'Segurança pública não tem mocinho, só vilão', diz diretor da série 'A Divisão'

Cena da série 'A Divisão', do Globoplay (Imagem: Divulgação Globoplay)

O Rio de Janeiro do final dos anos 90, assolado por uma onda de sequestros, é o cenário de ‘A Divisão’, série inspirada em casos reais que chega nesta sexta-feira (19) ao catálogo do Globoplay. A primeira temporada, com cinco episódios, acompanha em ritmo vertiginoso o trabalho do DAAS, a divisão anti-sequestro da polícia carioca. Um filme derivado está programado para chegar aos cinemas em 2020.

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“Boa parte dos projetos de segurança pública no Rio de Janeiro fracassou. Só uma coisa deu certo, que foi o término da onda de sequestros”, diz o idealizador do projeto, José Junior, fundador do grupo Afroreggae, em mesa redonda com jornalistas, na qual o Yahoo esteve presente.

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“A gente quis mostrar que é possível mudar quando a polícia tem boa vontade, quando os diferentes se juntam”, define, acrescentando que para o sucesso da operação, duas décadas atrás, foi necessária a união entre um general de extrema direita e um chefe de polícia civil de formação esquerdista.

‘A Divisão’ tem cenas violentas, com tiros à queima-roupa, tortura e muita violência, boa parte dela adotada como método pelos agentes da lei. Algo que levanta a questão também sobre os excessos nas ações policiais.

“Na segurança pública, como qualquer lugar do mundo, não tem mocinho. Só tem vilão. Isso é verdade no Brasil e fora do Brasil. A pergunta que a série coloca ao espectador é se os fins justificam os meios”, defende Vicente Amorim, diretor geral da série. “É uma pergunta que hoje se coloca com grande urgência no Brasil”.

Clima de tensão

É impossível assistir aos episódios sem sentir algum tipo de incômodo. De acordo com Amorim, essa é a intenção: criar uma atmosfera que busca causar um desconforto no espectador, a sensação de alguém que não sabe muito bem onde está pisando.

Pelo tema e por ser às vezes até brutal, a série tem uma pegada ‘Tropa de Elite’, o que também não é por acaso. “Pra mim é a maior referência no audiovisual brasileiro, porque mostrou a verdade nua e crua”, afirma José Junior, falando sobre o filme estrelado por Wagner Moura como Capitão Nascimento. “Se você concorda ou discorda não interessa, mas eu te falo: é aquilo que eles mostraram”.

Esse clima de tensão também rondou o set de filmagens. Junior conta que optou por rodar parte das cenas de perseguição entre policiais e traficantes no Complexo São Carlos, onde confrontos do tipo são frequentes. Ele próprio diz ter negociado uma trégua entre os dois lados para a produção pudesse acontecer.

“A gente se recusa a gravar na Tavares Bastos [comunidade tida como pacífica, próxima à sede do BOPE]. Nada contra, mas ali é onde todos os filmes e novelas são gravados. Para mim, fazer algo ali é uma derrota. Eu só gravo em áreas de conflito e gosto de fazer para o conflito para poder rodar”, arremata.

O diretor Vicente Amorim (à esquerda) e José Junior no set de 'A Divisão'. (Imagem: divulgação Globoplay)

Personagens “sem conserto”

A trama de ‘A Divisão’ gira em torno do encontro entre Mendonça (Silvio Guidane), um policial que atira primeiro e pergunta depois, e Santiago (Erom Cordeiro), agente que fatura por fora da corporação aplicando golpes em bandidos. De personalidades opostas, eles são forçados a trabalharem juntos para conter a onda de sequestros, que passa a incomodar também a elite da cidade.

“São personagens quebrados num nível que não tem conserto”, define o diretor, Vicente Amorim. “O nível de angústia pessoal e o tamanho do sofrimento que esses personagens se auto-infligiram não tem conserto”.

“A série mostra as contradições dentro da própria polícia. Tem profissionais que estão ali lutando e tem profissionais querendo surfar sua própria onda. A gente vê esses vários lados da estrutura”, diz Cordeiro, um dos protagonistas. “A divisão anti-sequestro serve como uma redenção para esses dois personagens. A moral dos dois é colocada em jogo”, complementa Guidane, seu parceiro de cena.

Para chegar nesse resultado, o elenco, que ainda conta com nomes bem conhecidos do público, como Natália Lage, Marcos Palmeira, Dalton Vigh e Vanessa Gerbelli, passou por um processo intenso, incluindo encontros com ex-policiais, ex-criminosos e antigas vítimas de sequestradores. Algumas vezes, colocados cara a cara - situação que será explorada num documentário que o canal Multishow exibe no dia 4 de agosto.

“Essas conversas foram muito importantes para jogar a gente nesse universo”, revela Natália. “Porque a tendência é ir para um estereótipo, mas quando você tá com a pessoa ali, e você olha no olho dele, você entende aquela história e as motivações e contradições que cabem dentro daquelas pessoas isso abre para você como ator uma gama de possibilidades muito grande”.

“Não há outra forma de contar uma história com personagens no nível de radicalidade como os nossos têm se os atores não estiverem vivendo aqueles personagens”, resume Amorim.

Erom Cordeiro e Silvio Guidane interpretam os protagonistas da série (Imagem: divulgação Globoplay)