Saiba quem foi Tia Amélia, sucessora de Chiquinha Gonzaga na história do piano

JOÃO PERASSOLO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Quem sintonizava na extinta TV Rio na década de 1960 se deparava com uma sorridente senhora de cabelos brancos e óculos, sentada ao piano, executando choros e valsas em um ritmo cadenciado. Entre uma música e outra no programa “Velhas Estampas”, Tia Amélia contava causos de sua juventude, uma constante batalha para que pudesse se dedicar ao instrumento que começou a tocar de ouvido aos quatro anos, por influência da mãe. O pai conservador não queria uma filha musicista, a menos que fosse para cantar na igreja. O marido —com quem se casou aos 17 anos, num matrimônio arranjado— costumava dizer que piano era só para balançar os filhos que iam nascer. Mas, decidida a se dedicar ao instrumento, aos 25 Amélia Brandão Nery fugiu da fazenda onde morava com o marido, no interior de Pernambuco, e se instalou em Recife com os filhos, conta Maria José Sampaio, mulher do último sobrinho vivo da pianista. Era o início da década de 1920. Nos anos seguintes, Tia Amélia se tornaria uma das principais pianistas brasileiras, sendo considerada a sucessora de Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth, os grandes nomes do piano nacional da virada do século 19 para o 20. Com programas semanais nas TVs Rio e Tupi, ela foi muito popular nos anos 1950 e 1960 e teve certo sucesso até sua morte, em 1983, para então cair no esquecimento. Agora, sua obra e sua vida passam por um grande processo de resgate. A biógrafa Jeanne de Castro está pesquisando para escrever um livro com a história da vida da pianista, ainda sem data para ser lançado. O projeto começou a ser feito a partir do disco “Tia Amélia para Sempre” —lançado há um ano—, no qual o pianista Hercules Gomes interpreta 14 composições da instrumentista. Em paralelo, Sampaio organiza uma associação de amigos que deve ter sua sede no que restou de um casarão onde Tia Amélia morou em Jaboatão dos Guararapes, sua cidade natal. “Antes do Ernesto Nazareth morrer, em 1934, ele se encontrou com a Tia Amélia e disse ‘olha, quando eu morrer, continue com o choro, não deixe o choro morrer’. Ele passou o bastão para ela”, diz Gomes, o pianista, acrescentando que ela deixou de tocar clássicos como Franz Liszt e passou a se dedicar totalmente ao ritmo a partir daquele momento. Na pesquisa para seu disco, Gomes encontrou registros de 60 choros compostos por Tia Amélia, mas a biógrafa acredita que o número pode chegar a 200. Boa parte são partituras dos anos 1930, quando Tia Amélia mudou-se para o Rio de Janeiro com a filha Silene, que acompanhava as suas apresentações na rádio e em salas de concerto dançando e cantando. O sucesso da pianista a levou a morar seis anos fora do Brasil naquela década —bancada pelo Itamaraty, fez turnês pelos Estados Unidos, Venezuela e Costa Rica, conta a biógrafa, ressaltando que ainda há lacunas sobre esse período de sua vida. Mesmo no auge, Tia Amélia decidiu interromper a carreira e foi morar com a filha e o genro em Goiânia, onde seguia estudando piano diariamente. Quando voltou à ativa, na década de 1950, virava madrugadas tocando no Clube da Chave, em Copacabana, uma boate exclusiva para artistas e boêmios do Rio onde também se apresentou Tom Jobim antes da fama. Quando executou seu choro “Chora Coração”, foi “uma tempestade de acordes em alta velocidade e com uma energia que o piano da casa nunca vira”, escreveu Ruy Castro, que ouviu a pianista tocar no apartamento de sua tia. O virtuosismo da “pianeira”, como é chamada carinhosamente pela biógrafa, a levou a conviver com Pixinguinha e a frequentar os saraus na casa de Jacob do Bandolim, onde, além dos chorinhos, tocava música regional nordestina, maxixes e valsas. Na mesma época, Vinicius de Moraes dedicou a ela uma crônica —“A Benção, Tia Amélia!”—, na qual dizia que percorreria um continente para vê-la e que ela era “uma ressurreição de Chiquinha Gonzaga com bossas novas”. Gomes explica que muitas das partituras com as composições de Tia Amélia, datadas das primeiras décadas do século 20, acabaram se perdendo —isto contribuiu para seu esquecimento, pois sua música é tecnicamente avançada e difícil de ser executada sem partitura, acrescenta ele. Some-se a isso o fato de os LPs da musicista não terem sido relançados em CD, e compreende-se porque há apenas um disco de Tia Amélia nos serviços de streaming. Para além da música, Tia Amélia escancarava com suas atitudes o machismo da sociedade em que viveu: ao se dedicar tão intensamente ao piano, lembra a personagem Eurídice Gusmão, do filme “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz. Depois de abandonar o marido, Tia Amélia passou a dizer que era viúva e a não mais mencionar o nome dele. Traumatizada com a relação, ela nunca mais se casou e não gostava de tocar no assunto, diz a biógrafa. “Ela não se dizia feminista, mas ela era”, afirma. TIA AMÉLIA, UMA VIDA EM DESCOBERTA - Embora tenha sido famosa, a vida de Amélia Brandão Nery tem uma série de lacunas: não se sabe, por exemplo, a data da morte do marido, o que levanta a possibilidade de que ela tenha ficado viúva muito jovem - A lista de países pelos quais a pianista excursionou pode ter sido maior, segundo a biógrafa, que espera a pandemia acalmar para poder pesquisar presencialmente na Biblioteca do Itamaraty - O livro terá entrevistas com Egberto Gismonti ​—que dedicou a música "7 Anéis" à pianista—, Paulinho da Viola, Ruy Castro e Arthur Moreira Lima - Tia Amélia era uma grande pesquisadora de música folclórica, assunto que tratou em uma carta enviada a Mário de Andrade a partir de Nova York - Antes de se dedicar a compor choro e a pesquisar música nordestina, Tia Amélia teve formação em piano clássico em Portugal, conta o sobrinho, Rômulo Pereira Brandão Filho - A imagem de senhora sorridente, simpática e contadora de causos na TV contrastava com seu lado boêmio —o sobrinho afirmava que ela era uma pessoa noturna, que virava as madrugadas e acordava às 11h30 do dia seguinte