Se pediu mudança na PF para proteger família, Bolsonaro perdeu condições de governar

O presidente Jair Bolsonaro empossa o ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, durante cerimônia de nomeação dos ministros de Estado, no Palácio do Planalto. Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

É gravíssima a revelação de que Jair Bolsonaro afirmou, na reunião citada por Sergio Moro ao se demitir do Ministério da Justiça, que pretendia trocar o comando da Polícia Federal porque investigações em andamento não poderiam prejudicar sua família nem seus amigos.

Se confirmado o relato, o presidente não tem mais o que fazer se não deixar o cargo.

Como não vai fazer, a bola está com as autoridades. A começar pela Câmara, onde -- agora sabe-se por quê -- o presidente corre para montar uma base parlamentar minimamente coesa que sirva como tropa de choque.

Quando o depoimento de Sergio Moro veio à tona, Bolsonaro correu para dizer que a troca de mensagem mostrada pelo ex-ministro ao Jornal Nacional era “fofoca”. No print, o presidente citava o avanço de investigações da Polícia Federal sobre deputados aliados e dizia a Moro que aquele era mais um motivo para a troca.

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Moro não acusou formalmente o presidente de crime algum, mas deu o caminho das pedras para a polícia.

A peça-chave é um vídeo que está nas mãos do ministro do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello (por ironia, ocupante da cadeira que vagará no fim do ano e que chegou a ser oferecida a Moro pela deputada Carla Zambelli para aceitar um amigo da família Bolsonaro no comando da PF).

Fontes que assistiram ao vídeo disseram ao jornal O Globo que Bolsonaro exigiu, na reunião, que precisava “saber das coisas” que estavam ocorrendo na PF do Rio e cita que investigações em andamento não poderiam "prejudicar a minha família” nem “meus amigos”. Se fosse preciso, teria ameaçado o presidente, trocaria o superintendente do Rio, o diretor-geral da PF e até mesmo o ministro da Justiça até conseguir acesso às informações. 

Ah, sim, foi na mesma que reunião que, conforme divulgado, o ministro da educação, Abraham Weintraub, xingou os 11 ministros do Supremo.

Segundo os relatos, Bolsonaro ainda criticou o ex-juiz pela falta de engajamento e por não defender o governo nos momentos difíceis.

Moro ouviu reprimenda humilhante na frente dos colegas. Pouco depois, pegou o boné. Quem ficou, consentiu.

Sem o ministro no caminho, Bolsonaro não esperou para promover as mudanças na direção-geral e na Superintendência da PF no Rio.

Em entrevista, Bolsonaro já disse que pode mudar como e quando quiser porque se trata da “sua Polícia Federal”. Não é.

Especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo após a entrevista coletiva de Sergio Moro afirmam que, confirmado o relato do ex-ministro, o presidente, em tese, pode ter cometido os crimes de falsidade ideológica, coação no curso do processo, advocacia administrativa, obstrução de Justiça e corrupção passiva privilegiada.

Agora existe um vídeo para provar a fala do ex-ministro. Os efeitos podem ser irreversíveis.

Com o agravamento da crise política, no auge da crise sanitária, o dólar fechou o dia a R$ 5,89.

Como se vê, o que Moro mostrou não era fofoca.

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