Retornar à fase amarela não é suficiente para lidar com a nova onda de Covid, diz diretor do Sírio-Libanês

CLAUDIA COLLUCCI
·10 minuto de leitura
***FOTO DE ARQUIVO***SÃO PAULO/SP-BRASIL, 21/12/2018 - Paulo Chapchap, 61, presidente do hospital Sírio-Libanês - Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês comemora 10 ano.Foto: Zanone Fraissat - Folhapress)
***FOTO DE ARQUIVO***SÃO PAULO/SP-BRASIL, 21/12/2018 - Paulo Chapchap, 61, presidente do hospital Sírio-Libanês - Centro de Cardiologia do Hospital Sírio-Libanês comemora 10 ano.Foto: Zanone Fraissat - Folhapress)

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O diretor-geral do Hospital Sírio-Libanês, Paulo Chapchap, 65, considera insuficientes as medidas de enrijecimento da quarentena adotadas pelo governo de João Doria (PSDB) desde quarta-feira (2).

Para ele, é preciso endurecer ainda mais as regras para o funcionamento de bares e restaurantes para evitar o aumento do contágio e das internações por Covid-19.

"No mínimo, tem que aumentar o distanciamento das mesas, colocar as mesas para fora", afirma.

Em relação aos shoppings, ele não vê sentido na limitação do horário de funcionamento em até dez horas. Acredita que, se o horário fosse ampliado, haveria diluição da quantidade de pessoas, evitando eventuais aglomerações.

Na quarta, o Sírio-Libanês lançou uma campanha de alerta para o aumento de casos de Covid e para que as pessoas mantenham as medidas protetivas. O hospital está com taxa de ocupação superior a 90%.

Segundo Chapchap, o país não tem políticas públicas bem definidas para o enfrentamento da pandemia e tampouco comportamento adequado das pessoas. "Se a gente não mudar o comportamento, avizinha uma situação que pode ser de calamidade de novo", diz ele, que também lidera o grupo Todos pela Saúde.

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Pergunta - O Sírio-Libanês acaba de lançar uma campanha alertando para esse aumento de casos de Covid-19 e de internação. Qual a razão desse repique?

Paulo Chapchap - A gente não tem políticas públicas bem definidas e também o comportamento das pessoas definido ou restringido por essas políticas. O que aconteceu aqui e no resto do mundo foi que, com a maior circulação das pessoas e contato físico, especialmente onde a máscara não era mandatória, a gente teve aumento do número de contágios e, em seguida, de internações e de mortes.

A grande questão é se a gente vai conseguir conter isso a ponto de permitir que o sistema de saúde atual dê conta dessa sobrecarga. Se a gente não mudar o comportamento, se avizinha uma situação que pode ser de calamidade de novo.

Os hospitais privados tiveram aumento de internações por Covid-19 ao mesmo que estão lotados de pacientes de outras especialidades. Ainda é possível conciliar essas duas demandas?

PC - Os casos em que os tratamentos foram adiados nos dois, três meses iniciais voltaram numa gravidade muito maior, a gente documenta isso. Não pode mais adiar tratamento. O desafio é criar três hospitais [em um só]: o com áreas livres de Covid para garantir o atendimento [de outras doenças], o de Covid e o de transição, onde os pacientes ficam até chegar o resultado do exame [de Covid]. No Sírio, fizemos isso.

Mas vão serão adiadas cirurgias eletivas para receber uma quantidade maior de pacientes de Covid-19 se necessário?

PC - Pode ser que venha a acontecer. Aí vamos ter que decidir de acordo com a prioridade médica. Você pode ter um caso de Covid grave e um caso de câncer avançado também, que precisa de tratamento e resgate.

Você sempre vai decidir em função de quem precisa de atendimento urgente, menos adiável. Até hoje a gente não precisou adiar tratamento e nem escolher paciente. Mas o apelo que se faz à sociedade é para que a gente não se veja numa situação como essa.

Como está hoje a ocupação dos leitos Covid e não Covid no Sírio?

PC - Está muito alta, acima de 90% de ocupação. A gente está abrindo muitos leitos. Começamos a pandemia com em torno de 469 leitos e hoje, com os leitos de contingência, estamos perto de 550 e temos planos de abrir mais.

Aumentamos em 20% a capacidade e, provavelmente, vamos ter que aumentar mais 10%, 20% com o que estamos antevendo. A gente tem esse privilégio, mas imagino que a pressão em outros hospitais vai ser maior ainda.

De novo, esse repique nos casos de Covid-19 começou na classe média e agora atinge os mais pobres. O que falta para as pessoas terem a percepção do risco e mudarem de atitude?

PC - As pessoas precisam encarar a realidade. Não é porque eu tô cansado que a realidade vai embora. Nós temos que ter maturidade para encarar essa realidade triste e tomar as medidas necessárias.

A gente já aprendeu que não precisa fazer "lockdown". As medidas de proteção mais efetivas são relativamente simples: máscara corretamente utilizada, higiene adequada e frequente das mãos e não fazer aglomeração têm que ser medidas mandatórias.

Onde ocorrem os contágios? Em restaurantes, bares, festas em que as pessoas tiram as máscaras, em academias, ambientes normalmente fechados e pouco ventilados, em que as pessoas não conseguem ficar com a máscara o tempo todo e estão respirando fundo e emitindo um monte [de aerossóis].

As medidas restritivas adotadas pelo governo paulista, de volta à fase amarela do Plano SP, são suficientes?

PC - Não acho, eu mexeria em aglomerações em bares e restaurantes. No mínimo, tem que aumentar o distanciamento de mesas, colocar as mesas para fora. Tem gente muito capacitada que está lá no comitê de contingenciamento que tem que ser ouvida e tomar essas decisões.

Na minha opinião, vamos ter que avançar mais [no Plano SP] na próxima segunda-feira (7). Com indicadores que a gente tem, vamos ter que progredir as fases que estão desenhadas.

E o impacto econômico disso?

PC - As pessoas dizem: 'Ah! Mas e a economia dos restaurantes?' Vamos então compensar os restaurantes, vamos permitir mesas nas ruas, vamos fechar as ruas, proibir o estacionamento de carros nas ruas e colocar mesas.

Tem um monte de coisas que podem se fazer com distanciamento e orientadas com conhecimento e a gente não está fazendo. A gente não precisa deixar chegar na calamidade, você tem indicadores de antecedentes.

Se você testar largamente, vai perceber que a curva de contágio está aumentando e vai tomar medidas menos restritivas no começo.

Em vários países da Europa, o 'lockdown' foi necessário...

PC - Porque se deixou chegar numa situação de calamidade. Qualquer caso [de Covid-19] será em excesso em relação à capacidade de atendimento [dos hospitais]. Mas a gente não está nessa situação ainda.

As festas de Natal e de fim de ano se aproximam. Será possível sair fazer compras, reunir a família, os amigos?"‚Em relação às compras, shoppings com espaços amplos, pessoas de máscaras e garantia de que não se aglomerem dentro de lojas, controle de entrada, com álcool. Para mim, restringir horário de shopping [medida adotada pelo Plano SP] não é lógico. Porque vai colocar muito mais gente ao mesmo tempo ali dentro.

Eu estenderia o horário de shoppings porque eu quero diluir as pessoas que estão lá e evitar aglomeração. Ah, mas vão abrir restaurante do shopping. Aí não, é lugar fechado, tem que tirar a máscara [para comer e beber].

É um progredir de medidas. Eu não consigo ser prescritivo agora, mas eu sei que o que você pode fazer para diminuir o risco de contágio. Quando você tem uma alta prevalência de pessoas com o diagnóstico positivo, a tua chance de cruzar com alguém positivo aumenta muito, aí tem que usar medidas mais restritivas.

E em relação às festas familiares de Natal, qual a recomendação?

PC - A mesma que os americanos fizeram para o Thanksgiving [Dia da Ação de Graças]: fique na sua pequena família, com aquela que você convive todos os dias, faça a festa com ela e conecte-se com os outros por mídias sociais e aproveita. Se você amplia isso para os pais, os avós, aí não. Porque aumenta muito o risco de uma dessas 10, 20 pessoas estarem contaminadas.

Na primeira onda da Covid houve grande mobilização da sociedade civil, inclusive o Todos pela Saúde, para ajudar o SUS e os mais vulneráveis. Nesse repique, essa ajuda continua necessária?

PC - Não tenho dúvida de que será necessária, mas houve a compra de milhares de equipamentos, o próprio governo se aparelhou, temos hoje os hospitais mais bem aparelhados, mais leitos de UTI e equipes mais bem treinadas para casos de alta complexidade. Isso proporciona um tratamento mais curto e, com o giro de leitos, há mais disponibilidade de vagas. Vai precisar de hospital de campanha de novo? Depende de nós, do nosso comportamento responsável. Eu gostaria que não.

O Todos pela Saúde já tem uma próxima agenda?

PC - A iniciativa gastou R$ 1 bilhão e alguma coisa e, posteriormente, as empresas colegiadas do Itaú ajudaram com os acionistas com mais de R$ 200 milhões. A gente está reservando esses recursos para desenvolver um centro de controle de doenças, com vigilância epidemiológica, detecção precoce e políticas definidas para não vivermos de novo uma pandemia como essa, utilizar todo o aprendizado que a gente obteve e evitar tanto sofrimento. Estamos montando esse instituto, reunindo competências e recursos. Seria como o CDC [Centro de Controle e Prevenção de Doenças] americano.

Faltou vigilância epidemiológica ao Brasil?

PC - Não, eu acho que o país tem que ter um centro especializado, dedicado, com rápida velocidade de resposta, detecção e respostas através da genômica de novos agentes infecciosos para desenvolver rapidamente a resposta imunológica. A gente aprendeu muito durante a pandemia, temos que reunir esse conhecimento todo, formar uma rede de atenção precoce para dar uma resposta muito rápida e evitar a disseminação.

As pessoas estão muito esperançosas em relação à vacina. O sr. vislumbra essa possibilidade para breve?

PC - O Brasil, o SUS, tem uma larga experiência de vacinação em massa. Mas gente deve precisar de mais de uma vacina para dar conta da quantidade que vai precisar, então vamos demorar um tempo para dar as duas doses da vacina para garantir uma volta a uma vida mais normal do que a atual.

Vamos dizer que a gente consiga a vacina ainda no primeiro trimestre. A gente vai demorar meses para ter uma situação de tranquilidade. É importante lidar com a esperança, mas não vai ser tão rápido assim.

A rede privada está se mobilizando para ter vacina antes da rede pública?

PC - Essa pergunta é muito importante, mas de difícil resposta. Teoricamente, a gente deveria assegurar a vacina no sistema público de saúde antes da rede privada. Você tem prioridade de vacinação, como os profissionais de saúde, idosos e pessoas com comorbidades, para que a epidemia seja contida mais rapidamente. Nessa primeira fase, vamos precisar garantir 100 milhões de doses para vacinar rapidamente essa população de 40 milhões, 50 milhões de pessoas. Depois a gente vacina os demais.

Mas o sr. vê alguma chance de a rede privada sair na frente na oferta?

PC - Eu não gostaria de ver essa competição entre aqueles que têm mais dinheiro se vacinando antes, mesmo que não sejam a população de mais risco. A gente tem que concentrar esforços para vacinar a população de risco pelo SUS.

O SUS está pressionado com a demanda de Covid e de atendimentos represados neste ano e com risco de diminuição do orçamento. O sistema vai ter fôlego para enfrentar esses desafios em 2021?

PC - Não está prevista no orçamento do próximo ano a mesma injeção de recursos feita neste ano para enfrentamento da pandemia. A previsão é de um orçamento R$ 44 bilhões menor para o SUS. Eu não consigo imaginar, com o prolongamento da pandemia e com toda a carga de doenças que virá, doenças, como a tuberculose, que progrediram, eu não imagino a sobrevivência do sistema com R$ 44 bilhões a menos.

Acho que haverá responsabilidade das nossas lideranças governamentais e do Congresso de aprovar o prolongamento dos recursos emergenciais para o enfrentamento da pandemia no SUS, sem deixar de lado aos outras patologias.

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RAIO-X

Paulo Chapchap, 65

Médico formado pela Faculdade de Medicina da USP, doutor em clínica cirúrgica. Foi pesquisador e professor visitante em transplante de fígado da Universidade de Pittsburgh e é coordenador do grupo de transplante de fígado do Hospital Sírio-Libanês. Atualmente é diretor-geral da instituição.