‘Se um dia o SUS deixar de ser público, população negra será a mais prejudicada pela decisão do país’

Alma Preta
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Dados do Ministério da Saúde mostram que oito em cada dez pessoas autodeclaradas negras no país dependem do atendimento público de saúde. Foto: Jorge Trindade/ Prefeitura Municipal de Resende
Dados do Ministério da Saúde mostram que oito em cada dez pessoas autodeclaradas negras no país dependem do atendimento público de saúde. Foto: Jorge Trindade/ Prefeitura Municipal de Resende

Texto: Victor Lacerda Edição: Nataly Simões

Há mais de 30 anos, o SUS (Sistema Único de Saúde) é consolidado como a principal ferramenta pública de cuidado da saúde da população brasileira, sobretudo da população negra. De acordo com dados do Ministério da Saúde, oito em cada dez pessoas que se autodeclaram como negras no país dependem do atendimento público de saúde.

Uma possível entrega do SUS à iniciativa privada afetaria em cheio os brasileiros pretos e pardos, conforme explica Maria José Menezes, integrante do Núcleo de Consciência Negra da USP (Universidade de São Paulo) e ativista da Marcha das Mulheres Negras de São Paulo.

“A população negra conta com o incentivo público na saúde para viver no país. O SUS é quem garante o acompanhamento das nossas crianças, desde o nascimento até a prevenção de doenças. Se não houver políticas públicas que viabilizem gratuitamente estes atendimentos, será a mesma população que vai pagar pela decisão no país”, afirma.

Segundo Maria José, as tentativas de desmonte do Sistema Único de Saúde são sinônimo de desvalidar uma conquista social de anos.

“O SUS é reflexo de manifestação e luta pelo direito à saúde dos movimentos sociais, por várias vezes questionado pela população negra e conquistado posteriormente. Privatizar o serviço vai de encontro à um difícil resgate histórico da nossa saúde”, justifica.

“Antes do SUS, apenas pessoas de carteira assinada e funcionários públicos tinham o direito gratuitamente. Hoje vivemos em uma democracia no atendimento, que vai desde à consulta até tratamentos mais complexos, como hemodiálise”, lembra a ativista, que também integra a Coalizão Negra por Direitos, organização que reúne mais de 150 entidades do movimento negro.

Em menos de 24 horas, o presidente Jair Bolsonaro (Sem Partido) voltou atrás após receber uma série de críticas da opinião pública por ter assinado um decreto que viabilizaria parcerias entre incentivo público e privado para a criação de novas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e a concessão de uma parcela de autonomia na gestão destes postos.

Nas redes sociais, por exemplo, muitos usuários comparavam o futuro da saúde pública brasileira com a situação complexa da relação entre o serviço de saúde dos Estados Unidos - que é privado - com a pandemia da Covid-19.

Os defensores do atendimento público de saúde temem que uma possível privatização acarrete em falta de acesso à serviços básicos como o atendimento primário, as ocorrência em urgência, distribuição de medicamentos, políticas públicas de prevenção à doenças, campanhas de vacinação e tantos outros recursos que o SUS dispõe gratuitamente aos brasileiros.