De Roma a Madri: a viagem de uma especialista para autenticar um possível Caravaggio

Mathieu GORSE
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Senador italiano e chefe do partido de extrema direita da Liga (Lega), Matteo Salvini está ao lado de "São Mateus e o Anjo", uma pintura de 1602 do mestre italiano Caravaggio, durante uma visita a São Luís dos Franceses (San Luigi dei Francesi) no centro de Roma em 15 de fevereiro de 2021.

Assim que viu uma foto da pintura, Maria Cristina Terzaghi percebeu que era um Caravaggio. Ela pegou um avião em Roma e foi a Madri para examinar a obra, cuja venda foi bloqueada na quinta-feira pelo governo espanhol enquanto se aguarda a autenticação de autoria.

Sentada em uma cafeteria da capital espanhola, a especialista do mestre italiano do claro-escuro (1571-1610) conta à AFP sobre o que chamou de "Operação Caravaggio".

Poucas horas antes de uma casa de leilões de Madri colocá-lo à venda por um preço inicial de 1.500 euros, o Ministério da Cultura espanhol bloqueou o leilão de "A coroação de espinhos", até agora considerada uma obra de algum dos discípulos do pintor espanhol José de Ribera.

O ministério especificou que a partir de agora será feito um exame rigoroso para autenticar a autoria deste óleo sobre tela.

“Eu vi a pintura em uma imagem que alguns amigos antiquários me enviaram pelo WhatsApp, e que entenderam naquele momento que poderia ser uma obra muito importante. Eles queriam saber o que eu achava”, diz esta professora da Universidade de Roma III.

A princípio pensou em um Battistello, um dos discípulos de Caravaggio, mas logo disse que esse 'ecce homo' era uma obra do mestre italiano. No entanto, e por prudência, "não poderia dizer que era de Caravaggio sem ver", afirma.

Foi então que a direção do Museu do Prado de Madri a chamou para pedir a sua opinião. Ao desembarcar na capital espanhola na quarta-feira, ela viu o quadro na casa de leilões que deveria vendê-lo no dia seguinte, Ansorena.

“Aí não tive mais dúvidas (...) Ficou claro para mim que se tratava de uma obra de Caravaggio”, acrescenta a especialista, feliz que sua hipótese teve eco no Prado e pela Espanha ter declarado a obra como não exportável. "Esse foi, para mim, o resultado mais importante".

Uma decisão do governo espanhol a partir de um relatório do Prado, que alertava sobre "evidências documentais e estilísticas suficientes" para acreditar que a pintura poderia ser uma obra original de Michelangelo Merisi da Caravaggio.

- Uma longa investigação pela frente -

Segundo Maria Cristina Terzaghi, tudo coincide com o estilo do célebre mestre barroco: "a cabeça de Cristo", o brilho de seu torso, "a tridimensionalidade das três figuras" em um molde "quase cinematográfico", a cor roxa do manto de Cristo, as dimensões da pintura (111x86 cm)...

Embora, como costuma acontecer quando se trata de atribuir uma pintura a um grande mestre, a hipótese não convence a todos.

Eric Turquin, um especialista altamente conceituado em casas de leilão francesas, disse à AFP na quinta-feira que, em sua opinião, a pintura não foi feita por Caravaggio.

"Não vejo a mão de Caravaggio nessa pintura. O tema é do próprio Caravaggio, e provavelmente foi pintado entre 1600 e 1620 por um bom pintor, mas não por Caravaggio", disse.

O trabalho sobre a autoria "durará o tempo que for preciso", e "todos os especialistas participarão, obviamente", para "obter resultados o mais próximos da verdade possível", destaca Maria Cristina Terzaghi.

“É claro que a atribuição (de uma pintura) é algo muito pessoal; é uma ciência que não é uma ciência exata, e nesse sentido cada um tem uma opinião diferente, mas cada opinião nos ajuda a entender algo mais sobre a pintura", Terzaghi explica.

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