Relato: O dia em que fui diagnosticada com TOC foi o mais feliz da minha vida

No fim do primeiro dia de volta ao trabalho, depois do Natal do ano passado, eu estava indo para casa de bicicleta, com as mãos e o rosto dormentes por causa do frio intenso, com a escuridão ao meu redor, quando uma raposa caiu do céu. Sim, literalmente, uma raposa caiu do céu. Ela havia sido atingida por um trem que passava sobre a ponte e caiu pela lateral da mesma, bem no meu caminho. Eu parei, chocada, assustada, perdida e um pouco perplexa, e fiquei observando a raposa, enquanto seu corpo tremia rumo a sua inevitável morte. Quando cheguei ao meu apartamento vazio, pensei em quão azarada uma pessoa precisava ser para estar passando sob a ponte exatamente naquele momento. Bem azarada, de acordo com as minhas conclusões. Classifiquei o ocorrido como um mau presságio para 2017 e fui dormir. No dia seguinte, no meu caminho rumo ao trabalho, o corpo da raposa não estava mais lá. Fiquei confusa, considerando que apenas 12 horas haviam se passado desde o incidente. Foi aí que um pensamento maligno se instaurou na minha consciência e criou raízes: “Será que a raposa na verdade não existiu e eu tive uma alucinação? Eu estava louca, vendo coisas que não aconteceram? Minha mente havia criado todo aquele episódio?” Parecia difícil de acreditar…

Nos dias e semanas seguintes àquele incidente, as raposas pareciam estar me perseguindo. Raposas nas propagandas, raposas do lado de fora da janela do meu quarto, raposas em revistas, cada uma delas contribuindo para o pensamento estranhamente sedutor de que eu havia imaginado tudo aquilo. Eu não conseguia chegar a uma resposta com qualquer nível de convicção. Somente algumas semanas depois, quando minha ansiedade chegou ao ápice e eu pedi que um amigo verificasse se estava vendo a raposa parada a um metro de distância de nós, eu superei o ocorrido. Ele estava vendo a raposa. Eu chorei de alívio.

Eu sei que esta história parece absurda, e até um pouco cômica. Hoje ela está confortavelmente presente no meu repertório de “coisas engraçadas que aconteceram comigo quando eu estava mentalmente doente”, que eu costumo contar para demonstrar às pessoas que, como tudo na vida, um pouco de senso de humor pode ajudar a gerenciar a sua saúde mental. O que eu não havia entendido até recentemente, no entanto, é que o episódio com a raposa foi um de muitos que ocorreram ao longo da minha vida, e fazia parte dos sintomas do meu transtorno obsessivo-compulsivo não diagnosticado.

Desde que eu me lembro, sou uma solucionadora de problemas. Isso não é, de forma alguma, algo ruim. Na maior parte das vezes, a minha habilidade de identificar questões e encontrar soluções permitiu que eu desenvolvesse e mantivesse relacionamentos significativos, duradouros e mutuamente respeitosos; permitiu que eu me dedicasse academicamente, profissionalmente, pessoalmente, emocionalmente e fisicamente; e que eu dedicasse a minha atenção ao meu próprio desenvolvimento e do mundo ao meu redor. Na verdade, meus conselhos são muito requisitados por amigos e colegas, devido à minha habilidade natural de analisar um problema de forma panorâmica.

No entanto, durante períodos de estresse intenso ou prolongado, esta compulsão para encontrar uma solução para tudo que possa ser considerado um “problema”, pode funcionar da forma errada, me levando aos cantos da minha mente, onde a luz tem dificuldade para chegar. Isso costuma acontecer porque o “problema” que eu estou tentando resolver sou eu; ou seja, a coisa que eu acredito estar intrinsicamente errada comigo, a causa principal por trás da minha inabilidade de viver a existência tranquila que tanto desejo. Como é comum entre as pessoas que sofrem com doenças de saúde mental, isso deriva principalmente de uma série de convicções profundas sobre mim mesma, nas quais sempre acreditei, sem questionamentos, todas adjetivos qualificados pelas palavras “não” e “suficiente”. Durante estes períodos, que envolveram apenas alguns episódios agudos particulares ao longo da minha vida, eu caí num poço tão fundo que foram necessários meses para conseguir sair. Sim, meus amigos, estou falando de um colapso mental.

Ao longo dos anos, esta busca implacável para desvendar e resolver este “algo” místico que me tornava diferente daqueles ao meu redor, me levou a alguns locais particularmente obscuros, nos quais me preocupei com a possibilidade de ser uma, ou todas, estas coisas (para esclarecer, eu não sou nenhuma destas coisas; eu chequei com a minha psiquiatra): abusadora, narcisista, sociopata, impostora, manipuladora emocional, traidora, mentirosa, e até assassina. Isso me fez pensar que eu era fisicamente repulsiva, não merecedora de amor, mentalmente instável, grosseira, egoísta, burra, cruel; infiel, insuportável, não confiável, clinicamente insana, incômoda, e não possuidora de talentos e habilidades. Este exercício obsessivo de encontrar soluções roubou segundos, minutos, horas, dias e anos da minha vida, acabando com a minha paz, prazer, alegria, e com a habilidade de sentir ou apreciar o amor dos outros por mim. Em fases particularmente ruins, eu até evitava ler histórias ou assistir a programas de televisão ou filmes que contivessem uma mínima sugestão de um comportamento malévolo. Eu sabia que se visse algo assim passaria os próximos dias me preocupando com a possibilidade de possuir aquele traço ou característica. Aquilo era extremamente cansativo.

Agora, como uma solucionadora de problemas autoproclamada, pode parecer irônico descobrir que eu era fundamentalmente incapaz de resolver o quebra-cabeça do “O que está errado comigo?” Toda vez que eu tropeçava numa solução, a dúvida surgia ou uma ideia nova invadia a minha mente e dominava meus pensamentos. Sabe aquela sensação incômoda quando você está resolvendo palavras cruzadas e encontra uma pergunta para a qual sabe a resposta, mas não consegue encontrá-la nas profundezas da sua mente? É isso que o TOC faz comigo, causa uma sensação de estar sempre prestes a encontrar uma solução que está fora do meu alcance, mas que, uma vez identificada, vai resolver tudo. E como um gato perseguindo seu rabo, toda vez que sinto que estou perto da solução, ela se afasta um pouco mais de mim.

Como alguém que cresceu junto com familiares com problemas de saúde mental e que havia sido previamente (e incorretamente) diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada e síndrome do pânico, que tem muitos amigos com TOC e que leu todas as descrições a respeito de cada distúrbio mental existente (e subsequentemente convenceu a si mesma de que tinha cada uma daquelas condições), você provavelmente está pensando, “Mas Rose, como você não descobriu isso antes? Todas aquelas horas gastas tentando encontrar uma resposta que parece relativamente simples e clara?”

Bom, a verdade é que eu já havia encontrado a resposta. Quando a psiquiatra empática e incrivelmente perspicaz que consultei no último verão me diagnosticou, ela incluiu a observação: “Mas eu acho que você já sabia disso”. E ela estava certa. O problema é que os anos de dúvidas constantes em relação a mim mesma me fizeram instintivamente questionar a validade dos meus próprios pensamentos, sentimentos e percepções, classificando-os como produto da minha “personalidade melodramática”.

Quando eu saí do consultório e voltei ao mundo real, diferentemente do que muitos poderiam esperar após receber um diagnóstico que, objetivamente, é assustador, eu fui inundada pela maior sensação de calma que já senti em toda a minha vida. Fui direto para uma sessão de terapia e chorei sem parar por uma hora, mas não eram lágrimas de tristeza, e sim de alívio. Eu não carregava mais o fardo de precisar encontrar uma solução. A ironia de tudo aquilo é que o que me levou a questionar o que estava errado comigo era o que, essencialmente, estava errado comigo esse tempo todo.

Eu não quero ficar aqui falando sobre o valor dos rótulos; eu sei que viver numa sociedade que busca classificar e marginalizar pessoas com base nas suas diferenças objetivas, só causou miséria e conflito até agora. Mas nesta situação particular, conseguir identificar e categorizar a busca disfuncional da minha mente, me permitiu colocar este assunto de lado e redirecionar minha energia. Antes, quando as pessoas me pediam para “pensar em outra coisa”, eu não conseguia entender o que elas queriam dizer, pois minha obsessão era forte demais; bem que eu gostaria que fosse tão fácil. Agora, no entanto, sou capaz de dizer: “Ah, isso é apenas o TOC novamente”, o que permite que eu me desconecte daquele pensamento até matá-lo de fome. E eu não estou sozinha nisso. De acordo com Miranda Boal, psicóloga e fundadora do Skylark Therapy em Londres, “um rótulo pode proporcionar uma luz para guiar o paciente e o terapeuta até a saída do labirinto, e encontrar formas de lidar com a situação ao longo do caminho”. Quando feito com compaixão, um diagnóstico pode ajudar o paciente a “reconhecer que o problema é a doença, e não ele mesmo”, o que lhe permite “ser mais compreensivo e aceitar a si mesmo”.

Uma semana após o meu diagnóstico, fiz uma viagem de bicicleta para arrecadar dinheiro para a organização Mind, o que foi provavelmente a coisa mais significativa que já fiz na minha vida. Desde então, as coisas só melhoraram. Com o apoio de uma terapeuta incrivelmente paciente e amável, eu aprendi que nem tudo tem uma única solução fixa, e que a busca incansável por uma é o que causa ansiedade, pânico e medo. Eu não sou um quebra-cabeça que precisa ser solucionado, e nem a minha vida. E para aqueles de vocês que estão prestando atenção, é isso! Este foi o meu momento “Eureca!” Eu resolvi a charada do TOC e todos podemos ir para casa. Quanto mais confortáveis nós conseguirmos nos manter ao ver raposas caindo do céu, quando mais conseguirmos abraçar a incerteza e o fato de não saber, mais livres, felizes e em paz nos sentiremos. Fim.

Rose Stokes

Refinery 29 UK