Roteiro de Antonioni nunca filmado sairá do papel pelas mãos de diretor brasileiro

LEONARDO SANCHEZ
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um jornalista italiano entra numa crise existencial que o sopra para o além-mar, até terras brasileiras, onde ele embarca numa expedição pela Amazônia. Ele se envolve com uma jovem enigmática e tem como companhia um estudante de antropologia —pronto, o triângulo amoroso está formado. A premissa faz parte do repertório do mestre italiano Michelangelo Antonioni, mas não entrou para a sua filmografia. Mesmo considerado pelo cineasta, quando em vida, um de seus mais queridos roteiros, ele nunca saiu do papel. A umidade da floresta que atacava os equipamentos e outras dificuldades de gravar dentro da mata o forçaram a abandonar o projeto, que agora, meio século depois, vai poder finalmente chegar às telas —e pelas mãos de um brasileiro, o cineasta André Ristum. “Tecnicamente Doce” deve começar a ser gravado em 2023, na região amazônica e também em Roma e na ilha de Sardenha. Os direitos do roteiro foram comprados há pouco pelos irmãos Caio e Fabiano Gullane, da Gullane Entretenimento, que dividem a produção com André Novis e a italiana Similar Film. Uma viagem de pesquisa e buscas por um elenco estão previstas já para o segundo semestre. A ideia de ir atrás do roteiro surgiu na hora certa, conta André Ristum em conversa por telefone, já que Enrica Antonioni, viúva do mestre italiano morto em 2007, estava sendo sondada por produtores de vários países, também interessados em finalmente dar forma à história. “Foi um sofrimento para ele [Antonioni] ter de abandonar a produção”, afirma a viúva por meio de nota. “Conheci Michelangelo quando ele estava preparando o filme e o acompanhei em suas viagens à Sardenha e em busca de selvas ao redor do mundo, até chegarmos à Amazônia.” Idealizado no apogeu criativo do italiano, “Tecnicamente Doce” deveria ter sido lançado entre “Zabriskie Point”, de 1970, e “Profissão: Repórter”, de 1975. Antonioni chegou a estudar locações em solo brasileiro e a escalar Jack Nicholson e Maria Schneider para os papéis principais, mas o produtor Carlo Ponti cortou seu financiamento. Enrica Antonioni agora vai assinar como produtora associada do filme e decidiu confiar a direção ao brasileiro por causa de um longo laço entre as famílias Antonioni e Ristum. Pai de André, Jirges Ristum foi assistente e amigo próximo do cineasta italiano entre os anos 1970 e 1980. Ele deixou o Brasil no começo da ditadura militar e se exilou no Reino Unido —onde o filho nasceu— e, depois, na Itália. A ideia de ir atrás do roteiro surgiu na hora certa, conta André Ristum em conversa por telefone, já que Enrica Antonioni, viúva do mestre italiano morto em 2007, estava sendo sondada por produtores de vários países, também interessados em finalmente dar forma à história. “Foi um sofrimento para ele [Antonioni] ter de abandonar a produção”, afirma a viúva por meio de nota. “Conheci Michelangelo quando ele estava preparando o filme e o acompanhei em suas viagens à Sardenha e em busca de selvas ao redor do mundo, até chegarmos à Amazônia.” Idealizado no apogeu criativo do italiano, “Tecnicamente Doce” deveria ter sido lançado entre “Zabriskie Point”, de 1970, e “Profissão: Repórter”, de 1975. Antonioni chegou a estudar locações em solo brasileiro e a escalar Jack Nicholson e Maria Schneider para os papéis principais, mas o produtor Carlo Ponti cortou seu financiamento. Enrica Antonioni agora vai assinar como produtora associada do filme e decidiu confiar a direção ao brasileiro por causa de um longo laço entre as famílias Antonioni e Ristum. Pai de André, Jirges Ristum foi assistente e amigo próximo do cineasta italiano entre os anos 1970 e 1980. Ele deixou o Brasil no começo da ditadura militar e se exilou no Reino Unido —onde o filho nasceu— e, depois, na Itália. “Inicialmente fazer ‘Tecnicamente Doce’ parecia um sonho maluco, mas aí as coisas foram acontecendo”, diz ele, sobre abraçar uma trama de autoria de Antonioni. “Esse era um roteiro que sempre habitou meu imaginário e agora me permite ter uma reconexão com o meu pai.” É um projeto ambicioso, sem dúvida. Descrito como uma “poética e catastrófica aventura ítalo-brasileira”, o drama vai precisar passar por uma modernização, embora André avalie que a atualidade da história é assombrosa. “Tecnicamente Doce” se ancora na relação do homem com a natureza e fala muito sobre a polarização na qual o Brasil, e também boa parte do mundo, mergulhou nos últimos anos. Ao abrir espaço para a fantasia, a Amazônia da trama permite que os personagens se vejam em situações que evocam temas como a banalização da violência e a preservação do meio ambiente, por exemplo. É uma história permeada por uma certa desilusão com o ser humano, descreve o diretor, o que vai ao encontro de sua própria percepção sobre os rumos da nossa sociedade. “Acho que vai ser muito interessante assistir a esse filme e perceber como a cabeça do Antonioni estava à frente de seu tempo, por causa das questões das quais o roteiro trata, e ver também que muitas coisas não mudaram."