Salone del Mobile sai da pandemia pensando em saúde e vida no home office

MILÃO, ITÁLIA (FOLHAPRESS) - Muitas profecias foram disparadas sobre as transformações nas casas, no trabalho e nas cidades que viriam como resultado da pandemia. Algumas apostas caducaram ainda em 2020, como redomas ao redor de cadeiras para forçar o distanciamento em restaurantes. Outras vingaram, como a mudança na rotina do trabalho presencial de muitas profissões, o que, por fim, aumenta o número de horas vividas no espaço doméstico.

Ausente desde 2019 em sua versão integral, a Semana de Design de Milão está de volta e traz reflexões para questões emergentes nos últimos anos. O evento, o mais relevante do mundo na área, acontece até o próximo domingo no norte da Itália, organizado em dois eixos principais. O Salone del Mobile, ou salão do móvel, a feira comercial que existe há 60 anos, reúne mais de 2.000 expositores em 20 pavilhões. Enquanto o Fuorisalone, como é chamada a programação paralela, contabiliza mais de mil ações por toda a cidade.

Mais do que um período de lançamentos de produtos e ações publicitárias, a semana é um festival que toma conta de Milão, com mostras também conceituais e experimentais. Diante de tal volume de coisas concentrado em poucos dias em endereços espalhados, fica difícil mapear com precisão todos os movimentos. Mas é possível identificar temas que sobressaem e ganham abordagens diferentes entre os designers. Um deles, nesta edição, é a saúde mental.

O debate, que foi intensificado pelos anos de pandemia, aparece nas exposições dedicadas à inovação e aos novos talentos.

Na Alcova, que ocupa as instalações desativadas de um hospital militar centenário na periferia, o chinês Duyi Han, arquiteto com experiência em projetos hospitalares, apresenta uma linha de mobiliário, que mistura técnicas tradicionais chinesas com referências a termos associados à saúde mental, como os neurotransmissores dopamina e serotonina, e perguntas formuladas por psicoterapeutas. Pensada como parte de uma instalação maior, a linha, revestida de seda em cores cítricas, tenta provocar um efeito suavizante no usuário.

Também ali, o estúdio dinamarquês Tableau e a clínica Post Service exibem o resultado do trabalho desenvolvido com 14 homens, entre os quais há alta taxa de suicídio no país, para refletirem sobre seus próprios estados mentais e, a partir disso, criarem móveis e outros itens funcionais.

"Na clínica, trabalhamos com objetos como forma de projetar neles emoções e liberar revelações não verbais", conta a terapeuta Xanthippi de Vito.

Os dois trabalhos, entre quase cem expositores, ajudam a entender como funciona a Alcova, um dos endereços mais surpreendentes atualmente, pelo conteúdo e a localização. Segundo seu fundador, o arquiteto britânico Joseph Grima, a plataforma busca promover o design, seja de profissionais independentes, de renomados escritórios ou praticado em instituições de ensino, que estejam dispostos a inovar e a correr riscos. "Estamos menos interessados em objetos, e bem mais em pessoas", afirma.

Dentro do Salone del Mobile, a área dedicada a revelar novos talentos, o Salone Satellite, tem como tema a ideia de projetar para o nosso próprio futuro, o que levou designers a apresentarem alguns trabalhos ligados a saúde mental e autoconhecimento e outros com soluções para pessoas com problemas de mobilidade e idosos, como poltronas que podem ser reguladas em altura e apoio de braços ao longo dos anos. O concurso de melhor projeto foi vencido pela nigeriana Lani Adeoye, que criou um andador com acabamentos artesanais de forma escultórica.

Na feira principal, onde estão os grandes nomes da indústria, aparecem evoluções funcionais para questões atuais —mas, aqui, em vez de saúde mental, a preferência é por "bem-estar". Os períodos de quarentena e a adoção do sistema híbrido de trabalho, quando não totalmente remoto, tornaram os móveis ainda mais modulares e flexíveis para ambientes com menos paredes e que mudam de função com o passar das horas —de dia escritório, à noite quarto, sala ou cozinha. Como sofás ultramodulares, em que encostos e braços trocam de posição facilmente, e mesas de cozinha com ergonomia também para as horas no computador.

Outra evidência da mudança de humores dos últimos anos está nas cores predominantes, com os tons neutros perdendo espaço para laranjas, terrosos e verdes, vermelhos e rosas, flúor e contrastes. Nessa linha, estão dois grandes nomes brasileiros participantes do Salone. A Etel, que apresenta, em sua loja própria, a primeira colaboração com a italiana Cristina Celestino. E os irmãos Campana, com lançamentos na Louis Vuitton e na Paola Lenti, com uma linha multicolorida.

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