios".

Para o cofundador, deve haver um entendimento, por parte do setor cultural no Brasil, do papel do fomento público com um catalisador apenas. "A gente precisa usar os editais para criar uma indústria forte", diz."Uma parte do empresariado [do setor cultural] acabou criando uma dependência muito grande do fomento público."

"A Linha" não estreou no Brasil e não tem versão em português. O estúdio ainda procura um novo narrador, que não será Santoro. Narrações em chinês e japonês também estão no radar.