Rosewood São Paulo quer mostrar a exuberância do Brasil com toque francês

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BRASÍLIA, DF, E SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "É de uso comum, no Brasil, luxo significar produtos de importação. Os artesãos locais que encontramos não conheciam muitos mármores brasileiros. Então fizemos muitas viagens ao sul do país para encontrar esses produtos. Esse país tem recursos naturais incríveis".

O depoimento de Sebastien Le Pezennec dá o tom da proposta do do hotel Rosewood São Paulo --mostrar o Brasil para os brasileiros (e estrangeiros), em todo o seu esplendor.

Ele é executivo da EDM Brasil, marmoraria francesa de alto padrão que trabalhou no projeto do hotel, parte do complexo de luxo Cidade Matarazzo, desenvolvido pelo francês Alexandre Allard na capital paulista.

O estabelecimento recém-inaugurado pertence a Allard --dono de 51%-- e à Rosewood Hotels & Resorts, cadeia internacional de hotéis e resorts de luxo que opera 28 propriedades em 15 países.

A ideia é aliar o conceito de "sense of place" ("espírito do lugar", numa tradução livre) que permeia alguns dos principais hotéis da rede, como o Carlyle em Nova York, o Crillon em Paris ou o Las Ventanas no México, à "utopia" de Allard, como ele mesmo já definiu a sua epopeia desde que comprou, em 2008, por R$ 117 milhões, o antigo complexo hospitalar Umberto Primo, na Bela Vista, na região central.

Allard reformou a antiga maternidade Condessa Filomena Matarazzo, criada em 1943 como parte do complexo hospitalar, onde cerca de meio milhão de paulistanos nasceram, para transformá-la em um dos espaços do Rosewood São Paulo.

No lugar das salas de parto, suítes cujas diárias começam em R$ 2.800 e chegam perto de R$ 7.000, adornadas por uma coleção com mais de 450 obras de 57 artistas brasileiros contemporâneos.

A utopia de que fala Allard é provar que é possível construir algo novo respeitando a história do lugar e, de quebra, valorizar a natureza, realçando os remanescentes de mata atlântica no terreno.

"Para atingir o 'sense of place', era preciso a renovação do patrimônio cultural e histórico do lugar, especialmente da maternidade, um símbolo da vida", disse à reportagem o diretor geral do Rosewood São Paulo, Edouard Grosmangin.

O desafio, afirma Grosmangin, era trazer inovação e modernidade ao projeto, com a torre desenhada pelo arquiteto Jean Nouvel, vencedor do Pritzker, prêmio conhecido como o Nobel da arquitetura.

O projeto de Nouvel --que se soma ao espaço da antiga maternidade, inaugurado no último dia 15-- tem um jardim vertical com espécies da mata atlântica.

"Era muito importante para a rede trazer mais verde e natureza para a cidade", diz Grosmangin sobre a torre, que será inaugurada no final do segundo semestre.

Somando os dois espaços, o Rosewood São Paulo terá 160 quartos e 100 suítes. A direção artística do hotel, o primeiro da rede na América do Sul, tem a assinatura do também francês Philippe Starck, um dos designers mais reconhecidos do planeta.

O hotel tem ainda duas piscinas, cinema, estúdio de música, espaços para eventos, o spa Asaya, e seis restaurantes.

Grosmangin estima que o Rosewood tenha consumido cerca de 80% do investimento feito no complexo Cidade Matarazzo, que no total representa perto de R$ 3 bilhões.

O projeto incluiu o restauro da capela Santa Luzia. A ideia é que a igreja quase centenária, reconsagrada em novembro, sirva de palco a casamentos memoráveis, com respectiva festas organizadas nos espaços de eventos ou restaurantes do Cidade Matarazzo.

Nos ambientes projetados por Starck para o hotel, chamam atenção de imediato as madeiras e pedras brasileiras --um tipo diferente para cada quarto e cada banheiro.

Todo o trabalho foi feito com matérias-primas e mão de obra local. Nos quartos, jatobá, nogueira, itaúba e sucupira estão entre as madeiras certificadas que revestem as paredes. Nos banheiros, ônix, quartzito palomino, amazonita vindos de jazidas também certificadas conformam pisos, banheiras e cubas.

Mas a ideia de luxo que se quer transmitir vai além da nobreza dos materiais.

Talvez, aliás, a diferença entre um hotel cinco estrelas e um Rosewood, que se classifica como seis estrelas, esteja no tratamento dado à matéria-prima. É, mais ou menos, como a diferença entre o "plus" e o "surplus".

No Rosewood São Paulo, esse tratamento veio do grupo Ateliers de France, rede de restauro que inclui a EDM e que tinha a qualificação requerida para executar o que Starck queria.

No caso, não banheiras revestidas de placas de mármore, mas esculpidas em blocos inteiros da pedra, com maquinário especial importado para este fim; não lambris ripados, mas lâminas lustrosas que permitem ver os veios de cada tipo de madeira.

O conceito de "cor local" se expande para as obras de arte encomendadas. Os hóspedes são recepcionados por espessos tapetes de Regina Silveira, conhecida por suas figuras de efeito "op". Em cada andar, um artista diferente se encarregou dos corredores.

Mobiliário de design brasileiro, assinado por nomes como Sergio Rodrigues (1927-2014), o criador da poltrona Mole, completa os ambientes.

Em mesas de cabeceira e de centro, livros que procuram proporcionar ao visitante essa imersão no que seria o espírito nacional --em um dos quartos, por exemplo, havia uma antologia de poemas brasileiros selecionados pela escritora americana Elizabeth Bishop (1911-1979), que viveu no país por 15 anos.

Sob tantas camadas de informação, texturas e cores, mal dá para lembrar que o edifício que em parte abriga o hotel foi uma maternidade. O único rastro mais evidente desse passado é o letreiro na fachada que dá para o Jardim das Oliveiras, atrás da capela.

Restaurantes evocam passado de fausto industrial Por sua localização, o Rosewood São Paulo se vincula ao rico passado industrial da cidade. O fato de que a inauguração do hotel se dê às vésperas do centenário da Semana de Arte Moderna, materialização cultural desse fausto, não passa em branco.

De seus seis espaços gastronômicos, dois remetem diretamente àquele momento.

Um deles é o Taraz, nome evocativo do sobrenome do conde Francesco, ou Francisco Matarazzo (1854-1937), industrial e banqueiro que foi o principal contribuinte da sociedade italiana responsável por manter o complexo hospitalar onde hoje funciona o empreendimento.

O outro é o Blaise, batizado em homenagem ao poeta franco-suíço Blaise Cendrars, figura ligada ao grupo modernista de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade.

O Blaise, o Rabo di Galo --um bar para pocket shows-- e o Le Jardin já estão funcionando. O Emerald Garden Pool & Bar, o Belavista Rooftop Pool & Bar e o Taraz só abrem as portas no ano que vem.

"Temos seis restaurantes e as pessoas acham muito, porque um grande hotel tem um ou dois", afirma Edouard Grosmangin. "Mas são espaços pequenos, cada um com a sua identidade."

O Blaise é uma mistura de cozinha francesa e suíça e funciona no prédio da antiga maternidade. Em espaço íntimo, o restaurante exibe azulejos desenhados à mão e trabalhos originais em madeira.

Contíguo a ele, o Le Jardin, de culinária moderna, vai do lobby aos jardins do hotel.

"Nós acreditamos que temos que ensinar as pessoas em São Paulo a frequentar restaurantes de hotéis", diz Grosmangin. "Não são restaurantes para ir uma ou duas vezes ao ano, para uma refeição cara, mas no dia a dia."

O executivo acredita que o Cidade Matarazzo vai ajudar o viajante estrangeiro --e mesmo o brasileiro-- a ver a cidade com outros olhos.

"São Paulo é muito mais do que uma cidade de negócios, é um centro efervescente de arte". Para os franceses, é a hora de redescobrir a terra da garoa.

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