Relacionamento aberto já é uma realidade para 60% das pessoas, diz pesquisa

O relacionamento não-monogâmico entre mulheres também é uma prática.

Filmes sobre relacionamentos abertos existem aos montes. Do famoso ‘Vicky Cristina Barcelona' ao brasileiro 'Cidade Baixa’, o assunto não é uma novidade quando se fala na grande mídia. Mas o que significa, de verdade, ter um relacionamento aberto? E isso muda quando esse relacionamento é homoafetivo?

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Rebeca Canhestro entende relacionamento, hoje, como algo que "envolve muita troca e conhecimento, afeto e compreensão, principalmente com as diferenças". Para ela, tanto faz a configuração da relação amorosa, mas essa vivência com foco no afeto e compreensão mútuos é essencial.

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A musicista atualmente vive uma relação aberta. Ela, que é lésbica, explica que já tentou ter relacionamentos monogâmicos no passado, mas percebeu que esse formato não lhe fazia bem, mesmo com um saldo final positivo e construtivo.

"Não lidava de forma saudável com frustrações, com minha autoestima e autocuidado. Achava que deveria 'mudar para melhor' mas o parâmetro de melhor era para agradar a outra pessoa (independentemente dela saber que eu me moldava), na mesma medida que qualquer sinal de mudança da minha parceira me apavorava e enchia de inseguranças", explica.

A saída, então foi tentar algo diferente: um relacionamento aberto. Por definição, esse é o tipo de relação em que os dois lados concordam com um elo de não-monogamia. Ou seja, caso qualquer uma das duas decida beijar ou transar com outra pessoa, o ato não será considerado uma traição.

A base central de um relacionamento aberto é que ambas pessoas concordam com uma relação em que se um lado ou outro quiser sair com uma terceira pessoa, tudo bem.

No caso de Rebeca, a sua relação, hoje, funciona porque conta com muito diálogo. "A partir do momento que ambas estão comprometidas com a relação e sabendo que podemos falar de tudo, não há questões por detrás da vontade de sair sozinha, de não querer se ver num dia qualquer, e consequentemente, de ficar com outras pessoas", diz ela.

Afeto ligado e desenvolvimento pessoal no relacionamento aberto

As pessoas lidam com os relacionamentos amorosos de formas diferentes. Rebeca percebeu que, na maioria das vezes, as suas relações terminavam por ciúmes ou infidelidade e esses términos, normalmente, não eram simples: "O tempo de cura pra mim sempre foi muito extenso, por vezes traumático, principalmente em relações de dependência".

O que ela entendeu, com isso, era que cuidaria muito mais de si mesma e da sua relação se conseguisse lidar com questões que tanto a incomodavam. Por isso, o relacionamento aberto foi uma saída tão positiva. "Eu me proponho ao exercício do afeto junto do exercício da minha própria individualidade e desenvolvimento, enquanto minha parceira também se relaciona com ela mesma e sua subjetividade e anseios", explica.

Isso, claro, não é simples. Um relacionamento monogâmico, por si só, pode ser complicado - o que dizer de um aberto? Mas Rebeca explica que a relação, para funcionar bem, tem que ser mútua e responsável, não só entre as duas pessoas, como também com as outras com quem se relacionam.

Com uma tendência a cair no comodismo e na "segurança" que um relacionamento monogâmico parece oferecer, Rebeca diz ainda que uma relação como a que ela vive hoje abre espaço para que ela reveja suas próprias escolhas e práticas: "Nesse molde, eu tenho meu espaço, ela também, nos falamos quando queremos e se algo incomoda a gente pode conversar, sabendo que estamos assim nos conhecendo e não impondo vontades".

O relacionamento aberto não é novidade, mas ainda é visto como um tabu

Relacionamento do futuro?

A geração millennial, daqueles nascidos entre os anos de 1986 e 1996 trouxe uma série de quebra de paradigmas em relação a anterior, uma delas é a sua visão quanto aos relacionamentos.

Segundo uma pesquisa feita pelo órgão norte-americano YouGov, apenas 51% das pessoas com menos de 30 anos acreditam que o seu relacionamento ideal é monogâmico. Outros 60% assumem que as relações que vivem hoje já não são exclusivas, o que indica que, apesar de parecer uma novidade, o relacionamento aberto já é uma realidade para muitas pessoas.

Rebeca, inclusive, acredita que as práticas mudam ao longo do tempo e o casamento já foi desacreditado como instituição há muitas décadas - de acordo com o Federal Reserve Bank of St. Louis, apenas 4 a cada 10 millennials casaram em 2016, em comparação a proporção de 6 para 10 no final da década de 1980.

"Desde então os casais retornam a outras alternativas, mas a não-monogamia se apresenta de várias formas (inclusive violentas e patriarcais) e não é nenhuma inovação", continua a musicista.

Apesar disso, ainda existe um estigma de que o poliamor é, na verdade, uma prática de pessoas apenas interessadas em sexo. Mas isso não é verdade, tanto que uma pesquisa da Universidade de Gelph, no Canadá, demonstra que pessoas em relacionamentos abertos e consensuais, encontram o mesmo nível de satisfação, bem-estar psicológico e satisfação física do que aquelas em relacionamentos monogâmicos.

"Desvincular-se da monogamia é mais sobre exercitar sua liberdade e conhecer outra pessoa, respeitando quem ela também é. É mais do que liberdade sexual, pois quando você encontra um meio de diálogo sincero e conecta âmbitos essenciais da sua vida com seu par, a presença de outro afeto não é excludente, ao meu ver", finaliza Rebeca.