Retrospectiva Bolsonaro: você lembra o que o presidente fez em outubro?

(Foto: REUTERS/Adriano Machado)

por Anny Malagolini

Em outubro, Jair Messias Bolsonaro completava exatamente 1 ano das eleições que o levaram a Presidência da República, vencendo Fernando Haddad com 57,7 milhões de votos e levando os generais de volta ao poder, agora pelo voto. A bonança nem sempre acompanhou o capitão do exército no último ano, mas o mês trouxe a maior vitória para o governo até hoje: a aprovação da reforma da previdência, vista como um triunfo da política econômica de Paulo Guedes.

Depois de muito toma lá da cá, o presidente conseguiu um feito histórico e o texto foi aprovado por 60 votos favoráveis a 19 contrários, oito meses após o envio para o Congresso. A reforma, no entanto, já esteve nos planos do ex-presidente Michel Temer, que em 2017 deu início as discussões para alterar o sistema previdenciário.

A velha política, outrora criticada por Bolsonaro, entrou em jogo e o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM), e seus aliados mostraram que quem manda ali são eles. O recado foi dado, mas o presidente ainda tentava mostrar uma força política que ainda não tinha. Sem a boa vontade de Maia, o texto não passaria. Nem mesmo com os regalos que o Planalto precisou oferecer, como emendas parlamentares e recursos. O antigo modelo político estava mais viva do que nunca.

Á época, o mandatário brasileiro atravessava um momento conturbado com a própria legenda, o PSL -  dividido entre os bolsonaristas e os pró-Bivar -, e os desdobramentos dessa crise abraçaram os filhos e alguns dos aliados mais midiáticos, como a deputada Joice Hasselmann. Os pontos de fratura afloraram no governo Bolsonaro, e apoiadores tornam-se inimigos da noite para o dia. Após um ano das eleições de 2018, o presidente e a parlamentar terminaram a união em uma espiral bizarra de discussões. Neste ano, Bolsonaro só não brigou com Deus.

briga protagonizada por Joice mirou um assunto diário de todo o clã: as redes sociais. Segundo a deputada, os filhos de Bolsonaro têm 'milícia digital' com 1.500 perfis falsos, formando uma rede especializada em campanhas de difamação e notícias falsas usando aplicativos de mensagens.

O apocalipse das fake news

Ao mesmo tempo, caminhava pelo Congresso a CPMI das Fake News para investigar os ataques cibernéticos que atentam contra a democracia e a utilização de perfis falsos para influenciar os resultados das eleições do ano passado.

As notícias falsas em massa como arma política faz parte de um problema global, para a qual as autoridades brasileiras definitivamente não se prepararam. De um lado, estão deputados ligados a Bolsonaro, incluindo os dois filhos do presidente no Congresso, que tentam travar a apuração por meio do PSL — tudo isso em meio à guerra interna do partido. De outro, petistas e seus aliados que querem causar o máximo de constrangimento ao Palácio do Planalto.

Bolsonaro e sua equipe entenderam como ninguém surfar nas ondas das redes sociais, se transformando em um genuíno fenômeno popular. Mas ainda cabia perguntar se a campanha do capitão reformado do Exército teria alcançado tanto apelo orgânico quanto diziam. O resultado do que Joice falou lá atrás é que ela acabou convidada a depor na comissão.

Mas além do período eleitoral, o ano do governo também foi marcado por boatos. Jair Bolsonaro deu, pelo menos, 78 declarações falsas ou imprecisas somente no mês de outubro. É o que aponta o projeto Aos Fatos, que checa a veracidade de declarações de políticos e autoridades brasileiras.

Filhocracia

Os problemas de Bolsonaro também incluíam Carlos, Eduardo e Flávio, que pareciam fazer parte da cadeira presidencial, criando uma situação inédita no Planalto. Ficava a dúvida se quem governará era Bolsonaro ou os seus filhos, especialmente o número 02, o polêmico vereador Carlos Bolsonaro. 

O aguerrido filho do presidente é o que mais causa impacto no governo e nas redes sociais do pai, causando situações embaraçosas, como da vez que publicou no twitter do presidente, dizendo ser favorável à prisão após condenação de segunda instância. Mais tarde, no entanto, a publicação foi apagada. O vereador assumiu a autoria da mensagem e pediu desculpas pelo ocorrido, sendo a primeira vez que Carlos assumira que atualiza redes sociais do pai.

Se em 2018 a “mamadeira de piroca” invadiu o noticiário, 2019 se mostrou o ano em que a extrema direita, no poder, reforçou seu flerte com o período de chumbo, em um tom hipotético de futuro. Começando pelo caçula, deputado federal Eduardo Bolsonaro, que falou em novo AI-5 “se a esquerda radicalizar”. Após saber da declaração do filho, restou ao presidente lamentar. Eduardo cogitou a reedição do Ato Institucional de número 5 quando foi questionado em uma entrevista sobre os protestos no Chile e a eleição de Alberto Fernández na Argentina, tendo como vice a ex-presidente Cristina Kirchner.

Eduardo Bolsonaro afirmou, no plenário da Câmara, que as autoridades brasileiras não podem permitir que protestos como os do Chile cheguem ao Brasil, o que pareceu um aceno ao retorno da ditadura no Brasil. Naquele período, o país latino vivia os maiores protestos desde o retorno à democracia em 1990.

Dias antes, o parlamentar havia desistido de tentar ser embaixador em Washington, nos Estados Unidos, uma saída pela tangente para não ter de enfrentar um revés no Senado para a aprovação ao posto. Apesar do esforço de Bolsonaro para emplacar o filho, o presidente acabou atribuindo a desistência à necessidade de ter Eduardo ajudando a pacificar o PSL. A essa altura, a permanência do grupod no partido já era incerta.

Para piorar de vez a fama dos filhos do presidente, em outro capítulo da guerra aberta dentro do PSL, Luciano Bivar destituiu Eduardo e o senador Flávio das presidências da legenda em São Paulo e no Rio de Janeiro, respectivamente.

Ditadura Bolsonarista

Falando em ditadura, titular do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, paladina de causas conservadoras disse que o governo conservador de direita de Jair Bolsonaro “vai dar tão certo que vamos ficar 4, 8, 12 anos”. “As pessoas me perguntam, mas Damares, já estão falando em reeleição? Sim, estamos precisando de pelo menos 12 anos para cuidar do Brasil”, afirmou ela, durante conferência conservadora em São Paulo.

Esse streaming de polêmicas é constantemente atualizado, assim quando o presidente Jair Bolsonaro ameaçou não renovar a concessão da TV Globo e acusou o canal de persegui-lo. O gesto lembra uma medida similar de Hugo Chávez, então presidente da Venezuela, que retirou do ar a RCTV, na época a emissora mais vista do país e conhecida por suas novelas.

O Brasil viveu 21 anos de ditadura militar, um período marcado por repressão, censura e violência, mas falas que enaltecem o período ou cogitam um remake da restrição da liberdade parece não ter resistência. Uma das novidades que o governo trouxe para 2019.

Uma mancha no governo

Na balança do governo há pontos considerados de avanço, como o a criação do programa “Novos Caminhos”, que promete ampliar matrículas de alunos no ensino médio e o desbloqueio das contas das universidades, que foi o estopim dos protestos em maio. Teve também a MP aprovada pela Câmara facilita venda de patrimônio apreendido para que o recurso seja utilizado em projetos de combate às drogas.

O otimismo, porém, durou pouco e o bom humor do de Bolsonaro foi por água baixo com um dos principais problemas que o governo enfrentaria não só no mês, mas o que seria uma mancha no resto do mandato.

Abrindo uma nova crise ambiental no governo, depois dos incêndios na Amazônia, sólidas e enormes manchas de petróleo surgiram em mais de 700 locais do Nordeste e Sudeste, e mais de 130 animais foram atingidos em uma faixa que vai do Maranhão até o Rio de Janeiro. Essa que já é a maior tragédia no litoral brasileiro.

Os primeiros sinais surgiram no início de setembro e se espalharam com mais intensidade no início de outubro. Embora as manchas não tenham sido causadas pela União, a omissão no desastre das manchas de óleo no Nordeste, que protelou medidas protetivas e não atuar de forma articulada na região atingida pelos vazamentos.

O problema é que o derivado de petróleo deveria ter sido barrado antes de chegar à areia e entrar pelos rios. Entretanto, se o óleo já chegou à costa, a limpeza deve ser feita na maior velocidade possível, na tentativa de evitar que ele volte para o mar com o movimento das marés ou que as substâncias tóxicas ali contidas se entranhem nos variados sedimentos costeiros.

Diante da inércia do governo, a população precisou colocar a mão na massa, quer dizer, no óleo. O trabalho de limpeza foi feito pelas mãos dos moradores e turistas. Sem hesitar, alguns mergulhavam para retirar o petróleo que estava submerso, enquanto o presidente de discurso incendiário se consolidava o mais novo vilão do meio ambiente. 

É da casa do Seu Jair?

O Messias ainda atravessaria um mar de suspeitas, e o clã Bolsonaro parecia menos intocável. As ligações da família com as milícias do Rio de Janeiro ganham novos desdobramentos depois que seu nome apareceu nas investigações sobre a morte de Marielle Franco e seu motorista. Anderson Gomes. 

O porteiro do condomínio de luxo do presidente no Rio de Janeiro afirmou, em depoimento à polícia, que um dos principais acusados de matar a vereadora do PSOL, o ex-PM Elcio Queiroz, buscou a casa de Bolsonaro no próprio dia do crime, em 14 de março de 2018. Queiroz solicitou a entrada no condomínio, foi autorizado a entrar por alguém na casa do então deputado federal que teria se identificado como "Seu Jair", mas acabou se dirigindo à propriedade de Ronnie Lessa, no mesmo local. 

Abalado, Bolsonaro fez uma live que teve berros, palavrões e ataques a Rede Globo,: “Vocês, TV Globo, o tempo todo infernizam minha vida, porra!” disparou durante a transmissão. Como todo “santo”, os bolsonaristas diziam que ele tem provações a passar e confiam apoio, enquanto o resto da internet confrontava que “Se fosse mulher iam chamar de mal comida, dizer que são os hormônios”, sem contar os memes mostrando a semelhança entre o Jair Messias e o Hitler.

Se os 10 meses de governo de Bolsonaro fosse um conto, qual seria? A trama envolve traição, casos de família, reconciliação, mas as vezes até parece ficção. Em uma presidência diferente de qualquer outra, onde Bolsonaro acorda no Twitter e continuava pedindo a Deus para que o Brasil não flerte mais com o socialismo, vimos ideologias políticas se chocarem mais do que nunca.

Um ano depois de sua vitória, nos deparamos com baixos índices de aprovação, um misto de sucesso econômico e uma nação dividida que se recusa a ouvir um ao outro. Fenômeno emergente da política brasileira, o mito ainda apresentava poucas novidades, por isso mesmo, a situação brasileira soava tão desanimadora perto daquele otimismo todo que era vendido no início do mandato.