Relacionamento abusivo não é só violência física; saiba como reconhecer e ajudar as vítimas

Foto: Getty Images
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Por Milena Carvalho

Você já ouviu falar em gaslighting? O termo é usado para se referir ao abuso psicológico feito por um agressor por meio de manipulação, com a intenção de fazer a vítima duvidar de si mesma e de sua sanidade. O conceito pode ser considerado novo, mas a prática é comum há bastante tempo em relações abusivas.

“A discussão sobre esses relacionamentos está na pauta dos movimentos feministas desde os anos 60, quando o slogan ‘o pessoal é político’ passou a ser amplamente divulgado para visibilizar violências ocorridas no espaço privado”, explica Ana Paula Martins, doutora em Sociologia e professora do departamento de Gestão de Políticas Públicas da Universidade de Brasília (UnB).

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Já aquele velho ditado popular que diz “em briga de homem e mulher não se mete a colher” vem sendo totalmente desconstruído. Em casos em que há abuso e assédio, seja ele moral, psicológico ou físico, Ana Paula diz que é papel sim de todos lutarem para que isso não aconteça. “É um problema como um todo. Cabe a nós, como sociedade, assumir responsabilidades para prevenir a violência, reparar os danos das vítimas, punir os agressores e, especialmente, formular políticas públicas de atendimento às mulheres.”

Mas o que realmente é o abuso psicológico? Quais são os sinais de que uma mulher está sendo moralmente abusada por seu parceiro?

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“Quase sempre há um discurso que deprecia e desqualifica qualquer tipo de capacidade, seja física ou de competência”, afirma Claudia Cobalchini, professora de Psicologia da Universidade Positivo de Curitiba, no Paraná. Essa mulher, segundo ela, costuma sentir uma dependência em relação ao companheiro, se tornando refém do relacionamento.

Qualquer tipo de ameaça também é um indício de que se pode estar em uma relação abusiva. No caso das mães, a guarda dos filhos é algo que normalmente as fazem permanecer no casamento, pelo medo de que haja alguma possibilidade de que o marido possa ficar com as crianças.

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Discursos de ciúmes e possessividade e, como consequência, um afastamento dos familiares e amigos também é outro sinal de gaslighting.

“É preciso estar alerta ao que as outras pessoas falam sobre isso”, aconselha Claudia. Se quem você ama já falou algumas vezes que seu relacionamento não parece certo, a probabilidade de que ele realmente não esteja é alta. “Algumas mulheres mostram mais fragilidade e entendem que o que acontece é normal e cultural, mas não é. Elas devem refletir e procurar ajuda.”

O impacto desses abusos na vida de uma mulher são diversos. Desde dores físicas a baixa autoestima, dificuldades no trabalho a depressão. “Uma coisa é certa: a saúde mental com certeza será afetada”, adverte Claudia.

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Uma forma de prevenir que mais casos aconteçam é realizar um trabalho com crianças e adolescentes desde o período da escola. “É uma maneira de quebrar a lógica machista que ainda existe e mostrar isso tanto para as meninas quanto para os meninos”, analisa. O retorno só tende a ser positivo.

Meios de denúncia e grupos de apoio

O melhor conselho, de acordo com a especialista, para mulheres que estão passando por esse tipo de situação é: converse. “Sozinha a gente não toma consciência de nada.” Essa é a hora de buscar outras pessoas que enfrentaram o mesmo e praticar a sororidade – expressão usada para a união e aliança entre as mulheres baseada na empatia e companheirismo. Grupos de ajuda tanto em estabelecimentos físicos quanto pelas redes sociais podem servir de apoio em um momento como esse.

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Vale lembrar que algumas instituições auxiliam mulheres que sofram qualquer tipo de violência. Algumas delas, além das unidades de saúde, são o Cras (Centro de Referência de Assistência Social), o Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social), além da Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, no qual qualquer mulher pode telefonar para denunciar casos de violência.

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