Saúde mental é tema de guia desenvolvido por influenciadores digitais

Ludimila Honorato
Vitor Monteiro/XisGenera/Divulgação

A ideia de ser chamado de influenciador digital, fazer 'publi posts', receber mimos e ser convidado para diversos eventos parece a melhor das realidades. Essa vida é, inclusive, o desejo de muitas crianças. A pesquisa The Harris Poll, conduzida pela Lego com três mil pessoas de oito a 12 anos de idade, mostrou que elas têm uma probabilidade três vezes maior de preferirem ser um youtuber (29%) a um astronauta (11%).

O que pouca gente sabe é que a profissão traz desafios que podem comprometer a saúde mental. A pressão para produzir boas fotos, criar conteúdo atrativo, 'bombar' com curtidas, comentários e compartilhamentos pode levar a um esgotamento que não será facilmente superado se a pessoa não estiver preparada.

Um estudo da plataforma Criadores iD, que conversou com mais de 300 youtubers, aponta que 16,9% afirmam sofrer de ansiedade. Outros 4,3% enfrentam depressão e mais de 28% diz não fazer qualquer atividade física, o que é benéfico para o bem-estar.

O youtuber Spartakus Santiago entende bem o impacto negativo das redes sociais para os criadores de conteúdo. Ele conta que em 2018 lançou um financiamento coletivo para que seus seguidores o ajudassem a comprar um novo notebook, porque o dele havia quebrado.

"Uma frase que falei foi mal interpretada e começaram a falar que eu estava querendo roubar meus seguidores. Foi depois da eleição e um deputado do partido eleito [para a presidência da República] aproveitou a polêmica, pegou foto minha e lançou fake news. Me criticaram na internet, fiz vídeo em resposta, foi horrível, uma semana de linchamento virtual", comenta.

Ele afirma que não sabia como lidar com a situação, não teve apoio emocional e ficou "muito abalado", com medo de sair de casa. Para melhorar, ele passou a fazer terapia e chegou a ir a um retiro a fim de se desconectar das redes sociais.

Vitor Monteiro/XisGenera/Divulgação

Tendo passado por isso e sabendo que outros colegas de profissão já viveram algo semelhante, Spartakus e a amiga influenciadora Ellora Haonne se juntaram ao coletivo Papel & Caneta para criar o Como Crescer, um guia não definitivo de sobrevivência na internet. O projeto reuniu mais oito criadores de conteúdo: Vitor diCastro, Sah Oliveira, Caco Baptista, Luiza Junqueira, Dora Figueiredo, Neggata, Luca Scarpelli e Madama Br000na.

Em vez de dar dicas sobre como conseguir mais seguidores, aumentar o número de curtidas e fazer sucesso, eles discutem temas que envolvem o processo de criação somado ao bem-estar de quem o faz. "Como criar conteúdo sem se esgotar?", "Ansiedade para crescer rápido: como lidar?" e "Como separar a vida pessoal da vida pública?" são algumas das pergutas que eles tentam responder para ajudar quem quer se aventurar nesse universo.

Assista ao trailer do projeto abaixo:

O material foi reunido em um site e em um perfil no Instagram. São 15 vídeos de pouco mais de um minuto em que cada influenciador participante da iniciativa explica as questões do guia. "Eu fiquei agradecida de ser convidada e ver que tem alguém pensando sobre isso", diz Dora Figueiredo.

Mas antes de fazer parte desse mundo, ela tinha uma percepção totalmente diferente dos criadores de conteúdo. Quando os via pela tela do celular, imaginava que eram pessoas sem defeitos, cheias de glamour. No entanto, quando as conheceu, entendeu que eram personagens e que, sim, eram passíveis de falhas.

Vitor Monteiro/XisGenera/Divulgação

"Eu mesma falo de empoderamento, mas por muito tempo vivi uma mentira, relacionamento abusivo. Tudo o que eu falava para as pessoas, de tomar cuidado, eu não percebia que estava vivendo. Acho importante passar para o público que quer ou não trabalhar com isso que, na internet, criadores são personagens, não são eles mesmos o tempo todo", afirma Dora.

Saúde mental é debatida na internet

Segundo os criadores de conteúdo, saúde mental é um tema em alta, tanto entre eles quanto entre os seguidores que querem conversar sobre isso. Uma pesquisa realizada pela Refinaria de Dados apurou o cenário da depressão nas redes sociais, com 12,2 milhões de pessoas que usam Twitter, Facebook e Instagram.

Do grupo avaliado, 1,2 milhão fala abertamente sobre questões relacionadas à saúde mental. A empresa analisou as hashtags #depressão, #suicídio, #angústia, #ansiedade, #burnout, #psicofobia e #saúdemental e identificou que os tópicos são abordados mais por mulheres (58%) e jovens entre 16 e 25 anos (33%).

Spartakus cita que foi ao evento #YouTubeBlack, em Nova York, e viu que o assunto era central em alguns debates, inclusive com uma psicóloga realizando terapia em grupo.

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Dora comenta que quando falou sobre depressão pela primeira vez em seu canal no YouTube, teve respostas positivas. "Não de visualizações ou de dinheiro, mas de pessoas pedindo mais conteúdo assim, pessoas me parando na rua e falando especificamente sobre depressão, de como isso as ajuda a entender e saber que existe saída", relata.

Segundo ela, esse é o propósito de estar na internet. "Isso me torna uma criadora [de conteúdo] melhor. Me sinto mais feliz pela quantidade de pessoas que me param na rua, de ajudar elas de alguma forma, não só com entretenimento."

Spartakus concorda e diz que é importante, para os criadores de conteúdo, "repensar nossos medidores de felicidade". "Essa busca pelos números [de curtidas] não vai trazer felicidade, vai destruir nossa cabeça", afirma.

Assista abaixo à primeira dica do guia Como Crescer: