Reprises de novelas superam expectativas de audiência na quarentena

LEONARDO SANCHEZ
Adriana Esteves e filho recriam cena de Carminha, de 'Avenida Brasil', em casa. Foto: Folhapress

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Em meio à pandemia de coronavírus, a televisão tem sobrevivido do passado. Com a produção de novelas, séries, filmes e até programas de variedades congelada, o diminuto vácuo deixado pela extensa programação jornalística atualmente nas telas têm sido preenchido por conteúdos que raramente são inéditos.

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Repetir o que todo mundo já viu, tramas para as quais já sabemos o desfecho, não dá audiência, alguns podem dizer. Mas a verdade é que as reprises estão dominando a atenção daqueles confinados em casa sem grande esforço.

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Os catálogos do streaming e as lives sertanejas não foram suficientes para aplacar a fome de conteúdo do espectador em quarentena, que tem devorado também a programação da TV aberta e da paga, segundo dados do Kantar Ibope Media. E, nelas, o que normalmente se vê são novelas já exibidas ou episódios passados de programas diversos. Até mesmo jogos de futebol estão sendo reprisados.

A reexibição da final da Copa do Mundo de 2002, em 12 de abril, superou as expectativas da Globo, marcando 21 pontos no Ibope em São Paulo, dois a mais do que a média do horário aos domingos.

Já Fina Estampa, novela de 2011 atualmente transmitida em edição especial na faixa das nove da emissora, também tem apresentado bons números. Sua média de audiência até agora, também em São Paulo, é de 34 pontos. Amor de Mãe, que a trama de Aguinaldo Silva está substituindo, penou até começar a registrar audiência superior aos 30 pontos.

Mas engana-se quem pensa que esse poder de atração de conteúdos antigos é exclusividade da quarentena. O vintage tem tanto apelo popular que a Globo dedica, desde 1980, uma faixa exclusiva da programação para reprises de novelas, o Vale a Pena Ver de Novo.

A empresa também tem um canal inteiramente pensado para tirar tramas do baú, o Viva, que lidera a lista de audiência da TV por assinatura no total do dia desde janeiro, muito antes de o coronavírus obrigar as pessoas a ficarem em casa.

No caso do Vale a Pena Ver de Novo, a aposta agora é em uma trama que deve mobilizar o público ao dar alento àqueles agoniados com a crise que toma conta do Brasil em contraste com Avenida Brasil, que estava sendo reprisada até semana passada, mas que alcançou amplo sucesso de audiência, com 19 pontos de média parcial, a melhor em São Paulo desde 2010

As vilanias de Carminha serão substituídas, a partir desta segunda-feira (27), pela leveza e o humor de Êta Mundo Bom!, que chega com a tarefa de dar um respiro às amargurantes informações que têm dominado o noticiário.

Para o autor Walcyr Carrasco, o folhetim será fiel à vocação que sempre teve: a de levar otimismo às pessoas. “As pessoas gostam de achar que o mundo pode ser melhor”, diz o autor. “A novela traz uma mensagem positiva, pra cima. É do que mais precisamos hoje em dia.””

Na trama, um rapaz do interior pega o trem rumo à São Paulo dos anos 1940. Simples e ingênuo, Candinho está em busca da mãe, de quem foi separado quando nasceu. O bucolismo no qual cresceu contrasta com a já não moderna metrópole, por meio de uma trama cheia de comicidade característica indissociável do diretor Jorge Fernando, morto em outubro e a quem Carrasco atribui parte do sucesso de Êta Mundo Bom!.

“Essa coisa de reprises tem como objetivo atingir um imaginário, uma nostalgia da audiência”, diz o professor Rogério Ferraraz, da Universidade Anhembi Morumbi. Para ele, ao ligar a televisão e se deparar com uma história conhecida, o espectador encontra conforto. Essa sensação é ainda mais forte nos tempos atuais, de incerteza e ansiedade.

“Nos momentos de graves crises, de dificuldade, as pessoas buscam referências em um passado considerado utópico”, afirma Ferraraz.

Ele volta ao sucesso da transmissão da final da Copa de 2002: “A vitória da seleção brasileira foi um momento em que você juntou todas as torcidas do país. Foi um momento em que se falou ‘olha, o Brasil pode dar certo’. E agora isso nos inspira a pensar que a gente vai sair dessa crise”.

Algo semelhante explica o sucesso de Fina Estampa. Originalmente exibida entre 2011 e 2012, a novela remete a tempos de maior estabilidade no país. “Existe um contexto político e econômico por trás disso. Fina Estampa passou quando o Brasil ainda não estava descendo na curva da economia, quando a gente observava um outro tipo de sentimento na sociedade. É uma narrativa da nação que estava dando certo, e isso é muito forte quando a gente pensa em telenovela.””

Com sua protagonista trabalhadora que, da noite para o dia, se vê milionária, o folhetim ecoou os anseios da população em ascender socialmente algo mais factível há cerca de dez anos. Também existia ali uma clara oposição entre o bem, representado pelo Pereirão de Lilia Cabral, e o mal encarnado na Tereza Cristina de Christiane Torloni/

Esse contraste escancarado entre o certo e o errado marca a narrativa das novelas clássicas. Especulou-se, inclusive, que um dos motivos para Amor de Mãe (que interrompeu gravações diante da Covid-19) ter inicialmente sofrido com a audiência foi o fato de seus personagens serem multifacetados e mais complexos.

“Em termos de estilo, Amor de Mãe tinha aquela coisa mais realista, com muita ação e clima de série. Fina Estampa é de um momento anterior da teledramaturgia, com mais melodrama, coisas que demoram para acontecer, discussões acaloradas e, por isso, talvez mais escapista, mais folhetinesca”, afirma Ferraraz.

Escapismo é uma palavra que cai bem no atual catálogo de novelas da Globo. A faixa das seis exibe “Novo Mundo”, épico sobre os longínquos anos de dom Pedro 1º, enquanto a das sete recebe “Totalmente Demais”, centrada em uma jovem doce e ingênua que quer ser modelo. “Êta Mundo Bom” dá sustância a esse aspecto de fantasia descolada da realidade com sua trama de época, inspirada em “Candinho”, filme de 1954 estrelado por Amácio Mazzaropi, mestre do fazer rir.

"Sempre amei Mazzaropi”, conta Carrasco. “Quando eu era criança, meu pai me levava ao cinema quatro, cinco vezes por semana. Ao descobrir que Candinho era uma releitura de Voltaire [do conto Cândido, ou O Otimismo], resolvi juntar os dois. É muito bom criar uma obra que tenha uma profundidade maior e que dê ao público sentimentos otimistas, positivos.””

E, embarcando no fato de ter buscado inspiração em obras aparentemente tão descoladas das telenovelas, Carrasco rejeita que o gênero siga algum tipo de padrão.

“Não acredito que a novela siga fórmulas. Há sempre muitas teses, muitas teorias criadas sobre o nada”, diz. “Se você observar minha carreira, verá que não me prendo a uma coisa só. Escrevi mais de 60 livros infantojuvenis, com temas variados. Tenho romances e peças para o público adulto. Mas também escrevi novelas bem-humoradas, comédias.””

E é com esse tom cômico, quase juvenil, que duas tramas à moda antiga de Carrasco vão tentar cair, mais uma vez, nas graças do público. Além de Êta Mundo Bom!, chegou na semana passada ao Viva Chocolate com Pimenta, outro bem-sucedido fruto de parceria com Jorge Fernando.

Mas enquanto o público revisita o passado para fugir da pandemia, pouco muda na rotina de Carrasco. Ele está confinado em casa, o que sempre fez parte de seu trabalho. “A quarentena não muda muito a rotina de um escritor. Sempre vivo de quarentena, de certa maneira”, diz ele, que atualmente escreve a continuação de “Verdades Secretas”. “Eu sempre trabalhei isolado em casa, o processo continua o mesmo.”

Entre um episódio e outro, Carrasco medita, estuda tarô, lê Dostoiévski e, num aceno a Êta Mundo Bom!, cuida de sua horta. “Já estou colhendo tomate, pimentão e couve”, comemora.

*

FIGURINHAS REPETIDAS

‘Êta Mundo Bom’ (2016)

Estreia no Vale a Pena Ver de Novo com a missão de entreter em tempos difíceis e manter a boa audiência

‘Chocolate com Pimenta’ (2003)

Uma das pérolas de Walcyr Carrasco, voltou ao Viva na semana passada

‘Malhação: Viva a Diferença’ (2017)

Retornou à TV quando ‘Malhação: Toda Forma de Amar’ teve seu final antecipado

‘Novo Mundo’ (2017)

A novela de dom Pedro 1º prepara terreno para ‘Nos Tempos do Imperador’, sobre dom Pedro 2º

‘Totalmente Demais’ (2015)

Está sendo exibida em versão compacta no lugar de ‘Salve-se Quem Puder’

‘Fina Estampa’ (2011)

Sua edição especial quer manter a audiência das nove enquanto ‘Amor de Mãe’ não volta