Série brasileira da HBO explora as letras e os estereótipos do mundo LGBT

LEONARDO SANCHEZ

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Homossexualidade, transexualidade, não binariedade. Feminismo, colorismo, veganismo. Com estreia marcada para este domingo (22) na HBO, "Todxs Nós" parece até uma enciclopédia da juventude do século 21, recheada de termos muitas vezes pouco familiares para gerações passadas.

No primeiro episódio da série, uma verdadeira avalanche de terminologias invade qualquer pequeno espaço que encontra nas linhas de diálogo, tornando os três protagonistas da trama verdadeiros porta-vozes da diversidade.

Alinhados a pautas que cada vez mais ganham espaço no noticiário, nas rodas de conversa e no entretenimento, o jovem trio que comanda a história é formado por Vini, um ator gay, Maia, uma feminista negra vegana, e Rafa, que é não "binárie".

"Binárie", com "e" mesmo. Ao longo de toda a temporada de oito episódios, a personagem vai explicar ao público o conceito, ainda pouco presente no vocabulário dos brasileiros, pondo a letra no final de qualquer palavra a fim de neutralizar seu gênero.

"Eu acho que talvez, no começo, exista uma linguagem mais didática, mas depois isso vai se naturalizando", explica Clara Gallo, intérprete de Rafa. "Isso faz sentido dentro da série, porque aquilo é novidade para as próprias personagens, que entendem aquilo junto com o público", completa Julianna Gerais, a Maia.

Já no primeiro episódio, eles são confrontados com a difícil tarefa de explicar ao pai de Rafa o conceito de não binariedade. Ele ouve o trio dizer que a personagem é diferente de Vini, por exemplo, já que este "corresponde às expectativas da sociedade".

Aturdido, o patriarca não se convence, já que o garoto é gay. Vini então é menos técnico e mais enfático ao falar dessa "correspondência". "No quesito figurino, sim. No quesito dar a bunda, realmente não", diz.

Humor e drama se entrelaçam ao longo dessa história, que se inicia quando Rafa foge de casa e vai para São Paulo viver com o primo e a melhor amiga dele. Mas, mesmo pertencente ao movimento LGBT, Vini ainda é alheio ao significado de determinadas letras do arco-íris.

Interpretado por Kelner Macêdo, que despontou com o longa "Corpo Elétrico", de 2017, o personagem explora os estereótipos presentes dentro do próprio movimento LGBT. "Ele está tentando sair do lugar que reservam para ele como gay", diz Macêdo.

"Ele tem outros desejos e expectativas enquanto homem gay, mas ele adora ser gay. Dentro do entretenimento, principalmente o nacional, a gente não tem personagens LGBT, e quando tem é de forma completamente estereotipada. E em 'Todxs Nós' não, a gente tem essas pessoas vivendo, não só sobrevivendo."

Gallo concorda. "O mais importante, para mim, é as pessoas poderem conhecer essas existências. Eu acho que tem muita gente que não sabe que essas pessoas existem. A série mostra o cotidiano delas, elas sendo felizes e também passando por situações difíceis."

Produção brasileira da HBO, "Todxs Nós" tem roteiro de Vera Egito, também diretora, e Daniel Ribeiro. Os dois já se aventuraram pelo terreno da diversidade, nos filmes "Amores Urbanos" e "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", respectivamente.

Sobre os reveses que a diversidade sexual e de gênero tem enfrentado no país, com episódios de censura a obras que toquem no assunto, o trio protagonista lamenta. Mas nem por isso baixa a guarda.

"Não podemos deixar de falar ou fazer as coisas por causa disso", diz Gerais. "Estamos falando com você [que tem preconceito] também, mas se você não quer ouvir, não tem muito o que possamos fazer."