Retrô é o futuro? Câmeras analógicas caem nas graças da Geração Z e viram símbolo de status

Melanie Darmon fotografa com uma câmera analógica, em janeiro de 2022, em Paris (Foto: Edward Berthelot/Getty Images)
Melanie Darmon fotografa com uma câmera analógica, em janeiro de 2022, em Paris (Foto: Edward Berthelot/Getty Images)

Quem diria que a Geração Z, primeira nativa digital, teria tanto interesse em itens como câmeras analógicas? Nos principais festivais de música e pontos turísticos, além dos cliques publicados nas redes sociais, elas já viraram tendência e símbolo de status — afinal, para ter uma e usá-la com frequência, é preciso fazer um investimento considerável.

"É típico da juventude buscar caminhos para se diferenciar e autoafirmar. Então, é natural que essa geração se aproprie de ferramentas antigas para produzir uma nova estética e criar narrativas que se destaquem", analisa Marina Roale, pesquisadora e head de insights do Grupo Consumoteca. "Também não deixa de ser um deboche do presente, no qual praticamente todo mundo tem acesso a celulares com câmeras supertecnológicas. Os jovens de hoje têm muito esse tom irônico ao reinterpretar nossa realidade", completa.

Celebridades e influencers, claro, ajudaram a impulsionar esse movimento. Em 2017, por exemplo, Kendall Jenner fez a procura pelo modelo Contax T2 disparar ao participar do talk show de Jimmy Fallon e mostrar algumas das fotos que já havia tirado para uma revista norte-americana. "Comecei fotografando meus amigos. Amo registrar nossos momentos e, para mim, tudo parece mais autêntico quando capturado em filme", disse a modelo.

Kendall Jenner (Foto: reprodução/Instagram/@kendalljenner)
Kendall Jenner (Foto: reprodução/Instagram/@kendalljenner)

Por aqui, Bruna Marquezine, Giovanna Grigio, João Guilherme e Larissa Manoela são alguns dos apaixonados por câmeras analógicas. "Quanto mais pessoas interessadas no assunto, melhor. Assim, a Fuji e outras empresas não deixarão de produzir filmes pela falta de demanda", comenta o fotógrafo Alex Batista, que acredita que os filtros e programas de computador não conseguem reproduzir totalmente o resultado desse tipo de câmera. "É possível obter a mesma cor e as mesmas texturas, mas aqueles 'defeitinhos' na imagem, interferências provocadas pela luz e outros fatores externos, ficam bem menos espontâneos", justifica.

Bruna Marquezine (Foto: reprodução/Instagram/@brunamarquezine)
Bruna Marquezine (Foto: reprodução/Instagram/@brunamarquezine)
João Guilherme (Foto: reprodução/Instagram/@joaoguilherme)
João Guilherme (Foto: reprodução/Instagram/@joaoguilherme)
Giovanna Grigio (Foto: reprodução/Instagram/@gigigrigio)
Giovanna Grigio (Foto: reprodução/Instagram/@gigigrigio)

"Realmente, não é como fotografar com uma câmera antiga. No entanto, para quem não tem tanta habilidade ou mesmo condições de comprar e manter um modelo analógico, aplicativos como o Hipstamatic e o Darkr podem ser boas alternativas", indica Flavio Luiz Matangrano, fotógrafo e professor da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP).

Batista destaca ainda o aprofundamento natural de quem encontra um novo hobby ou profissão ("Se você gostar muito de fotografia, eventualmente vai querer saber como as pessoas que se tornaram referência costumavam trabalhar") e a experiência nada imediatista, novidade para os que cresceram na era da internet. "Em média, demoro mais de um mês para terminar um filme. Quando revelo as fotos, já esqueci boa parte do que fotografei e me surpreendo, seja pelo momento em si, seja por um efeito inesperado na imagem", conta.

A historiadora de moda e professora Maíra Zimmermann, também da FAAP, acrescenta: "O ato de manusear a câmera, pensar com cuidado no clique [que não poderá ser apagado e refeito em seguida], traz uma importante sensação de produzir algo mais autoral. E esperar e compartilhar essas fotos com quem gostamos é realmente algo muito especial e que eles estão descobrindo agora."

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