Série sobre trupe anárquica de 'Tatuagem' tem cura gay e disputas imobiliárias

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Nas últimas quatro décadas, muita coisa mudou no Brasil. O regime estatal, os governantes, hábitos de consumo, modismos e comportamentos passaram por uma onda de transformações. Essa metamorfose, porém, tem perna curta. Nem tudo ficou diferente. Algumas realidades não só permaneceram quase intactas, como também se tornaram contraditórias em meio a um regime democrático.

Quem assistiu a “Tatuagem”, de Hilton Lacerda, deverá notar as diferenças e semelhanças entre esses períodos ao ver “Chão de Estrelas”, série que estreia nesta sexta (10), no Canal Brasil, e é inspirada no filme.

A série se debruça sobre a companhia teatral que protagoniza a história de “Tatuagem”. Resgatando o nome da trupe artística —Chão de Estrelas— e a energia anárquica da casa onde vivem os personagens, Lacerda traz um enredo que se passa no Brasil contemporâneo, ao contrário do longa, vivido em 1978.

Em “Tatuagem”, o grupo de atores é conhecido por apresentações extravagantes, que são carregadas de bom humor e afronta ao autoritarismo conservador da ditadura militar, com boas doses de liberdade artística.

No filme, Clécio —papel de Irandhir Santos— é o dramaturgo da equipe e se apaixona por Fininha —Jesuíta Barbosa—, um jovem soldado que passa a integrar a companhia e a desfrutar de uma rotina completamente oposta à do quartel onde vive.

Já em “Chão de Estrelas”, o romance não está em foco, o Brasil é a república democrática dos dias atuais e o casarão dos artistas —localizado no centro histórico do Recife— está sob um imbróglio que ameaça os trabalhos da trupe.

A história, contudo, mantém as performances com gente pelada e teor crítico, assim como os ares artísticos e eróticos do espaço, a postura autoritária da polícia, o desprezo estatal à cultura e conservadorismos que batem de frente com as artes e a diversidade sexual.

Os personagens ocupam o casarão de Dionísio —Paulo André—, um famoso e recluso artista plástico da cidade. Pegos de surpresa, descobrem que o imóvel foi arrematado por uma poderosa construtora e iniciam um movimento para impedir a própria expulsão. Em meio a ações burocráticas, trava-se, assim, uma disputa entre eles e a construtora.

Os artistas, que antes disso já enfrentavam problemas de renda financeira, passam a sofrer com ataques externos, liderados tanto pelos pais de Soninha —Uiliana Lima—, que é recém-integrante da trupe, quanto pelos donos da construtora, familiares da atriz Thelminha —Nash Laila.

Famosos por apresentarem um programa de TV religioso, que prega valores conservadores e práticas como a cura gay, os pais de Soninha —Sandro Guerra e Titina Medeiros— tentam a todo custo afastá-la do Chão de Estrelas, já que o grupo é o extremo oposto de uma família tradicional. E apesar de o casarão ser um importante patrimônio cultural da cidade, os parentes de Thelminha não veem a hora de abocanhar um bom dinheiro com o imóvel.

Unindo elementos da dramaturgia teatral e da cinematográfica, “Chão de Estrelas” é a nova obra de Lacerda, pernambucano que roteirizou longas como “Baile Perfumado”, de 1996, “Amarelo Manga”, de 2003, “Febre do Rato”, de 2011, e “Corpo Elétrico”, de 2017, além de dirigir “Cartola – Música para os Olhos”, de 2007, e “Fim de Festa”, de 2019.

"A ideia da série surgiu a partir de uma provocação, porque as pessoas sempre foram muito curiosas pelos personagens de 'Tatuagem'", diz Lacerda. "Eles nasceram a partir da tentativa de criar um espaço de resistência artística, com bastante coletividade."

Quando decidiu que faria uma série inspirada na trupe do filme, o cineasta estabeleceu como meta trabalhar com outros tipos de linguagem e adaptar o contexto para os tempos atuais.

O diretor diz que desejava fazer um espelhamento entre as histórias, mas não imaginava que as semelhanças seriam tão presentes. "'Tatuagem', apesar de se passar em 1978, é como uma janela do passado falando do contemporâneo", explica. "Mas quando começamos a trazer o Chão de Estrelas para o hoje, caímos num país que ainda tem muita coisa não resolvida."

Lacerda diz ainda que, embora não tenha sido uma inspiração direta, é impossível não relacionar a disputa imobiliária da série fictícia com a vivida entre o Teatro Oficina e o Grupo Silvio Santos, que há anos ameaça a sede do grupo com um projeto de construção de prédios.

Ainda traçando as semelhanças e diferenças entre os períodos do filme e da série, ele diz que o Estado brasileiro continua a tratar a sexualidade como algo perigoso e a desvalorizar a cultura.

"A impressão é que tudo passa por um crivo, mas nada se resolve. No final dos anos de 1970, por mais difícil que fosse, havia uma perspectiva de mudança no ar, mas hoje parece que isso mudou de posição. Antes havia uma redemocratização, e agora estamos fazendo o inverso."

CHÃO DE ESTRELAS

Quando Estreia em 10 de setembro, às 22h30

Onde No Canal Brasil e Globoplay

Elenco Nash Laila, Gustavo Patriota, Uiliana Lima, Giordano Castro, Lívia Falcão, Titina Medeiros, Paulo André e Sílvio Restiffe

Direção Hilton Lacerda

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