"A mensagem não é: 'ame a acne', mas 'SE AME independente da acne'", diz influenciadora do movimento Pele Livre

·7 minuto de leitura
A influenciadora Kéren Paiva viu a sua própria relação com a acne mudar ao falar abertamente do assunto online (Foto: Kéren Paiva / Instagram)
A influenciadora Kéren Paiva viu a sua própria relação com a acne mudar ao falar abertamente do assunto online (Foto: Kéren Paiva / Instagram)

Neste texto, você encontra:

  • Porque a influenciadora Kéren Paiva decidiu falar abertamente sobre acne no Instagram;

  • Os efeitos que essa conversa gerou em si mesma e nos outros;

  • O que precisa mudar para que o padrão de beleza seja abandonado de vez.

Há alguns anos, falar abertamente sobre acne parecia impossível no mundo das peles perfeitas e capas de revista retocadas com Photoshop. Aliás, em um mundo no qual o padrão de beleza ainda tinha uma força tão grande, uma pele que não fosse absolutamente lisa e uniforme estava fora de cogitação. Não à toa, tantas mulheres cresceram na certeza de que não eram bonitas e que, talvez, fosse melhor que se mantivessem no anonimato.

Ainda bem que as coisas estão mudando (mesmo que a passos de tartaruga) e o movimento pela pele livre, natural, tem crescido de forma exponencial nas redes sociais. O #AcnePositivity, um movimento em prol da aceitação de pessoas com pele acneica, já acumula mais de 200 mil postagens, e influenciadoras que levantam essa bandeira, evidenciando a beleza de peles como a de quem sofre de acne, também têm crescido mundo afora.

Leia mais:

No Brasil, um exemplo é Kéren Paiva, que entre uma make maravilhosa e outra, relata o processo de aceitação da própria pele no Instagram, onde acumula quase 50 mil seguidores. Ao falar sobre o movimento Pele Livre e incentivar um skincare "sem neura", ela mostra que é possível encarar a acne não como um definidor da beleza de alguém, mas como parte de uma beleza que é única.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

"Eu convivo com a acne desde os meus 11 anos de idade, hoje tenho 24! Passei por inúmeros tratamentos, e ainda trato. Mas uma coisa nesse tempo todo que eu aprendi, e que mudou tudo pra mim: eu não posso esperar ter uma pele livre de acne pra começar a viver!", escreveu ela como legenda de uma foto recente.

Baixe o app do Yahoo Mail em menos de 1 minuto e receba todos os seus e-mails em um só lugar

Siga o Yahoo Vida e Estilo no Google News

E, de fato, Kéren não é a única que lida com essa questão. Dizem as pesquisas que a acne afeta 90% da população adolescente e, segundo dados da Sociedade Brasileira de Dermatologia, em torno de 56,4% da população adulta. Aqui, os números são variados, e alguns estudos dizem que de 20 a 40% das mulheres no mundo apresentam algum grau de acne depois de adultas - e, sim, elas costumam ser afetadas pela condição depois da puberdade mais do que os homens. É por isso que existe um nome específico para a condição: AMA, ou Acne da Mulher Adulta.

Falando sobre acne, em alto e bom som

Apesar de ser uma questão comum mundo afora, não é simples encontrar pessoas que conversem abertamente sobre o tema - ainda mais com um viés de aceitação. Mas esse foi um dos pilares que ajudou Kéren a se tornar mais aberta sobre o que sentia e sobre a própria pele. "Foi quando eu comecei a mudar a minha relação com a minha pele, a perceber que eu não precisava ter vergonha dela, que eu percebi também que eu não via pessoas falando sobre isso, e eu sabia que eu não estava sozinha nessa!", diz ela. "Eu quis muito encontrar essas pessoas para passar uma mensagem positiva de liberdade e fazer com que elas entendam que são livres e que não há erro nelas!"

E ainda que ajudar as outras pessoas a se perceberem de forma diferente seja um dos seus objetivos, a influenciadora percebeu que esse bate-papo aberto nas redes sociais teve um impacto profundo nela mesma, como um passo gigantesco na sua própria desconstrução.

"Eu percebo uma clara mudança: quando eu comecei a falar sobre isso, eu tinha um nível de consciência sobre a minha pele e desconstrução, mas pelo caminho e hoje, especificamente, eu me vejo mais evoluída com relação a isso e eu atribuo bastante essa questão a ter falado sobre isso!".

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Por mais que a internet seja um espaço bastante público, é importante notar que essa conversa que começou no Instagram foi fruto de um processo que a própria Kéren vivia no âmbito offline, tanto que, quando começou a postar sobre o tema nas redes sociais, ela ainda não saía de casa sem maquiagem. Esse compartilhar da sua jornada, no entanto, permitiu que esse ato se tornasse parte da sua rotina quase que de forma natural. "Gosto de falar que mostrar o movimento pele livre liberta pessoas pelo caminho, mas ele me liberta também todos os dias um pouco mais!", continua.

Sobre o seu entorno, ela explica que a principal percepção que teve foi que as pessoas passaram a respeitá-la e a sua pele muito mais ao acompanharem a jovem falando sobre isso com tanta liberdade - aliás, é por isso que ela acredita que todo esse movimento, por mais que tenha uma influência externa, começa com a própria pessoa.

Ah, e essa liberdade tem se refletido na aceitação - e transformação - do seu público. Ao longo do tempo, Kéren percebeu pessoas se libertando como ela, e se enxergando de maneira mais acolhedora, realmente começando a se sentir bem na própria pele. "Quando paro para pensar eu me emociono muito, e me sinto muito honrada de saber que de alguma forma eu contribuo para que elas se sintam bem e livres, e meu objetivo é tentar fazer isso ao máximo!"

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Para abranger e aumentar ainda mais a conversa, Kéren e a amiga, Layla Brigido, criaram o projeto Toda Pele Pode Tudo e Todo Corpo Pode Tudo. A ideia é amplificar a mensagem de liberdade e diversidade mostrando que as pessoas podem ter peles e corpos diferentes, mas todo caso é sempre lindo.

Nova beleza?

Apesar de o movimento da influenciadora estar ganhando corpo nas redes sociais, não dá para negar que a indústria da beleza e a sociedade em si, ainda lucra - e muito! - com as inseguranças femininas. Com o discurso de "encontre a melhor versão de você mesma", essas duas entidades ainda fazem questão de vender (literalmente) o que é considerado um padrão, que elas mesmas criaram.

O boom de livros como Mulheres que Correm com Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, e O Mito da Beleza, de Naomi Wolf, mostram uma busca por respostas sobre o porquê de as mulheres serem tratadas e vistas da maneira que são tratadas e vistas, e exemplificam de que forma a sociedade foi construída para, de maneira intencional, tornarem a norma narrativas mentirosas sobre o que é beleza e o que é a utilidade feminina nesse contexto.

"É papel da indústria e da sociedade mostrar que a beleza é diversa! Que existem individualidades e características diferentes e não há erro nisso, não há insuficiência nisso e não existe só um modelo porque a beleza é diversa!", diz a influenciadora.

Este conteúdo não está disponível devido às suas preferências de privacidade.
Para vê-los, atualize suas configurações aqui.

Entretanto, não há como negar que passos foram dados, afinal, como aponta a própria Kéren, a conversa que ela tem hoje sobre acne seria inimaginável anos atrás. A resistência ao assunto e à desconstrução de padrões como um todo ainda é bastante presente, mas o caminho já começou a ser traçado.

"As pessoas não entendem, ou não querem entender o que é a acne, o que desencadeia a acne como uma doença multifatorial, não entendem que a nossa mensagem não é: 'ame a acne' mas 'SE AME independente da acne', nossa mensagem não é 'não trate a sua acne' e sim 'você é livre, merece se cuidar e se tratar sim, mas não merece deixar de viver em função de uma condição de pele' porque é isso que eu fazia e que eu vejo muita gente fazer ainda", diz ela. "A gente vive em função disso, deixa de sair, deixa de viver, deixa de fazer e usar coisas que amamos porque aprendemos que uma pele acneica é feia, errada e descuidada. Ouvimos que somos sujas e insuficientes e isso, sim, não é justo!"

Para que uma mudança total da visão da sociedade sobre acne ou qualquer outro aspecto do padrão de beleza aconteça, ainda vai tempo. No entanto, a mensagem de Kéren ainda toca em um ponto fundamental: a transformação precisa começar em cada um para que, assim, a sociedade e a indústria percebam que estão lidando com pessoas mudadas. Essas instituições vão ter que se adaptar a essas transformações internas e não mais o contrário. "A perfeição que nos enfiaram goela abaixo não existe! Estamos começando a acordar para isso, e tomara que cada vez mais pessoas falem sobre isso e levem essa mensagem para que também cada vez mais pessoas possam se libertar e enxergar beleza em si mesmas! Não somos insuficientes", finaliza.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos