Roger Waters e Noam Chomsky alertam para risco de golpe 'anunciado' no Brasil

*ARQUIVO* SÃO PAULO / SÃO PAULO / BRASIL -08 /12/17 - :00h -  Roger Waters- Roger Waters vem a São Paulo promover turnê no país, marcada para 2018. ( Foto: Karime Xavier / Folhapress)
*ARQUIVO* SÃO PAULO / SÃO PAULO / BRASIL -08 /12/17 - :00h - Roger Waters- Roger Waters vem a São Paulo promover turnê no país, marcada para 2018. ( Foto: Karime Xavier / Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Personalidades como o músico Roger Waters, o ator Danny Glover, a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, e o filósofo Noam Chomsky estão entre os mais de cem signatários de um manifesto que reivindica a criação de "um poderoso movimento de solidariedade internacional" em defesa da democracia no Brasil.

O documento afirma que o presidente Jair Bolsonaro (PL) cria condições para desacreditar o processo eleitoral e prepara seus apoiadores para a violência política e até para uma insurreição em caso de derrota no pleito deste ano.

"Nenhum golpe de Estado jamais foi tão anunciado", alerta o manifesto. "A democracia no Brasil hoje precisa do apoio e da vigilância do mundo. Que a Constituição e o sufrágio popular sejam respeitados é nossa responsabilidade comum", diz ainda.

Articulado pelo Washington Brazil Office (WBO), think tank brasileiro e apartidário sediado na capital dos Estados Unidos, o texto será lido em um evento na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo no dia 22 deste mês.

Na ocasião, haverá uma cerimônia em memória aos 45 anos do episódio que ficou conhecido como a invasão da PUC. A ofensiva, ocorrida em 1977 sob a ditadura militar (1964-1985), resultou na prisão de centenas de estudantes.

Intitulado "A solidariedade internacional não é uma palavra vazia", o documento ainda pede que as Forças Armadas não interfiram no processo eleitoral e que as ameaças e violências contra candidatos e seus apoiadores sejam condenadas. Na PUC, sua leitura será feita pelo historiador americano e presidente do conselho de diretores do WBO, James Green.

"A solidez da democracia brasileira e o respeito ao Estado de Direito, aos direitos humanos, ao meio ambiente, aos direitos dos povos indígenas e de outros grupos marginalizados são questões que dizem respeito a todos e, como tal, são objeto de nossa legítima atenção e solidariedade", afirma o texto. "Não podemos permanecer meros espectadores."

A presidente da entidade argentina Avós da Praça de Maio, Estela de Carlotto, o filósofo Michael Lowy e o ex-vice-presidente da Espanha Pablo Iglesias também endossam a iniciativa, que receberá novas adesões.

Além do WBO, participaram de sua idealização a US Network for Democracy in Brazil, a Common Action Forum, a Rede Europeia pela Democracia no Brasil e o Coletivo Passarinho.

LEIA, ABAIXO, A ÍNTEGRA DO MANIFESTO:

"A solidariedade internacional não é uma palavra vazia

Convocação por eleições livres e respeito pelos resultados das urnas no Brasil

Em poucas semanas, o Brasil terá sua nona eleição presidencial desde o fim da ditadura militar e, pela primeira vez desde 1988, há um grande risco de que o sufrágio popular não seja ouvido e respeitado.

Há vários anos, o presidente Jair Bolsonaro planeja contestar sua eventual derrota ao desacreditar o sistema eleitoral brasileiro. Ele acusa os juízes dos tribunais superiores de serem corruptos e partidários, prevê que os votos serão adulterados, suspeita que a mídia esteja a serviço do campo adversário. Inspirado na estratégia de Donald Trump, o presidente brasileiro mobiliza seus apoiadores apresentando-se como vítima, perseguido por um establishment vendido à esquerda, e como único salvador e redentor da nação. Ele demoniza seus adversários e os designa como inimigos. Ao fazê-lo, prepara seus militantes, muitos deles armados, para a violência política e até para a insurreição.

Essa deriva não surpreende em um personagem abertamente nostálgico à ditadura militar e cheio de desprezo pelas instituições republicanas, pelo pluralismo político e pelo Estado de Direito. Mas hoje é como Chefe do Executivo e Comandante-em-Chefe das Forças Armadas que ele pronuncia essas diatribes extremistas, enquanto quatro anos no poder radicalizaram sua base militante. Nenhum golpe de estado jamais foi tão anunciado.

A democracia no Brasil hoje precisa do apoio e da vigilância do mundo. Que a constituição e o sufrágio popular sejam respeitados é nossa responsabilidade comum.

O destino de um país de dimensões continentais, com uma população superior a 212 milhões de habitantes, um património ambiental de importância crucial para o futuro do planeta e um papel preponderante na economia e governação mundial, é uma questão cujas consequências vão muito além as fronteiras do Brasil. A solidez da democracia brasileira e o respeito ao Estado de Direito, aos direitos humanos, ao meio ambiente, aos direitos dos povos indígenas e de outros grupos marginalizados são questões que dizem respeito a todos e, como tal, são objeto de nossa legítima atenção e solidariedade. A democracia deste imenso país é nosso bem comum e não podemos permanecer meros espectadores.

Chegou a hora de gestar um poderoso movimento de solidariedade internacional em defesa do processo democrático no Brasil.

É por isso que nós, intelectuais, políticos, artistas, ativistas, cidadãos e cidadãs, chamamos a exigir:

Que as eleições presidenciais no Brasil ocorram nos termos da Constituição;

Que todas as ameaças e violências contra os candidatos e seus apoiadores sejam condenadas e combatidas;

Que as instituições republicanas sejam mantidas em suas atribuições e suas decisões respeitadas;

Que as forças armadas não interfiram no processo eleitoral, na apuração dos resultados ou na transmissão do poder.

A democracia é um bem precioso e frágil, do qual todos somos fiadores. Neste ano em que o Brasil comemora o bicentenário de sua independência, seu desafio histórico continua sendo o de defender um país democrático, plural e inclusivo. A democracia brasileira também é nossa e a solidariedade internacional não deve ser uma palavra vazia."