Rosalía une Auto-Tune e bateria de escola de samba em 'Motomami'

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - A voz de Rosalía vai, volta e sussurra abafada em meio a um caos de tamborins, apitos e uma bateria de escola de samba, pontuada por um grave eletrônico seco, antes de desembocar numa melodia cândida ao piano. "Mariposas livres pela rua/ Para as ver, tens que sair", ela canta, em espanhol, em "CUUUUuuuuuute", música de seu novo disco, "Motomami".

Em "Saoko", o reggaeton pungente e afiado que abre o álbum da cantora espanhola, ela já havia cantado que "me transformo, sou uma mariposa", fazendo do inseto a principal imagem da obra. Esse é o sentimento de "Motomami", disco que marca o desabrochar de uma cantora que desafia limites e se desprende das amarras não só da música pop, mas também das sonoridades latinas que a inspiram desde que ela despontou como modernizadora do flamenco em 2018.

Em "Motomami", Rosalía vai das castanholas e tamborins às batidas eletrônicas, dos vocais performáticos e virtuosos ao Auto-Tune no estilo gás hélio, do jazz ao trap. Mais do que uma soma do tradicional ao moderno, ela funde referências como se todas elas fossem uma coisa só, passeando por uma variedade de timbres tão rica quanto a música pop contemporânea é capaz de comportar.

Não é uma receita nova para a cantora, que apareceu cantando sobre um violão no minimalista "Los Ángeles", de cinco anos atrás, mas despontou no mundo pop em 2018, com o álbum "El Mal Querer". Também baseado no flamenco, a música que ela estudou na Catalunha, o disco expandiu os horizontes da artista e deu a ela reconhecimento internacional, mas de lá para cá ela nunca parou de se mexer.

Nos últimos anos, Rosalía cantou em hits de reggaeton com astros como Bad Bunny (em "La Noche de Anoche") e J Balvin ("Con Altura"), além da estrela pop Billie EIlish ("Lo Vas a Olvidar"), o trapper Travis Scott ("TKN"), a produtora experimental venezuelana Arca ("KLK") e o cantor britânico James Blake ("Barefoot in the Park"). Conforme abria caminhos para ela mesma, Rosalía se tornava uma das vozes mais marcantes e relevantes do pop atual.

Mas "Motomami" pega todas essas experiências e as joga no liquidificador com boleros, batidas de escola de samba, bachatas e arranjos eletrônicos que parecem vindos de outra dimensão. Ao longo de 16 faixas, Rosalía cria momentos de calmaria e de euforia, de melancolia e de celebração, guiando a audição com interlúdios e transições.

Em "Candy", ela passeia de maneira singela por um reggaeton arrastado, construído em cima de um sample de "Archangel" --do cultuado álbum de música eletrônica "Untrue", que Burial lançou em 2007--, até desembocar em "La Fama", uma espécie de bachata com os vocais trêmulos de The Weeknd e um baixo viajante. É um uso completamente diferente do ritmo latino em relação ao feito pelos sertanejos brasileiros --ainda que o bongô ao fundo não deixe dúvida da semelhança.

O uso de samples só dá mais camadas de significado às músicas. Uma versão feita pelo rapper Soulja Boy da música "Delirious", originalmente lançada pela dupla Vistoso Bosses, surge no final de "Delirio de Grandeza", que por sua vez é um cover de um bolero cubano dos anos 1960, conhecido na voz de Justo Betancourt. Rosalía canta como se sua voz saísse diretamente de uma vitrola antiga.

Já em "Saoko", a referência não vem em forma de sample, mas na própria letra. A expressão que dá título à faixa vem de "Saoco", música de 2004 de Wisin e Daddy Yankee --este, o mesmo do hit "Gasolina"--, pioneiros do reggaeton.

Em diversos momentos, há citações ao jazz, com pianos ou baterias pairando sobre as canções, tanto em "Saoko" como na faixa-título --cujo riff eletrônico parece saído de um dos alto-falantes supersônicos dos bailes funk de São Paulo. "Diablo" soa como um reggaeton produzido pelo Kanye West da fase "Yeezus", de 2013, e "The Life of Pablo", de 2016, com os vocais de James Blake. Já "Hentai" é uma balada produzida por Pharrell Williams e seu parceiro de Neptunes, Chad Hugo, que ecoa Billie Eilish.

O mais impressionante não é a capacidade de Rosalía de juntar todos os ingredientes de "Motomami", mas dar sentido a essa salada de frutas multicultural. Ela faz música de um jeito contemporâneo e globalizado, explorando e dando a própria cara às possibilidades que a música popular oferece.

Cantado todo em espanhol, "Motomami" coroa todo o crescimento que a música nessa língua tem tido no mundo ao longo dos últimos anos. Vai ser interessante observar a recepção do novo disco de Rosalía --que apesar das centenas de milhões de plays nas plataformas de streaming, nunca entrou no Top 40 da Billboard americana-- nos Estados Unidos, cuja indústria fonográfica dita moda e entrega os prêmios mais relevantes.

De toda forma, "Motomami" já é um dos álbuns mais interessantes e desafiadores do ano. Não há nada que soe como Rosalía em 2022.

MOTOMAMI

Quando: A partir de sexta (18)

Onde: Nas plataformas digitais

Autor: Rosalía

Gravador: Sony

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