Sean Penn em Cannes dirige e contracena com os filhos em filme sobre família

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CANNES, FRANÇA (FOLHAPRESS) - Com a história de uma afetuosa e turbulenta relação entre pai e filha, o ator e diretor Sean Penn, 60, volta ao Festival de Cannes neste ano com "The Flag Day" (dia da bandeira), disposto a apagar o pesadelo de 2016, quando "The Last Face" chegou a ser vaiado e recebeu críticas pesadas.

Um dos mais hollywoodianos participantes do festival de 2021, ele foi escalado para este sábado (10), que marca o auge dos 12 dias de festival, e para o mais nobre horário das sessões de gala. Por volta das 22h (17h no Brasil), depois de dezenas de poses para fotógrafos e cinegrafistas, ele subiu as escadarias atapetadas de vermelho do Grand Théâtre Lumière, onde convidados só entram de smoking ou vestido de noite.

Em "The Flag Day", Penn aparece em dose dupla, como diretor e como ator. Na verdade, há Penns em dose quádrupla, porque ele contracena com seu filho, Hopper, e sua filha, Dylan --com quem entrou de mãos dadas na sala de cinema.

No filme, os três são também uma família, encabeçada por John Vogel, um vigarista mitômano e sonhador, metido em confusões cujos desfechos fica claro desde o começo do filme. Essa certeza de que nada acabará bem não impede que o espectador continue à espera de uma redenção após cada trapaça ou tropeço de John ou de sua filha, Jennifer -interpretada por Dylan Penn.

Jennifer Vogel é na vida real a autora da autobiografia que serviu de base ao filme de Sean Penn, "The Flim-Flam Man" (o homem enganador). Também no cinema é Jennifer quem ocupa o papel de narradora, num longo flash-back deflagrado pelo último crime de seu pai.

Por suas lembranças, vemos pais e filhos felizes sob um espetacular crepúsculo do meio-oeste americano --na verdade, recriado nas pradarias da província canadense de Manitoba. Amorosa e aventureira, mas instável, a família vai se desmontando conforme os anos passam, as crianças crescem, a mãe se entrega à bebida e o pai é obrigado a fugir de credores ou da polícia.

Jennifer percorre o caminho clássico da adolescente rebelde -põe fogo na escola, usa drogas, é assediada pelo padrasto, sai no braço com a mãe (interpretada pela canadense Katheryn Winnick) e foge de casa para morar com John, decidida a salvá-lo de suas próprias mentiras.

A narrativa, que atravessa os Estados Unidos por pelo menos duas décadas a partir dos anos 1970, também mostra faces diferentes do sonho americano.

John Vogel, que faz aniversário no Dia da Bandeira (14 de junho), se autodescreve como um "empreendedor". "Empreendedor de quê?", pergunta a filha, em uma discussão. "Empreendedor... de negócios! Eu trabalho com oportunidades", responde o pai, cuja definição de oportunidade abrange qualquer truque que possa supostamente fazê-lo enriquecer.

Jennifer simboliza o lado mais luminoso do país, aquele capaz de sobreviver às tragédias e privações e triunfar com base em seu próprio esforço e talento. Não sem marcas, evidentes nos closes expressivos de Dylan, realçados pela filmagem que usou película analógica em câmera 16 mm, com lentes antigas.

Dylan, que disse ter tido dúvidas sobre assumir o papel por não se considerar experiente o suficiente, surpreende com uma atuação poderosa, à altura do talento de seu pai como ator.

"The Flag Day" é o sexto filme de Sean Penn como diretor e o terceiro selecionado por Cannes -além de "The Last Face", ele competiu pela Palma de Ouro também em 2001, com "A Promessa". É o primeiro vez em que ele atua e dirige -e, a julgar por declarações em entrevistas recentes, pode ser o unico.

Como ator, Penn venceu em Cannes em 1997, por "Loucos de Amor", dirigido por Nick Cassavetes. Também ganhou dois Oscars, por "Sobre Meninos e Lobos", que Clint Eastwood dirigiu em 2003, e "Milk", de Gus Van Sant, lançado em 2008.

Na sessão deste sábado, ele foi aplaudido de pé pelo público que lotou os 2.309 assentos do teatro.

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