Saúde mental em 30 segundos: terapeutas e psicólogos são a nova sensação do TikTok

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Sad teen with a phone in her bedroom
Conteúdos desenvolvidos por psicólogos têm crescido e angariado milhões de visualizações no TikTok (Foto: Getty Creative)

De batom vermelho, cabelos longos e roupas descoladas, uma terapeuta usa o TikTok para explicar, de forma divertida, como um amigo pode ajudar alguém que está passando por uma crise depressiva. Na conta ao lado, outro terapeuta usa óculos escuros e peruca para mostrar como os adolescentes se sentem quando estão lidando com pais tóxicos. Um terceiro perfil mostra outro profissional, também terapeuta, dançando ao som de um rap, usando chapéu e óculos escuros para mostrar aos seus seguidores que terapia é legal.

Juntos, esses três perfis na rede social somam quase 4 milhões de seguidores, um número impressionante para uma rede que é impressionante por si só - não à toa os Reels chegaram ao Instagram como uma concorrência ao sucesso absoluto do TikTok entre os adolescentes.

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Aliás, é justamente a esses jovens que esses perfis se destinam. Somados ao muitos criados por ginecologistas, que tiram dúvidas básicas sobre educação sexual, e que surgiram na rede desde a sua criação, o aplicativo vê, agora, um crescimento enorme no número de usuários que são profissionais de saúde mental e que tem ajudado adolescentes a lidarem com as suas questões.

No primeiro caso apresentado no parágrafo inicial deste texto, a Dra. Courtney Tracy usa de muitos recursos para explicar o que é depressão, o que são traumas de infância, como lidar com pensamentos suicidas e como ela própria lida com os seus transtornos de ansiedade e depressão. Em entrevista ao The New York Times, Courtney explica que viu os números dos seus vídeos explodirem depois que abriu o jogo sobre como ela própria se sentia a como se cuidava. Em seguida, ela recebeu dezenas de mensagens de jovens que não acreditavam ser possível trabalhar como terapeuta enquanto lidavam com questões de saúde mental.

O Dr. Marquis Norton, conhecido na rede pelo arroba @drnortontherapy, começou a crescer por lá quando passou a falar sobre saúde mental com foco em jovens da comunidade preta nos Estados Unidos, também como uma forma de tirar o tabu em cima do assunto para pessoas que lidam com tantos traumas e uma rotina de violência gigante nos Estados Unidos - o movimento Black Lives Matter não existe por lá sem motivo.

E é interessante pensar como profissionais de saúde mental têm ganhado tanto destaque num meio dominado pelos jovens. Na rede social, em que os adolescentes são maioria, esses profissionais, com seus vídeos divertidos e respostas certeiras, encontraram maneiras de quebrar a barreira do tabu e trazer o assunto para mais perto de um público que, mutias vezes, não sabe ou não tem com quem conversar sobre o que sente e pensa.

Segundo a OPAS, a Organização Pan-Americana da Saúde, acredita-se que as condições de saúde mental são responsáveis por 16% da carga global de doenças e lesões em pessoas com idade entre 10 e 19 anos - ou seja, no mundo inteiro o estado mental dessas crianças e jovens se reflete na sua condição de saúde física, seja com o desenvolvimento de uma doença, seja com machucados ou acidentes cotidianos.

Mais do que isso, a organização informa que metade das condições de saúde mental registradas começam aos 14 anos, mas a maioria dos casos não é oficialmente detectada ou tratada - o que se relaciona diretamente com outro dado, bastante assustador e prevalente até hoje: o suicídio é a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a depressão é uma das principais causas de doença incapacitante entre adolescentes no mundo inteiro.

Com mais de 2 milhões de seguidores na rede, o argentino Leandro Olszanski, pHd em psicologia pela Universidade de West Georgia, nos Estados Unidos, criou uma comunidade tão forte na rede social que tem até uma linha de roupas e acessórios com ilustrações e letterings que dizem que "a terapia é legal". Tem motivo, claro: Leandro usa a rede social para falar diretamente com os adolescentes sobre a sua relação com os pais, e os vídeos engraçados, rápidos e de identificação instantânea fazem com que ele ultrapasse a marca de meio milhão de visualizações em alguns deles.

O que ele diz perceber, em entrevista ao Yahoo Vida e Estilo espanhol, é que os jovens da geração Z, maioria na rede social, tem uma capacidade de aceitação e de abertura para a conversa que torna o trabalho de um terapeuta muito mais fácil - mesmo que ele tenha que entrar nas brincadeiras e modinhas do aplicativo. "O que me enche o coração é que [os seguidores] muitas vezes me dizem que não se sentem mais sós, que, graças ao que viram, ousaram falar com os pais sobre o seu estado de saúde mental, ou até marcar uma consulta com um psicólogo. O número de crianças que começaram a terapia porque viram esses vídeos no TikTok é grande, elas se sentem compreendidas, motivadas a procurar ajuda".

Leandro tem também um podcast em que busca responder perguntas tanto dos jovens quanto de seus pais, porque é seu objetivo estreitar essa relação e mostrar que pais e filhos podem se entender quando o assunto são dificuldades emocionais - a questão é a disponibilidade de cada um e o gap geracional. Para a geração mais nova, falar sobre o que sente e pensa sem ser repreendido pelos mais velhos (que ainda têm uma visão antiga sobre saúde mental) é o mais comum. O seu foco, então, é usar esse conteúdo para quebrar essas barreiras e abrir a conversa o máximo que puder.

A tendência, aliás, já chegou em PT-BR, como dizem por aí: psicólogos e terapeutas brasileiros também aproveitam a rede social como uma ferramenta de aproximação com os jovens de um país que, como já se sabe, é considerado o mais ansioso do mundo - isso sem contar os efeitos causados pela pandemia do coronavírus, que atingiu proporções gigantescas por aqui. Larissa Borges já gravou para os seus mais de 500 mil seguidores vídeos sobre traumas, dicas de como lidar com crises de ansiedade e até mesmo vídeos com dicas de como escolher um profissional de psicologia para se consultar.

Consulta rápida e resultado idem?

O movimento de psicólogos usando da tecnologia para se aproximar do público jovem é sempre bem-vindo - e até aplaudido, já que conversar com adolescentes costuma ser complicado para os pais e professores. No entanto, é preciso muito cuidado e atenção com o conteúdo consumido, afinal, vídeos sobre psicologia e terapia não servem como tratamento para questões de saúde mental.

Como dito acima, o suicídio e a depressão têm uma incidência gigante em crianças e adolescentes e, aos pais, é importante ficar atento aos sinais de que algo está errado e buscar maneiras de estimular e começar conversas com esses jovens. O foco deve sempre ser prover o seu bem-estar e segurança como um todo, além de evitar que essas questões finquem raízes e tenham efeitos na vida adulta desse jovem. Não é uma tarefa simples e, via de regra, os próprios pais vão precisar de ajuda para isso. No entanto, uma coisa é certa: muitas vezes, um adolescente só quer alguém para conversar que não julgue ou diminua o que ele sente ou faz. Esse pode ser um bom ponto de partida.

Conteúdos como o desses profissionais é interessante para gerar, também, identificação e auto-consciência - muitas vezes, as pessoas não percebem que estão mal, mentalmente falando. Na correria de um dia a dia cheio de tarefas e, mais recentemente, reuniões e aulas online, sentimentos e sensações ruins podem passar despercebidos até o ponto de se tornarem insuportáveis. O jeito, então, é ter em mente que esses profissionais servem como uma inspiração para que jovens procurem ajuda fora da internet, de preferência com a ajuda dos pais, se possível. Caso contrário, podem servir como uma comunidade segura ao qual o jovem pode recorrer em caso de necessidade. Ainda assim, o profissional, como um adulto, precisa ter ciência das próprias responsabilidades ao lidar com jovens em situações de vulnerabilidade, afinal, com números como esses, eles se tornam, sim, influenciadores e uma referência para muitos jovens.

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