Série 'Escravidão Século XXI' tem doméstica em cativeiro e costureiros bolivianos

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Decretada há cerca de 130 anos, a Lei Áurea determinou o fim da escravidão no Brasil. Ou talvez seja mais correto dizer que pôs fim só a um certo tipo de trabalho forçado.

“No século 19, o escravo era um bem, você vendia e comprava escravos, muita gente ganhou muito dinheiro com o comércio de escravos. Então você cuidava —você não vai vender um boi magro, um cavalo mancando. Hoje, não. Você não cuida do escravo, você explora e depois joga fora e pega outro”, diz o cineasta Bruno Barreto, ao esclarecer as peculiaridades de trabalhadores mantidos em situações análogas à escravidão no Brasil de hoje.

Em parceria com o produtor e também diretor Marcelo Santiago, a dupla passou quatro anos pesquisando histórias contemporâneas de pessoas que vivem para trabalhar, a exemplo de domésticas mantidas em cárcere privado, profissionais do sexo e bolivianos que costuram roupa baratíssima para alimentar o lucro de marcas globais.

O resultado foi a série documental “Escravidão Século XXI”, já disponível na HBO. Em cinco episódios de cerca de uma hora cada um, o programa se debruça sobre dramas individuais, em várias regiões do país, para abordar uma questão meio invisível mas muito real, que só costuma vir à tona quando as autoridades recebem uma denúncia e estouram um cativeiro.

No primeiro episódio da série, por exemplo, acompanhamos a narrativa de Gabriela de Jesus, entregue quando criança, pelo pai, para uma mulher em Salvador, na casa da qual passou a trabalhar como doméstica.

Com objetividade e aparente resignação, Gabriela afirma que dormia cerca de três horas por noite, sendo acordada com banhos de água fria pela patroa, além de ser espancada e ter sido jogada contra uma parede, ocasião na qual quebrou um dos braços e foi forçada a lavar calças jeans em seguida.

Presa por 15 anos na casa de sua algoz, uma professora, Gabriela não ganhava salário e só saía de casa para levar o lixo e comprar pão, sem falar com ninguém. Foi resgatada pelo Sindicato dos Trabalhadores Domésticos da Bahia a partir de uma denúncia anônima, num caso que ganhou destaque da imprensa.

Uma das maiores dificuldades durante a produção da série foi conhecer essas histórias da boca de quem sofreu realmente com elas, afirma Santiago. “Chegamos a pensar que nós precisávamos de um acompanhamento psicológico. Se o espectador sente, imagina isso ao vivo, ali.”

Para dar contexto ao sofrimento dos retratados, a série se vale de depoimentos de procuradores, advogados, jornalistas e pessoas diretamente envolvidas na luta contra a escravidão moderna, como o frade dominicano Xavier Plassat. Manter um escravo nos dias de hoje é instrumentalizar uma pessoa, "fazer do outro uma coisa para meu lucro pessoal e financeiro”, define ele, num episódio.

A escravidão atual não é um "privilégio" do Brasil, ironiza Barreto, lembrando do caso dos imigrantes africanos e árabes que vão para a Europa. Segundo ele, uma das principais causas do trabalho forçado em escala global é a concentração de renda.

“A revolução tecnológica está abolindo vários empregos —imagina agora, depois da pandemia, quantos empregos vão ser abolidos no setor de transportes, por exemplo?", pergunta. "As condições nas quais você encontra emprego ficam cada vez mais sofríveis."

ESCRAVIDÃO SÉCULO XXI

Quando a partir desta terça (4), às 21h

Onde HBO

Produção Brasil, 2018

Direção Bruno Barreto e Marcelo Santiago

Link: https://www.hbobrasil.com/series/detail/escravid-o-s-culo-xxi/14560/ttl712269

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