Ricos paulistanos são alvo de sátira publicada em 1912 e que ganha reedição agora

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Lançado em 1912 e jamais reeditado até agora, o livro "Gente Rica - Cenas da Vida Paulistana" seguia rumo ao esquecimento.

Houve, porém, uma conversa uma década atrás que começou a tirar a obra do caminho do ostracismo. Michael Hall, professor de história da Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, falou com a amiga Walnice Nogueira Galvão sobre a existência desse pequeno romance com uma mordacidade incomum.

Professora emérita de teoria literária da Universidade de São Paulo, Nogueira Galvão ficou fascinada pela obra e, há cerca de três anos, sugeriu a publicação para Marta Garcia, da Chão, editora que se dedica a textos que recuperam a memória brasileira, por meio da história e da literatura. Mais de um século depois, "Gente Rica" volta às livrarias.

Não é difícil entender as razões que levaram Hall e Nogueira Galvão a apreciar tanto essa crônica longa. Agudo, pseudônimo de José da Costa Sampaio, português radicado em São Paulo morto em 1923, cumpre bem o papel de observador da belle époque de uma cidade em transformação. São Paulo tinha por volta de 35 mil habitantes, cerca de um quinto da população do Rio de Janeiro nessa época. Não se comparava à então capital em importância econômica e cultural, mas vivia uma fase de mudanças -o Theatro Municipal, presente no romance, tinha acabado de ser inaugurado.

Agudo retrata lugares frequentados pela elite que não existem mais, como o Café Guarany, a joalheria Grumbach e a rotisserie Sportsman. Mas esse olhar sobre espaços paulistanos é secundário diante da sagacidade com que apresenta seus personagens. São figuras ficcionais, que traduzem o comportamento dos ricaços daquele período.

Um dos protagonistas é Juvenal, "paulista da gema" que vive muito bem com as ações das empresas ferroviárias e outros investimentos. Nada cria ou produz, uma inação que não o incomoda, pelo contrário.

Tipo que gosta de contar histórias, Juvenal anuncia aos amigos ter sangue de bandeirantes nas veias, mas sua altivez tem limite. "Sejamos orgulhosos da nossa qualidade de paulistas, mas não escavemos muito nas ruínas do nosso passado, porque elas, nas suas mais profundas camadas, estão cheias de ossos que ainda hoje nos envergonhariam", diz ele.

O outro protagonista é Leivas Gomes, visto pelo autor como uma exceção naqueles ambientes de requinte. "Era, em suma, o verdadeiro tipo do self-made man, tão raro em nosso meio em que predomina o filhotismo sem limites", escreve o autor.

Os amigos Juvenal e Leivas estão envolvidos na instalação da Mútua Universal, uma associação de investimentos que, de certa forma, prenuncia a ascensão das gestoras no século 21.

Essas associações, escreve Nogueira Galvão no posfácio, "não passam de pálida antecipação, quando comparadas à especulação do capital financeiro que hoje se expressa, por exemplo, nos hedge funds, e ao desequilíbrio econômico em escala planetária a que conduziram o conjunto da sociedade".

Interessados no projeto da Mútua Universal, surgem personagens como o comendador Julio Marcondes, que organiza um cadastro com herdeiras de quem valeria a pena se aproximar, e o doutor Araujo Reis, um jornalista descrito por José Agudo como "maleável como a cera, instável como ar, versátil como um cata-vento, escorregadio como uma enguia que nos escapa das mãos limpas". Quem não conhece alguém como ele?

A sátira das elites, tão bem engendrada pelo autor, permanece atualíssima, mas existe um outro ponto de interesse. Essa ficção de costumes urbanos é um dos grandes momentos do chamado pré-modernismo, que ficou encoberto, nas palavras de Nogueira Galvão, "pelo fulgor da Semana de Arte Moderna".

Bem antes de 1922, fortunas se acumulavam em São Paulo e inspiravam autores, como José Agudo, a descrever, com humor, a hipocrisia da gente rica.

GENTE RICA - CENAS DA VIDA PAULISTANA

Preço R$ 54

Autor José Agudo

Editora Chão (200 págs.)

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