Saiba quem é Jorge Helder, baixista mais disputado do Brasil, segundo Bethânia

RIO DE JANEIRO , RJ (FOLHAPRESS) - Um contrabaixista equivale a um volante no campo de futebol. Figura discreta, suas notas soam imperceptíveis aos ouvidos moucos. O volante não costuma mesmo ser o artilheiro do time, por mais que chegue ao ataque, feito baixista escorregando até o cavalete, tirando toda a música possível do instrumento.

Também em comum, as duas profissões pontuam a harmonia de um conjunto, ditando os tempos de som e bola. O vascaíno Jorge Helder, de 60 anos, se tornou um ás do ofício musical, sendo encarregado de conduzir, desde 1993, as melodias do peladeiro Chico Buarque.

Para "fazer um gol de bicicleta, dar de goleada", Helder imprimiu seu timbre "de boa definição" em "Que tal um Samba?", single que intitula a nova turnê de Chico. "A levada latina era uma ideia dele, e todo trabalho que eu faço tem arranjadores", Helder comenta. "O timbre é o mais importante, eu que escolho e, a partir dele, as pessoas reconhecem o meu trabalho."

Helder é um homem simples e tímido. Seu espectro mirrado, em contraste com o 1,80 metro do baixo acústico, se tornou ubíquo em shows de medalhões da MPB, como Ney Matogrosso, Gal Costa e Nana Caymmi. Ele acredita ter a preferência dos artistas por ser disciplinado. Para um ensaio, chega sempre 15 minutos antes da hora marcada e garante não fazer bagunça —só depois do trabalho.

A primeira música com Chico surgiu nas gravações de "Carioca", em 2006. "O Jorge Helder me deu uma música impossível de fazer a letra", disse Chico, num documentário sobre o disco. "Bolero Blues" está longe de ser uma composição fácil. A partitura do choro-canção é cheia de quiálteras, figuras que aceleram o andamento da melodia e provocam tropeços de notas e sílabas.

"Acho que nunca mais vou fazer uma canção desse tipo, quero simplificar as ideias", ele afirma. "Ser simples é muito difícil." Apesar do currículo, o baixista lançou apenas um disco autoral em 40 anos de carreira —contra mais de 350 gravados com outros compositores. A demora, ele conta, se deu pela dificuldade de juntar a quantia necessária para fazer um álbum. Lançado em 2020, "Samba Doce" reúne músicas de diferentes fases de sua carreira, incluindo outras parcerias com Chico.

É justo em "Bolero Blues" que o cantor empresta sua voz. "Rubato", do álbum "Chico", de 2011, é interpretada por Renato Braz. A canção lembra os coretos das praças do interior, evocando a infância do baixista. Já "Casualmente", de "Caravanas", lançado há cinco anos, ganha as vozes do grupo Boca Livre, o que só acentua o espírito latino da faixa.

"Samba Doce" se ambienta no samba-jazz, gênero em voga no Brasil dos anos 1960. Na época, conjuntos como Zimbo Trio e Milton Banana Trio embalaram o ímpeto de modernização do país. Nesse sentido, formações típicas do jazz se tornaram populares, dando novo sentido a instrumentos como o baixo acústico. Não por acaso, "Passo o Ponto", "Outubro 86" e "Inocente Blues", com voz e letra de Rosa Passos, têm arranjos ao sabor das big bands americanas. "Vagaroso", única música sem o baixo de Helder, tem refinado naipe de cordas, e "Dorivá", interpretada por Dori Caymmi, homenageia Dorival, com percussão embebida no mistério dos mares da Bahia. Para este segundo semestre, Helder prepara o segundo disco autoral, com todas as faixas instrumentais.

Filho de um funcionário público e uma professora de bordado, Helder descobriu a música graças à tia paterna, dona de uma escola de música. Aos nove anos, já tocava violão e, logo depois, passou ao bandolim. O encontro com o baixo ocorreu na adolescência, meio por acaso. Como todos os meninos do colégio queriam tocar guitarra, o baixo elétrico sobrou para o garoto franzino.

Há 40 anos, Helder se mudou para Brasília, onde ingressou na Escola de Música e passou a tocar baixo acústico. Afinal, em tempos de ditadura, só era permitido praticar música erudita na escola. No tempo livre, passou a acompanhar artistas, como Zélia Duncan e Cássia Eller, vendo de perto o agito do rock nacional. Em 1986, Helder se mudou para o Rio de Janeiro, depois de receber um convite para integrar a banda de Sandra de Sá.

Viajando com a cantora, viveu uma odisseia em Maceió. Foi o único sóbrio entre os músicos que, bêbados de cachaça azuladinha, encalharam numa jangada em alto-mar. O pianista ficou tão doido, que pulou na água, forçando uma operação de resgate improvisada pela banda. Atrasados, os músicos nem passaram o som. Assim que a cortina abriu, o baterista desmaiou, sendo substituído pelo percussionista, sem nenhuma experiência com o instrumento.

Desde então, Helder prefere não passear quando viaja em turnês. Nos anos 1990, foi até o Japão com Caetano Veloso, para quem o baixista "é um dos pontos altos da nossa música popular". Helder gravou discos marcantes do compositor, como "Livro", de 1994, e "A Foreign Sound", de 2004.

Entre os medalhões da MPB, ele coleciona apelidos. Caetano o chama de doce Jorge e Chico, de são Jorge. Já Maria Bethânia deu ao músico seu epítome definitivo. Desde a turnê "Cartas de Amor", de 2013, ela o apresenta como "o baixo mais disputado do Brasil".

Os trabalhos com Bethânia começaram no início dos anos 1990. Em 2015, Helder se tornou diretor musical da cantora, tendo produzido o álbum "Noturno", lançado no ano passado. "Ela confia em mim, mas não fujo da exigência dela", admite. "Tudo o que ela me pede eu tento fazer. Só que às vezes eu não consigo e o couro come."

Helder vive em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, com sua mulher e os dois filhos. Em casa, passa horas a fio praticando as suítes de Johann Sebastian Bach. Gosta de cozinhar, ouvindo música —Claude Debussy, Maurice Ravel, às vezes um pouco de jazz. Mas se incomoda com o excesso de lançamentos por dia nas plataformas digitais. "É muita criatividade."

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