O que será de nós em 2021?

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Como será o ano de 2021? (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo Brasil)
Como será o ano de 2021? (Arte: Fer Rodrigues/Yahoo Brasil)

Há um ano, os bloquinhos de Carnaval tomavam as ruas com sua alegria rotineira. Saíam cedo e terminavam tarde. Espalhavam glitter pelas cidades. As pessoas andavam aos montes, se aglomeravam, abraçavam, beijavam. Riam das fantasias alheias, riam umas das outras, riam de si mesmas, pelos mais variados motivos. Até então, o coronavírus era só uma ameaça aparentemente distante, que acontecia do outro lado do mundo, sem previsão de chegar por aqui.

O primeiro caso foi confirmado na quarta-feira de cinzas, 26 de fevereiro de 2020, quase uma forma de dizer oficialmente "a festa acabou". E acabou mesmo. Semanas depois, em 17 março, foi decretada a primeira de muitas quarentenas nos grandes centros urbanos como São Paulo. O trabalho no escritório, agora acontecia dentro de casa. A escola das crianças também. As rotinas de exercícios, para quem tinha cabeça para isso, também. Parecia um cenário apocalíptico. Olhar pela janela e ver as ruas vazias é uma imagem que, possivelmente, jamais vamos esquecer.

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A falta de informações precisas sobre a doença e suas formas de transmissão geraram medo. O desencontro entre governadores e o presidente da República, também. Ninguém sabia o que fazer - ainda não sabemos. As pessoas iam aos mercados estocar itens básicos - quem lembra dos estoques intermináveis de papel higiênico e a falta de álcool 70 nas prateleiras?

Todo mundo se voltou para a internet, a única forma de manter contato com o mundo exterior. Lives, conversas com amigos e familiares por Facetime, aulas pela internet, séries, filmes, trabalho… tudo acontecia por trás de uma tela. As casas foram invadidas por plantas, metade do Instagram decidiu aprender a fazer pão, meio Brasil virou fiscal da quarentena alheia e o cansaço, ao fim do ano, foi insuportável.

Um panorama sobre saúde mental pós-2020

Dizem que 2020 não foi o pior ano da humanidade (esse título fica a cargo de um ano perdido no século 6, com erupções vulcânicas e terremotos para coroar), mas se não em termos de tragédias naturais, com certeza foi um dos piores para o emocional e mental coletivo.

Um estudo recente desenvolvido por uma universidade de medicina de Singapura, já mostra os efeitos da pandemia de coronavírus na mente humana: 1 em cada 3 pessoas se sentiram constantemente ansiosas ou depressivas, as mulheres foram mais afetadas que os homens (o que não é novidade), o alto contato com notícias sobre a pandemia deixou as pessoas mais ansiosas e depressivas (o que também não é novo) e os jovens com menos de 35 anos foram mais afetados emocionalmente do que as pessoas com mais de 35 (o que foi uma surpresa).

Ansiosos, todos estamos!

Nesse estudo, porém, um dado chama a atenção: dizem os pesquisadores que as notícias sobre a vacinação ainda não tiveram um efeito positivo no psicológico das pessoas. O distanciamento social e toda a situação global ainda pesam mais.

Para a Dra. Flora Victoria, mestre em psicologia positiva aplicada pela Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, o impacto da pandemia está sendo forte não só no Brasil, mas no mundo inteiro.

Por aqui, uma pesquisa desenvolvida pela UERJ, a Universidade Estadual do Rio de Janeiro, mostrou que os casos de depressão dobraram durante o período pandêmico. Já outra, feita pela UFRGS, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul, revelou que 80% da população brasileira se mostrou mais ansiosa, e 68% apresenta sintomas depressivos. Isso sem contar o aumento nos relatos de sentimentos de raiva, dores e mal-estar (que estão conectados ao estresse) e de alteração no sono.

Curiosamente, na contramão disso, o acesso aos serviços de saúde mental estão mais complexos. Um estudo da OMS feito com 130 países mostrou que, em mais de 60%, houve interrupções nos serviços de saúde mental para pessoas vulneráveis. O que corrobora com um dado daquele primeiro estudo, de Singapura, que diz que pessoas menos escolarizadas e de classes sociais mais baixas também sofreram mais com efeitos psicológicos negativos.

"As pesquisas nos mostram que a depressão e outros problemas relativos à saúde mental, como o estresse e a ansiedade, estão aumentando. Isso afeta o bem-estar, a qualidade de vida, a produtividade e a performance, tanto na vida pessoal quanto profissional. E afeta também a saúde física. O estresse, por exemplo, pode levar à hipertensão, que, por sua vez, nos torna mais vulneráveis ao enfarte e ao AVC. O fato é que a saúde mental e a saúde física estão interligadas. Tudo o que afeta a saúde mental pode acabar afetando, também, a saúde física. E precisamos de ambas para viver melhor, trabalhar, produzir, criar e sair da crise", explica Flora.

Com isso, já é possível prever o que esperar de 2021 - de fato, não será simples. Mas tem mais. A doutora em Psicanálise e membro da Academia Fluminense de Letras para Ciências Sociais Andréa Ladislau, explica que a saúde psicológica da maioria das pessoas foi devastada porque está diretamente ligada aos seus direitos de posse e às suas liberdades. 

Ao tirar uma, ou as duas, as pessoas se desintegram emocionalmente. É o que temos visto, diz

 "Acredito que tem sido tempos de desafios intensos. O maior deles talvez seja ampliar a nossa capacidade de adaptação. Sofremos diversas alterações que mexem profundamente com nossa psique. Afinal, o indivíduo se sente mais confortável quando as coisas são previsíveis. A grande questão é que a necessidade em ter o controle das situações nas mãos é um sentimento intrínseco de nossa espécie."

E, se 2020 foi prova, é impossível ter o controle de qualquer coisa quando uma pandemia bate à porta. É impensável, inclusive, descartar a possibilidade de que 2020 gere um trauma no emocional e mental da população como um todo "uma vez que as incertezas e os desafios que estamos vivendo nos últimos tempos, podem desencadear sentimentos e sensações inesperadas", continua a psicanalista Andréa. 

"Todo desequilíbrio está alicerçado na insegurança em não poder controlar o que nos rodeia. Chamamos situações como essas de estresse pós-traumático, um estresse que, vivenciado após uma situação adversa, certamente, vai alimentar e fomentar medo, angústia, sensação de inutilidade e a vulnerabilidade de todo indivíduo."

Será que conseguimos sair dessa?

É, olhando por esses números, para os acontecimentos do ano e como 2021 começou, o prognóstico não é dos mais positivos. Falar sobre saúde mental também não é simples. Mesmo com números assombrosos como esses, ainda é um tabu.

Os impactos podem ser intensos se não nos prepararmos para acolher com mais afeto, humanização e cautela as questões emocionais, reflete a doutora em psicanálise Andréa Ladislau. 

"Sem dúvidas, muitas pessoas estão abaladas com todo o ocorrido dos últimos tempos, sejam pelas perdas por morte, perdas financeiras ou distanciamento do cuidado. Desta forma, se a desaceleração da mente e uma maior atenção aos pequenos detalhes não for promovida entre adultos, jovens, crianças e idosos, não teremos saídas para minimizar os impactos negativos que a pandemia instaurou."

Por esse viés, o fracasso é quase certo e as próximas décadas serão só um reflexo do caos que foi esse único ano. Mas somos do time dos inconformados, e sabemos que há uma forma de reverter o processo ou, no mínimo, diminuir os seus efeitos. Para isso, é preciso buscar uma nova forma de olhar para o mundo e, principalmente, para as pequenas coisas. No entanto, tudo começa com um ponto básico.

"Esses impactos podem ser diminuídos se começarmos a cuidar de nossa saúde mental. É importante buscar ajuda especializada se o problema estiver fora de controle. Mas há, também, coisas que podemos fazer para evitar que o problema piore", comenta a mestre em psicologia positiva Flora Victoria.

Energia, espiritualidade!

Alguns desses pontos, diz ela, são altamente práticos. Dizem respeito a aprendizados que estão totalmente na nossa seara: aprender a controlar ou reduzir o estresse e a ansiedade; aumentar a nossa resiliência física e psicológica; conhecer e utilizar as nossas forças; equilibrar emoções negativas e positivas; desenvolver perspectiva; descobrir ou resgatar um propósito de vida que seja motivador. Cada um desses aprendizados tem os efeitos comprovados pelos pesquisadores da psicologia positiva, ou seja, a ciência do bem-estar. E estão ao alcance de qualquer pessoa.

"Se entendermos que o homem é um ser que, por sua racionalidade, sabe explorar a necessidade das adaptações, podemos nos deparar com um amanhã onde a distância seja normal e aceitável. A sensação de perda do mundo, de uma forma inédita e forçada, nos obriga a repensar valores primários, diálogos, união e intimidade. Nosso modo de estar no mundo não é mais o mesmo", complementa Andréa.

De fato, o mundo não é mais o mesmo, e esperar que ele volte a ser como era um Carnaval atrás é uma receita para a frustração. O foco deve estar, portanto, em usar o tal do novo normal, com interações sociais diferentes, novas tecnologias e formas de se comunicar, como um gatilho positivo para trabalhar a nossa inteligência emocional. Isso, claro, considerando o contexto de cada um e sempre lembrando que as dificuldades e os momentos de luto e de tristeza devem ser respeitados.

Mas eu não sei por onde começar…

Antes de mais nada, calma. Quando as sensações são avassaladoras demais, é importante, em primeiro lugar, tomar consciência do que se sente e fazer-se uma pergunta sincera: eu quero mudar o que eu sinto e a vida que tenho levado hoje? Se a resposta for "sim", você pode seguir os caminhos indicados pelas médicas abaixo, lembrando sempre da possibilidade de buscar ajuda profissional caso você perceba que o seu emocional está fora de controle. Terapia gratuita aqui

Comece encontrando o seu propósito, aquilo que dá direcionamento e motivação para a sua vida, diz Flora. 

"Depois, encontre objetivos que ajudem você a viver esse grande propósito e entre em ação. Por mais complicadas que as coisas possam ser nesse momento, sempre é possível encontrar coisas que você pode fazer para começar a perseguir seus objetivos. Da mesma forma, você também pode organizar o seu tempo, a sua rotina e o espaço ao seu redor. Isso vai ajudá-lo a ser mais produtivo, desfrutar de mais bem-estar e reduzir o estresse."

O primeiro passo é estabelecer uma meta: não enlouquecer e não enlouquecer quem está a sua volta, explica Andréa. 

"Sabendo que todas as relações se sustentam pelos níveis de prazer acima dos níveis do desprazer, e que os comportamentos destrutivos devem ser vigiados e descartados, a meta é fortalecer-se e fortalecer o afeto com o próximo e conosco. Autocuidado. Controle da agressividade e do medo, reagindo com ponderação, polidez e diplomacia. Além do respeito ao limite do outro. Outro fator é, não alimentar dentro de si, a mágoa e a dúvida."

Se uma palavra pudesse definir 2021, talvez essa palavra seja resiliência. E, como diz a psicanalista, ser resiliente requer persistência, um conhecimento das próprias habilidades e fraquezas, uma proatividade para "o melhor desenvolvimento das atitudes positivas frente aos infortúnios diários". O conhecimento de si, aliás, vai além, já que determina também o que é a felicidade e o bem-estar que cada um vai precisar buscar a partir de agora.

Como disse a psicóloga, a felicidade que falamos aqui não é um sentimento fútil e egoísta, não ignora a dor e o sofrimento. Não são óculos de lentes cor-de-rosa. É o cultivo cotidiano de emoções positivas para não deixar que as negativas predominem sempre. É reconhecer as coisas boas que nos acontecem, por mais simples que sejam, e expressar gratidão, valorizar e buscar pequenos momentos de alegria, de tranquilidade, de contentamento. É viver o presente e saborear os pequenos prazeres da vida. São pausas fundamentais para que possamos renovar as energias, e ficarmos mais fortes e motivados para enfrentar os desafios.

Sim, resiliência. E, também, paciência, gentileza e compreensão. Se não com o mundo, que ainda parece caótico, pelo menos, consigo mesmo. E, nessa jornada, tenha certeza que vamos juntos.

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