Rogério Ceni dispensa período sabático por retorno ao Fortaleza até o fim do ano

Demitido pelo Cruzeiro, Ceni acertou retorno ao Fortaleza até o final do Brasileirão (Foto: Bruno Oliveira/Fortaleza EC)

Por Afonso Ribeiro (@afonsoribeiro_)

Quando finalizou o emotivo texto de despedida ao Fortaleza com "até breve", nas últimas horas de 11 de agosto, Rogério Ceni provavelmente não imaginava que o reencontro seria tão rápido. Depois de 48 dias – e a conturbada passagem pelo Cruzeiro –, o treinador paranaense de 46 anos topou retornar ao Pici e aceitou a proposta do clube até o final da temporada.

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"Ninguém sabia que ia ser tão rápido. Ninguém esperava, ninguém mesmo. Nem a gente, nem o Rogério e acho que nem o próprio torcedor. Quando ele saiu, saiu para um desafio profissional e que certamente esperava ir até o final, um contrato mais longo, assim como a gente esperava com o Zé Ricardo. Mas o futebol tem mudanças, e a gente não pode ficar preso a dogmas. Tem que ter a flexibilidade de tomar uma decisão que entende ser o melhor para o clube. Foi, sim, muito rápido, mas eu acho que até pelo fato de ser muito rápido fica mais fácil a volta dele, porque não foi tanto tempo longe. Ele vai encontrar praticamente o mesmo elenco, com três peças a mais, a mesma comissão técnica, a mesma diretoria, no mesmo campeonato. Isso facilita também para que o trabalho possa fluir", ponderou o presidente Marcelo Paz, em entrevista coletiva.

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O Tricolor e o técnico se reaproximaram desde a última terça-feira, quando a Raposa realizou treino no Alcides Santos, sede do clube que passa por obras para se transformar em centro de excelência. Na ocasião, Ceni e seus auxiliares falaram a dirigentes, funcionários e jogadores sobre o clima na Raposa e o arrependimento pela troca de clube no decorrer da temporada.

Na quinta-feira, o treinador foi demitido pelo clube celeste após o empate sem gols com o Ceará e uma reclamação do zagueiro Dedé no vestiário pela ausência do meia Thiago Neves. Pela quebra do vínculo, que tinha duração até 2020, o Cruzeiro terá que pagar R$ 1,8 milhão, de acordo com o Blog do Nicola.

No mesmo dia, em Curitiba, o Leão do Pici foi goleado por 4 a 1 pelo Athletico-PR. O revés encerrou a curta passagem de Zé Ricardo com uma vitória, dois empates e quatro derrotas. Nas primeiras horas de sexta-feira, o presidente Marcelo Paz entrou em contato com Rogério Ceni e apresentou a proposta para selar o retorno. Pelo trabalho realizado no clube em um ano e nove meses e a disponibilidade no mercado, o treinador era visto como a primeira e única opção para o comando da equipe.

"Depois de comunicar ao Zé Ricardo que não continuaria, a gente partiu para buscar um novo comandante e sempre a primeira opção foi o Rogério. Por que o Rogério? Porque ele conhece e formou esse time, o time tem a cara dele, as características dele e qualquer outro treinador que viesse teria que se adaptar ao clube, à cidade, ao formato, aos atletas, e a gente não tem tanto tempo assim. O Rogério montou todo esse trabalho e vem dar continuidade. Fizemos o convite na sexta-feira, ele agradeceu, disse que o Fortaleza é um clube que ele tem um carinho muito grande, pelos jogadores e pela torcida, mas que tinha uma dúvida no momento porque estava realmente muito cansado, a nível pessoal”, explicou o mandatário tricolor.

Trabalho intenso na curta passagem pelo Cruzeiro desgastou o treinador, que cogitava descanso até 2020 (Foto: Bruno Haddad/Cruzeiro)

A partir do momento da saída da Toca da Raposa, Ceni passou a receber e ver diversas mensagens favoráveis ao retorno ao Fortaleza. O treinador respondeu a pessoas mais próximas que "o coração mandava voltar", mas pretendia tomar a decisão em conjunto com a comissão técnica – os auxiliares Charles Hembert e Nelson Simões e o preparador físico Danilo Augusto – e ponderar os fatores positivos em negativos.

Rogério Ceni deixou claro que só voltaria à beira do campo em 2019 para comandar o Fortaleza. Caso contrário, iria descansar e estudar à espera de uma oferta para a próxima temporada. Na breve passagem por Belo Horizonte, em que conviveu com maus resultados e problemas internos, o treinador morou quase metade do período no CT do Cruzeiro. O retorno imediato ao mercado – e ao próprio Tricolor –, o ritmo intenso de trabalho desde dezembro de 2017 e questões familiares – como a distância do pai, que teve problema de saúde neste ano – também estavam na balança.

“Ele estava realmente cansado e disse muito claro para a gente: 'Eu só aceitaria qualquer convite se fosse do Fortaleza, nenhum outro time eu trabalharia esse ano. Eu tenho opção de descansar'. A gente foi conversando, eu dei o tempo necessário a ele, sem qualquer tipo de pressão, porque a gente tinha a convicção de que ele seria o melhor nome para vir para o Fortaleza. Em nenhum momento a questão financeira ou contratual foi problema, desde a primeira fala com ele", disse o presidente.

Foram quase dois dias de reflexão e ponderação até aceitar o retorno, com um acordo nos mesmos moldes do contrato anterior – salário de R$ 250 mil e duração até o final do ano, apesar do desejo da diretoria do Leão de assinar até 2021. A gratidão ao clube, a trajetória vitoriosa, a chance real de permanência na Série A do Campeonato Brasileiro e o desejo de encerrar o ciclo de outra forma foram considerados pelo treinador para dizer "sim".

"Nenhuma nova exigência. Em nada, absolutamente nada. Mesmas questões contratuais, ele sabe que no ambiente do clube estão as mesmas pessoas. Eu dei apenas o tempo necessário para que ele, na cabeça e no coração dele, sentisse a disposição e a energia ideais para voltar ao Fortaleza. Não teve nenhum assunto que pudesse gerar dúvida ou controvérsia", garantiu o dirigente.

Rogério Ceni aceitou os mesmos moldes do contrato anterior com o Tricolor no retorno (Foto: Vinnicius Silva/Cruzeiro)

“Qualquer treinador que chegasse aqui, que não fosse o Rogério, iria ter a mesma dificuldade que o Zé Ricardo teve, de entender o elenco, entender um contexto, a cidade, a expectativa do torcedor... Tudo é uma adaptação. Trocar o pneu com o carro andando é muito complicado. Qualquer treinador, com muita bagagem ou menos bagagem, ia ter essa dificuldade. Então, por isso que eu entendo que a escolha do Ceni quebra várias dificuldades que um outro profissional iria encontrar", afirmou.

Multa paga pelo Cruzeiro "cobre" novo contrato

Apesar da queda no aproveitamento da equipe no Brasileirão após a mudança no comando técnico em um mês e meio, o Fortaleza teve um reforço nos cofres. O Yahoo Esportes apurou que para liberar a ida de Rogério Ceni para o Cruzeiro, em agosto, o Tricolor recebeu R$ 750 mil pela multa rescisória, exatamente o valor de salário dos três meses de contrato do comandante.

Reestreia diante da torcida

Poucas horas após o acerto, o treinador desembarcou em Fortaleza na manhã de domingo e já comandou treino à tarde, no Pici. Apesar de ainda estar vinculado ao Cruzeiro no Boletim Informativo Diário (BID) da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ceni tem a reestreia confirmada diante do Botafogo, nesta segunda-feira, às 20h, na Arena Castelão, com a presença da torcida que lamentou a saída e festejou o retorno do comandante.

"O Rogério vai estar no banco na segunda-feira com toda certeza. Primeiro vai se tentar que ele saia do BID do Cruzeiro, o Cruzeiro bote o Abel e já libera para o Rogério vir para cá. Caso isso não aconteça, ele pode ir, sim, para o banco e o clube pode ter uma sanção administrativa e não uma sanção de pontos ou que venha causar prejuízo técnico. E se for necessário fazer isso, nós vamos fazer porque é importante a presença dele no banco de reservas. Ele vai estar no banco. Vamos trabalhar para que ele esteja no banco e no BID", disse Marcelo Paz.

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