Saiba o que filmes e TV previram para 2023, de Xuxa robô a fim de guerra e drogas

***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 22.08.2017 - A apresentadora Xuxa Meneghel. (Foto: Zé Carlos Barretta/Folhapress)
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 22.08.2017 - A apresentadora Xuxa Meneghel. (Foto: Zé Carlos Barretta/Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Sem guerra, violência, desmatamento ou até mesmo drogas. Foi com essas previsões que a robô Cibernética apareceu na televisão brasileira em 1999, ao desembarcar no finado programa Xuxa Park diretamente do futuro.

Algo deve ter dado muito errado na linha temporal --talvez a própria visita da ciborgue, que burlou qualquer regra básica dos filmes de viagem no tempo ao se expor na TV-- para que nós entrássemos em 2023 com Rússia e Ucrânia guerreando, a violência sem dar trégua, níveis recordes de desmatamento na Amazônia e a liberação de drogas distante de um consenso.

Fartamente explorada nas telas, a futurologia é um exercício que muitos cineastas e roteiristas se propõem a fazer, embora com frequência errem feio. Cibernética é ainda prova do desejo por uma utopia que não se concretiza e virou piada nas redes sociais graças às previsões furadas.

"Somos muito felizes, a natureza está em ordem. Estamos todos bem. Não há guerras, os seres humanos se conscientizaram da paz. Sem drogas, sem violência, o futuro é belo. Obrigada, Xuxa, você está fazendo um ótimo trabalho", diz a boneca tecnológica interpretada pela atriz Simone Bruno no vídeo viralizado.

Ela ainda massageia o ego da apresentadora Xuxa Meneghel ao decretar que seu trabalho com os "baixinhos" foi fundamental para moldar a tal geração mais sensata.

"Você foi uma das grandes incentivadoras a cuidar da natureza. Graças a você, as pessoas se conscientizaram. Nós temos muitos bichos e muita vegetação. Você está de parabéns", diz, antes de anunciar que sua bateria está fraca e entrar em curto-circuito.

Àquela figura estranhíssima, vestida com roupa de látex toda preta e lustrosa, envolvendo dos pés ao pescoço até se contrapor ao loiro platinado dos cabelos, Xuxa, no entanto, demonstra uma preocupação um tanto simplória.

"Meu Deus, eu vou estar com...", começa. "Sessenta anos! E você continua linda", responde a robô à apresentadora, que vai se tornar sexagenária em março. Ela também diz que sua filha, Sasha, estaria comandando o programa Planeta Sasha na televisão --ou seria no streaming?

"Devo estar com uma cara de tamanco, toda reta", continua aquela Xuxa preocupada com idade e aparência. Pelas previsões, a essa altura, ela deveria ter mais quatro filhos e alguns netinhos --Sasha se casou no ano retrasado, mas não tem filhos, irmãos maternos ou um programa próprio.

Viagens no tempo, aliás, são uma constante no 2023 das telas. Em "A Guerra do Amanhã", Chris Pratt vive um ex-militar que vai ao futuro lutar contra alienígenas que ameaçam a Terra. O filme começa em 2022, mas se estende até o ano que se inicia agora, para o qual o protagonista regressa após conseguir uma toxina capaz de matar os invasores.

No sucesso de bilheteria "Vingadores: Ultimato", também é neste ano que o Homem de Ferro e Hulk descobrem uma maneira de viajar no tempo, na ressaca de um desastre que aniquilou metade de toda a população.

Esse tipo de viagem, no entanto, segue sendo puro produto da ficção científica, bem como os super-heróis, que ainda não apareceram para salvar a humanidade daqueles mesmos problemas que Cibernética elencou nos anos 1990.

"X-Men" foi outra saga importada dos quadrinhos que brincou tanto com o transporte entre diferentes eras, quanto com robôs autossuficientes --que, vale dizer, podem até configurar um acerto nessa futurologia, já que 2023 tem máquinas e inteligência artificial capazes de servir mesas em restaurantes ou colar rostos em vídeos pornográficos.

No capítulo "Dias de um Futuro Esquecido", os heróis mutantes aparecem num planeta Terra no qual robôs caminham livremente. Na trama, eles não são bonzinhos como Cibernética. Chamados de sentinelas, os humanoides metálicos foram criados para caçar e matar superpoderosos, emulando as habilidades daqueles com quem lutam.

Se em "Vingadores" 2023 representa o ano em que 50% dos heróis voltam à vida graças à tecnologia, em "X-Men", também da Marvel mas produzido por um estúdio rival, este ano marca a extinção desses mesmos super-humanos. É um ano bastante intolerante, longe da fantasia deliciosa da robô amiga de Xuxa.

Outra franquia a se afastar do faz de conta foi "Uma Noite de Crime". O episódio "Anarquia", lançado há oito anos, se passa em 2023, nuns Estados Unidos que acabam de viver uma guinada radical à direita.

É bem verdade que o país e tantos outros viram ascender recentemente lideranças nesse espectro político, mas chegamos a 2023 com a esquerda retomando o poder em muitos deles. A posse de Lula é simbólica para os latino-americanos, e Joe Biden não deixa de ecoar certa rejeição à direita.

Em "Uma Noite de Crime: Anarquia", no entanto, pautas defendidas pela extrema direita saíram do papel numa medonha reunião de interesses vinculados a armamentistas.

Isso porque a ideia central da franquia, hoje presente nos cinemas e na TV, é a de que, para combater os altos níveis de violência, o governo americano decidiu criar um novo feriado nacional, um expurgo que torna legal, durante 12 horas, qualquer tipo de crime.

Armados com todo tipo de parafernália, os cidadãos ricos mais sádicos saem à caça, enquanto aqueles ricos com bom senso se trancam em casarões com sistemas de segurança de ponta. Os mais pobres, incapazes de comprar armas ou proteção semelhantes, acabam vítimas de um projeto político totalmente desigual.

Depois de ver o 2023 de "Anarquia", é melhor nem reclamar que as previsões açucaradas de Cibernética no Xuxa Park não se concretizaram.