5 frases da reunião ministerial que demonstram interesse de Bolsonaro em interferir na Polícia Federal

Presidente Jair Bolsonaro, ao lado de ministro-chefe da Casa Civil, Braga Netto, vice-presidente, Hamilton Mourão, e ex-ministro da Justiça Sergio Moro na reunião de 22 de abril. (Photo: Reprodução/YouTube)

A gravação da reunião interministerial do dia 22 de abril cuja divulgação foi autorizada nesta sexta-feira (22) pelo decano do Supremo Tribunal Federal, Celso de Mello, mostra o presidente Jair Bolsonaro reclamando de acesso a informações de inteligência e avisando que iria “interferir”. 

“O serviço de informações nosso, todos, é uma... São uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado! E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir!”, disparou o presidente em determinado momento. 

O esperado vídeo foi tornado público no âmbito do inquérito 4831 do STF, aberto a partir das acusações feitas pelo ex-ministro Sergio Moro, quando se demitiu do governo em 24 de abril, dois após essa reunião. Na ocasião, disse que o ex-chefe tinha interesse em usar a Polícia Federal como órgão político, que desejava intervir também na superintendência da corporação no Rio de Janeiro. 

O pretexto para Moro pedir demissão foi a decisão de Bolsonaro de exonerar Maurício Valeixo, diretor-geral da PF e braço-direito de Moro.

Moro já prestou depoimento, em 2 de maio, no curso das investigações. Afirmou que Bolsonaro ameaçou de demissão os ministros que não seguissem as ordens de interferência.

O teor da reunião já havia sido adiantado ao HuffPost por fontes que participaram do encontro e também pessoas que já haviam tido acesso à íntegra do vídeo anteriormente.

Veja 5 frases marcantes de Jair Bolsonaro no encontro de mais de duas horas com todos os seus ministros naquele 22 de abril — que demonstram o interesse do presidente em interferir na PF:

Eu não vou esperar o barco começar a afundar pra tirar água. Estou tirando água e vou continuar tirando água de todos os ministérios no tocante a isso. A pessoa tem que entender. Se não quer entender, paciência, pô! E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora nos demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias.

Pô, eu tenho a PF que não me dá informações. Eu tenho as... As inteligências das Forças Armadas que não tenho informações. Abin tem os seus problemas, tenho algumas informações. Só não tenho mais porque tá faltando, realmente, temos problemas, pô! Aparelhamento etc. Mas a gente não pode viver sem informação. Sem informação... Quem é que nunca ficou atrás do... Da porta ouvindo o que seu filho ou sua filha tá... Tá comentando. Tem que ver pra depois que ela engravida, não adianta falar com ela mais. Tem que ver antes... Depois que o moleque encheu os cornos de ... de droga, já não adianta mais falar com ele, já era. E informação é assim. Eu tava vendo, estudando em fim de semana aqui como é que o serviço chinês, secreto, trabalha nos Estados Unidos. uai a preocupação nossa aqui? É simples o negócio: “ah, não deve publicamente”. Devo falar como? Tá todo mundo vendo o que tá acontecendo.

Desde que Moro deixou o governo e informações sobre o vídeo começaram a vir à tona, Bolsonaro tem negado qualquer intenção de intervir na PF. Destaca que, quando falou a respeito na reunião do dia 22 de abril, referia-se à sua segurança pessoal.

Só que a segurança pessoal do presidente da República é realizada pelo Gabinete de Segurança Institucional, comandado pelo general Augusto Heleno. O ministro é um aliado fiel ao mandatário e vem demonstrando isso, inclusive, reclamando constantemente do que chama de “interferência” de outros poderes no Executivo.

(Photo: SERGIO LIMA via Getty Images)

Agora não dá mais. Então essa é a preocupação que temos que ter. A questão estratégica, que não estamos tendo. E me desculpe; o serviço de informações nosso, todos, é uma... São uma vergonha, uma vergonha! Que eu não sou informado! E não dá pra trabalhar assim. Fica difícil. Por isso, vou interferir! E ponto final, pô! Não é ameaça, não é uma extrapolação da minha parte. É uma verdade.

Presidente foi taxativo após reclamar de não receber informações de órgãos de segurança e disse: "Por isso vou interferir".  (Photo: Andressa Anholete via Getty Images)

Como eu falei, né? Dei os ministérios pros senhores. O poder de veto mudou agora. Tem que mudar, pô. E eu quero é realmente governar o Brasil. Não, é o problema de todos aqui, como disse o Marinho, né? É o mesmo barquinho, é o mesmo barco. Se alguém cavar o fu... Cavar no porão aqui, vai, vai todo mundo pro saco aqui, vai todo mundo morrer afogado. Então isso que a gente precisa; é pensar além do que tem que fazer internamente aqui.

Moro alega que a substituição de ministro a que o presidente se referia era no Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável pela Polícia Federal. Ao HuffPost, participantes do encontro confirmam ao HuffPost que Moro era mesmo destinatário das falas alteradas do presidente:

Já tentei trocar gente da segurança nossa no Rio de Janeiro, oficialmente, e não consegui! E isso acabou. Eu não vou esperar foder a minha família toda, de sacanagem, ou amigos meus, porque eu não posso trocar alguém da segurança na ponta da linha que pertence a estrutura nossa. Vai trocar! Se não puder trocar, troca o chefe dele! Não pode trocar o chefe dele? Troca o ministro! E ponto final! Não estamos aqui pra brincadeira.

No ano passado, o presidente já havia tentado intervir na substituição da Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro. “Se ele [Moro] resolver mudar, vai ter que falar comigo. Quem manda sou eu”, disse Bolsonaro, em agosto, sobre a ida de Carlos Henrique Oliveira de Pernambuco para a superintendência do Rio. Na época, ele tentava emplacar Alexandre Saraiva, superintendente no Amazonas. 

Após a exoneração de Maurício Valeixo por Bolsonaro e o desembarque de Moro do governo, o presidente tentou nomear Alexandre Ramagem, amigo dos filhos, para o comando da corporação, mas foi impedido pelo STF.

Assumiu o posto Rolando Alexandre de Souza, cujo primeiro ato foi retirar Carlos Henrique Oliveira da superintendência da PF do Rio. A justificativa foi a promoção de Oliveira para a secretaria-executiva da corporação, o cargo número 2 da PF, mas que não lida com investigações.

Sem Oliveira, o comando da PF no Rio foi dado ao delegado Tácio Muzzi. Para policiais federais, a escolha de Muzzi diminui temor de interferência política.

Após a divulgação do vídeo, o presidente classificou como “farsa” o conjunto de acusações de Moro contra ele. “Nenhum indício de interferência na Polícia Federal”, escreveu Jair Bolsonaro em seu perfil no Facebook.

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