Representação de mulheres negras em novelas: racismo, repetições e personagens caricatos

Emily Santos
·4 minuto de leitura
Dhu Moraes no 'Sítio', 'Êta Mundo Bom' e 'Novo Mundo'. Foto: Rede Globo/Divulgação
Dhu Moraes no 'Sítio', 'Êta Mundo Bom' e 'Novo Mundo'. Foto: Rede Globo/Divulgação

O Brasil divide com o México o posto de maior produtor e consumidor de novelas do mundo. São produtos conhecidos, reconhecidos e premiados mundialmente. Mas estas novelas, que ocupam horários nobres na programação da Rede Globo, maior emissora nacional, têm pouca diversidade racial e ainda menos representações dignas de personagens negros.

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Uma pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (GEMAA/UERJ) publicada em 2017 analisou 101 telenovelas globais exibidas entre 1994 e 2014 sob os prismas de raça e gênero. A análise mostrou que a média de representação de personagens centrais é de 90% de brancos, contra 10% de pretos ou pardos. Dentre os produtos analisados foram encontradas, inclusive, oito produções com 100% de personagens centrais brancos.

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Estes dados são no mínimo questionáveis quando falamos de um país cuja população é formada por 46,8% de pardos e 9,4% de pretos de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) 2019, somando mais de 56% do total nacional. Então, se a maioria das pessoas no Brasil se autodeclaram negras, por que a maioria absoluta de profissionais que atuam em novelas que deveriam passar certo recorte do país é branca?

A historiadora e socióloga Carolina Rocha, que participou de uma live promovida pelo Yahoo! na terça-feira (28), defende que isso é um reflexo da sociedade racista e do racismo estrutural, que se apresenta constantemente através da escrita. “É uma escrita racista, uma produção textual racista. E esta produção textual pode ser televisão, cinema, teatro música, leis, constituição, estatuto, pedagogia, do próprio referencial pedagógico que nossas escolas usam; ou seja, tem muita envolvida nessa produção textual que é racista”.

A especialista diz também que a predominância de autores brancos nos bastidores também causa impacto direto no modo como acontece a representação de personagens negros nas produções televisivas. “São escritores, roteiristas brancos dizendo como um personagem preto deve se comportar e agir”, explica. E por isso, há muitas representações caricatas e repetitivas (para não dizer racistas) ao longo das narrativas.

Um exemplo disso é a atriz Dhu Moraes, que está no ar atualmente nas reprises de ‘Êta Mundo Bom’ (2016) e ‘Novo Mundo’ (2017). Na primeira, ela aparece como a empregada Manuela, que vive em uma situação análoga a escravidão na fazenda dos patrões e na segunda, vive uma escrava de cozinha que serve senhores brancos. A atriz também foi responsável por dar vida à personagem de Monteiro Lobato Tia Nastácia, no ‘Sítio do Picapau Amarelo’ (2007) e à empregada Valda em ‘Cheias de Charme’ (2012). Como justificar a recorrência de escalações da profissional como escrava ou empregada em produções tão diferentes entre si?

Para Rocha, situações assim reforçam o racismo e, de uma forma geral, ajudam na construção de uma apresentação do Brasil ao mundo não condizente com a realidade. “Penso em nossos irmãos de Angola, que veem muita novela brasileira e sempre fazem este questionamento que as novelas brasileiras não retratam o brasil. E é impressionante que, quando escutamos imigrantes, eles falam que a imagem que tinham do Brasil era a mostrada nas novelas, mas quando chegam aqui têm um outro panorama porque é outra realidade”, explica.

Além de fazer uma contextualização profunda do racismo estrutural na sociedade brasileira e o impacto disso nas produções audiovisuais, a profissional explica como o jornalismo muitas vezes contribui na construção de narrativas racistas. Confira o conteúdo completo da live!

Yahoo! discute racismo — conteúdo relacionado

Desde junho, quando estouraram as manifestações mundiais após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos, o Yahoo! vem promovendo uma série de lives no Instagram para discutir assuntos relacionados à negritude. Desde então, já recebemos co-deputada estadual em São Paulo pelo mandato coletivo da Bancada Ativista (PSOL) Erika Hilton, o jornalista e colaborador do Banco de Talentos Negros Ruam Oliveira, o publicitário, cantor e produtor Tiago Tuiuiú, entre outros, para abordar assuntos como a presença de negros na política, o negro no mercado de trabalho e meritocracia. As lives acontece às terças-feiras e traz uma variedade de temas sérios e relevantes e ficam salvas no Instagram @yahoovidaestilo como IGTVs.