Sarah Paulson: 'ambiente político tóxico é o verdadeiro terror contemporâneo'

Sarah Paulson em ‘Vidro’ (Foto: divulgação)

Por James Cimino (@rei_da_selfie)
Especial para o Yahoo! em Nova York

Ser psicólogo é um trabalho que exige uma responsabilidade monumental, pois este profissional trata dos traumas e conflitos de terceiros. Imagine fazer terapia de gente que acredita ter super poderes? 

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Este foi o desafio da atriz americana Sarah Paulson no filme Vidro, episódio final da trilogia do diretor M. Night Shyamalan que iniciou em 2000 com Corpo Fechado e continuou em 2016 com Fragmentado.

O desafio de sua personagem, Ellie Staple, é tentar convencer David Dunn (Bruce Willis) que ele não é indestrutível, Kevin Wendell Crumb (James McAvoy) que ele não tem 23 personalidades e Elijah Price (Samuel L. Jackson) que ele não é a mente mais brilhante do mundo. 

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Esta categoria de distúrbios de personalidade é bastante obscura e que não permitiu a atriz um estudo amplo de suas implicações conforme ela mesma explicou ao Yahoo!. A limitações não a impediram, no entanto, de embarcar na mente da psiquiatra com a profundidade típica de seus trabalhos anteriores, como as várias personagens de American Horror Story, série de terror que a tornou estrela mundial, e O Povo Contra O.J. Simpson, que lhe rendeu um Emmy de melhor atriz de minissérie. 

Toda vez que você se posiciona publicamente, as pessoas se sentem no direito de jogar pedras…

Em entrevista exclusiva, Paulson fala sobre ter se tornado um ícone da comunidade lésbica ao assumir seu romance com a atriz Holland Taylor, 32 anos mais velha, e também comenta a estranha coincidência entre a sétima temporada de “American Horror Story” com o atentado sofrido pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.

Yahoo: Sua personagem faz uma piada sobre os cosplayers das Comic Cons ao redor do mundo. Por que você acha que tanta gente prefere viver como uma personagem de ficção a encarar a realidade?

Sarah Paulson: Bom, tem gente de todo tipo no mundo, né? Mas basicamente é porque a vida é dura. É o cotidiano das pessoas é cheio de desafios. Então, toda vez que a gente tem oportunidade de mergulhar em um universo que nos faça senti poderosos, belos, especiais, não acho que haja nada de errado com isso.

A sua personagem neste filme é um pouco passivo agressiva. Ela sempre se mostra compreensiva, mas acaba revelando sua verdadeira face no final. Fale um pouco sobre ela…

Eu não a vejo como passivo-agressiva de forma alguma. Pelo menos do meu ponto de vista interno, de quem a interpretou. De qualquer modo é sempre muito interessante ver como as coisas se refletem para quem esta assistindo. Para mim ela é uma pessoa que tem uma batalha interna entre suas dúvidas e seu ceticismo. Tem uma frase dela, não sei se entrou na edição final, em que ela diz: “Eu quero acreditar em você. Eu quero ser convencida.” Essa cena foi gravada com o Bruce [Willis]. Se tiraram isso é uma pena.

Para mim ela apenas acha que qualquer indivíduo que se crê mais poderoso que os outros é uma pessoa perigosa para a sociedade. E é melhor para que o mundo esteja em paz que todos estejam em pé de igualdade. E eu acho que ela pensa que a “ilusão” deles [sobre seus poderes] o está fazendo ter uma vida infeliz.

Dr. Ellie Staple (Sarah Paulson) tenta convencer personagens que eles não possuem superpoderes (Foto: Divulgação)

Este discurso é um pouco perigoso, porque muita gente acha que pessoas que são ou agem diferente não deveriam existir. Especialmente nos dias de hoje, com o presidente que se tem aqui nos Estados Unidos e o que foi eleito no Brasil…

Deixa eu esclarecer melhor. Porque eu definitivamente não acredito nisto que você falou nem remotamente. O que estou dizendo é que a personagem acha que pessoas que se acham mais poderosas — e as mais poderosas do universo — causam um tipo de distúrbio na sociedade. Porque eles se acreditam maiores e mais importantes que as outras pessoas. Não estou dizendo que pessoas deveriam ser isoladas apenas por serem diferentes. A mensagem desse filme é deixar aquilo que te torna único e seu poder pessoal ser liberado. 

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Você se tornou famosa mundialmente por seus diversos papeis na antologia American Horror Story. Como você acha que essa série alterou a forma como personagens femininas são representadas? Há uma mensagem feminista em várias das temporadas…

Ryan [Murphy, produtor e autor da série] tem como foco de interesse histórias femininas. Não apenas, mas todo mundo que não tem voz. 

Mas porque especificamente através da narrativa do terror?

É porque toda vez que você conta histórias simples de forma espetacular ou extremista, mas com uma mensagem que não seja muito evidente no começo, as pessoas captam melhor. Não acho que American Horror Story tenha mudado a forma de representar as mulheres em filmes de terror, porque você vê a franquia Halloween e é toda com mulheres poderosas como protagonistas lutando, de certa forma, contra o patriarcado. Mas certamente esta série é responsável por mostrar uma novo ponto de vista sobre o gênero terror. 

Na sétima temporada, um candidato político de extrema direita arma um atentado contra si durante um comício. Ele diz que ele precisa morrer para ressuscitar e, assim vencer a eleição, porque o país é cristão e adora uma história de ressurreição. Você sabia que o candidato eleito presidente do Brasil — com inclinações políticas semelhantes — também sofreu um atentado e há quem diga que foi armado?

Olha, este é um dos exemplos mais extremos de coisas que apareceram naquela temporada e que aconteceram na vida real. O Ryan parece ter um conhecimento ou um entendimento prévio das consequências deste ambiente político tóxico em que vivemos, que é o verdadeiro terror contemporâneo. Em nossos países, aparentemente nada parece impossível no que diz respeito à maneira chocante com que estamos sendo vistos pelo resto do mundo. É assustador.

Você se tornou um ícone da comunidade lésbica. Você estava preparada para as reações quando revelou seu relacionamento com uma mulher 32 anos mais velha?

Não. A verdade é que eu não baseio minhas decisões considerando o que o público vá pensar. A coisa mais maravilhosa é que meu relacionamento tem sido amplamente aceito e as pessoas no geral são amáveis e nos apoiam. Estranhos que nem me conhecem e que estão felizes por mim. Mas claro que sempre tem pessoas desprezíveis na internet que fazem os comentários mais detestáveis sobre nossa diferença de idade. Toda vez que você se posiciona publicamente, as pessoas se sentem no direito de jogar pedras…

Há alguns anos isso poderia ter afetado negativamente sua carreira. Você pensou sobre isso?

Eu acho que pensei por alto, mas acho que isso preocupou mais as pessoas que trabalham comigo que o contrário. E eu estava apenas feliz por ter conhecido alguém e estar apaixonada. Não estava interessada em usar isso como bandeira política, o que eu acho uma loucura, mas a maior razão é que o nosso mundo está caminhando para outra direção. E isso não afetou em nada minha carreira. Eu interpreto diversos personagens que nada têm a ver com minha vida pessoal. Acho a coisa mais deprimente de ouvir quando favorecem um tipo de ator para um tipo de papel. E não acho que a indústria me veja como atriz para apenas determinado tipo de personagem. Fico feliz por isso.