Repórter da Globo se emociona durante velório de Elza Soares: "Mulher de lucidez estrondosa"

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Jornalista da Globo se emociona durante velório de Elza Soares (Reprodução Globonews)
Jornalista da Globo se emociona durante velório de Elza Soares (Reprodução Globonews)

Alexandre Henderson se emocionou ao falar sobre o início do velório de Elza Soares, que acontece na manhã desta sexta-feira (21) no Theatro Municial do Rio de Janeiro. O jornalista mostrou imagens da chegada do corpo durante o "Bom Dia São Paulo", da Globo, e falou sobre a importância do legado cultural deixado por Elza. A cantora morreu aos 91 anos de causas naturais.

"Elza é uma referência. Quando olhamos essa cena, pensamos nela como ícone, mulher preta, artista. Foi uma mulher atuante, que denunciou e falou sobre racismo, sobre a opressão da população negra, se posicionou muito sobre questões da mulher, da comunidade LGBTQIA+, uma mulher a frente do seu tempo", afirmou o jornalista.

Corpo de Elza Soares chega no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Reprodução Globonews)
Corpo de Elza Soares chega no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (Reprodução Globonews)

"Ela deixa uma lacuna na música popular brasileira e um legado. Aquele corpo que está ali é de uma mulher que marcou a história do Brasil, uma mulher de lucidez política estrondosa. Sou muito fã de Elza, e fiquei muito tocado. Estou com o coração na mão e um nó na garganta", completou.

Legado de Elza

Elza Soares, que morreu nesta quinta-feira (20), aos 91 anos, sempre foi considerada um ícone do feminismo. Não por acaso. A cantora conseguiu dar a volta por cima, mesmo após ter uma infância e adolescência difíceis, além de ter sofrido ao longo de seu relacionamento de 16 anos com o jogador de futebol Mané Garrincha — que, coincidentemente, morreu na mesma data, há 39 anos —, marcado por abusos físicos e morais.

Aos 12 anos, Elza foi obrigada a se casar pela primeira vez, a mando do pai, após ter sofrido uma tentativa de abuso sexual por Lourdes Antônio Soares, amigo da família. O objetivo do matrimônio era "não manchar sua honra", como dizia o pai. Ela se tornou mãe aos 13 e passou a se dedicar a isso, mesmo com todas as dificuldades. Dos sete filhos que teve ao longo da vida, perdeu três, sendo que dois, ao que contam os relatos, foram de fome.

Quando viu dois filhos acamados por pneumonia, sem dinheiro para comprar os remédios, ela se inscreveu escondida da família no programa musical de Ary Barroso na Rádio Tupi. Ao ser questionada de onde vinha, ela disse, sem pensar duas vezes: “Do planeta fome". Sua participação lhe rendeu um prêmio em dinheiro, imediatamente convertido em remédios para os filhos. Um deles reagiu à medicação e o outro, infelizmente, morreu. A cantora ficou viúva aos 21 anos, quando Antônio Soares morreu de tuberculose.

Carreira

Elza Soares nasceu em 1937, na favela Maria Bonita, no Rio de Janeiro. Filha de um operário e de uma lavadeira, lutou para sobreviver antes de ser reconhecida como grande artista. Aos 12 anos, foi obrigada pelo pai se casar e, um ano depois, teve o seu primeiro filho, João Carlos.

Ao todo, Elza deu à luz a nove crianças. Cinco delas morreram - três de fome. A sua carreira teve início aos 16 anos, em 1953, quando participou do programa “Calouros em desfile”, de Ary Barroso, na Rádio Tupi, e ganhou o primeiro lugar. Com a visibilidade, ela conseguiu um emprego como crooner na Orquestra Garam de Bailes, do maestro Joaquim Naegli.

Ela trabalhou por um ano com Naegli - até ficar grávida. Porém, logo após ser liberada pelos médicos após o parto, Elza voltou a trabalhar com arte - sendo escalada para contracenar com Grande Otelo na histórica peça “Jour-jou-Fru-fru”, de Silva Filho. Após sair de cartaz, ela acompanhou a Companhia de Mercedes Batista em uma turnê na Argentina.

O seu primeiro disco de estúdio, "Se acaso você chegasse”, foi lançado logo após ela retornar ao Brasil, em 1959, pela Odeon. Com o sucesso da música-título, composta por Lupicínio Rodrigues, ela começou a ganhar reconhecimento e fama pelo Brasil. A sua vida, porém, mudaria, definitivamente, em 1962.

Representando o Brasil na Copa do Mundo no Chile, ela conheceu Garrincha, com quem viveu um romance intenso e conturbado. Os dois se casaram em 1966 e só se separaram em 1982, após seguidas traições do jogador, que sofria com o alcoolismo. Durante o relacionamento, bastante acompanhado pela mídia, elas chegaram até a ser alvos do DOPS, órgão repressivo da ditadura militar.

Em entrevista ao "Programa do Porchat", a artista explicou porque ela e Garrincha precisaram se mudar de casa no Rio de Janeiro após um ataque até hoje mal esclarecido.

“Nós estávamos dentro da casa (na hora do ataque). Eu morava no Jardim Botânico e brincava com as crianças na rua. Depois, entramos e começamos a ouvir um barulho de tiroteio. Minha casa foi toda baleada. Fiquei completamente apavorada por causa dos filhos, das crianças", contou ela.

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