Qual a relação entre o discurso de Jair Bolsonaro e a violência contra a mulher?

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Neste texto, você encontra:

  • Frases do presidente que reforçam a cultura machista;

  • Como esse comportamento se relaciona com a violência contra a mulher.

"Eu chego como eu quiser, onde eu quiser, eu cuido da minha vida". Foi com essa fala que o presidente Jair Bolsonaro começou um ataque à jornalista Laurene Santos, da TV Vanguarda, filiada da TV Globo. O vídeo, que viralizou no último fim de semana, quando o presidente visitou a cidade de Guaratinguetá, no interior de São Paulo, é difícil de assistir de forma isenta. Claramente irritado, ele manda a jornalista "calar a boca", tira a máscara e pergunta se ela "está feliz agora?", e ainda diz que o trabalho que ela faz é "canalha".

O último comentário não diz respeito à Laurene em si, mas ao trabalho da imprensa como um todo - alvo constante de ataques do presidente da República. Este texto também não tem como objetivo falar dessa parte da sua fala, mas da violência e do machismo constantemente direcionados às mulheres pelo político.

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A falta de empatia para com as mais de 500 mil mortes por COVID-19 no Brasil já não é novidade quando vindas de Bolsonaro, mas o mesmo vale para esse comportamento violento do presidente. Não é preciso lembrar de um dos episódios mais fortes que deixam esse jeito de agir claro - em 2003, ainda deputado, ele disse à também deputada Maria do Rosário que ela "não merecia ser estuprada". "Não estupro porque você não merece", disse, à época. Ele voltou a repetir as mesmas palavras anos depois, em 2014, acrescentando que a política não merecia o estupro porque "é feia". Mais à frente, se tornou réu pelo caso e, em 2019, já presidente da República, precisou emitir um pedido de desculpas oficial.

Esse não foi o único caso que acabou virando notícia. O machismo de Bolsonaro é, infelizmente, sistêmico - o que significa que nem mesmo a presidência fez com que ele mudasse o comportamento e a sua atitude em relação às mulheres.

Já no cargo máximo do país, em abril de 2019, ao falar sobre "turismo gay" no país, Bolsonaro faz apologia a outro tipo de turismo sexual, que também permeia a fama do Brasil no exterior: "Quem quiser vir aqui fazer sexo com mulher, fique à vontade".

Mais recentemente, uma apoiadora do presidente contava que o pai havia acabado de falecer e queria mostrar um vídeo dele ao político. Quando questionada por ele quanto tempo levava o vídeo, ela respondeu "Um minutinho, é rápido", ao qual o presidente retrucou: "Um minutinho de mulher, eu não viajo amanhã". Além de machista, foi absolutamente inadequado com a situação e a fala de alguém que, até então, apoiava o presidente.

A desculpa de que o político é bem-humorado é bem longe da verdade. Sempre rindo e certo de que faz graça, Bolsonaro distribui comentários machistas e misóginos sem pensar duas vezes. Aliás, isso é tão verdade que nem mesmo a própria filha do presidente saiu ilesa. Disse ele, lá em 2017: "Eu tenho cinco filhos. Foram quatro homens, aí no quinto eu dei uma fraquejada e veio uma mulher".

O machismo de Bolsonaro e a violência contra a mulher

Antes os comentários do presidente fossem apenas isso, comentários. No entanto, são a expressão de um sistema de pensamento que permeia a cultura brasileira e torna os números de violência contra a mulher tão absurdos por aqui.

Segundo o Anuário de Segurança Pública, liberado em outubro do ano passado e referente à 2019, acontece um estupro a cada 8 minutos no Brasil. Naquele ano, foram registrados 66.123 boletins de ocorrência contra estupro e estupro de vulnerável. Vale lembrar que mais de 80% das vítimas eram mulheres e que em mais de 80% dos casos o estuprador era uma pessoa próxima.

Quando se fala em assédio sexual, os números também impressionam. De acordo com uma pesquisa desenvolvida pela plataforma LinkedIn no ano passado, quase metade das profissionais já sofreu algum tipo de assédio sexual no ambiente de trabalho - 15% delas pediram demissão após o ocorrido e apenas 5% fizeram uma denúncia formal ao departamento de recursos humanos da empresa.

Outra pesquisa, desenvolvida pelos Institutos Patrícia Galvão e Locomotiva confirmaram que quase todas as mulheres brasileiras (97%) já sofreram algum tipo de assédio sexual em transportes públicos ou privados no Brasil. O número é altíssimo e assustador - mais uma prova do porquê ser mulher por aqui é tão complicado.

E para quem não entende a conexão entre esses números e as falas de Jair Bolsonaro, a gente explica. Discursos como o do presidente deixam claro a mentalidade machista que vê a mulher como inferior (vê-se pela fala sobre a própria filha e também as alegações polêmicas sobre a exigência das mulheres a respeito da igualdade salarial). Com uma visão de alguém superior, com mais poder e, portanto, aparentemente com a razão, o uso da violência acaba sendo justificado - falar "cala a boca" para uma mulher que faz o trabalho como jornalista, por exemplo, é uma forma de violência. Se fosse um homem, naquele momento, será que ele falaria a mesma coisa? É de se questionar.

A violência contra a mulher, em si, também atinge números absurdos por aqui. De acordo com um relatório liberado em março deste ano pelo Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, foram registrados em 2020 mais de 105 mil denúncias de violência contra a mulher. Os números com certeza foram inflados pela pandemia de coronavírus, mas, com certeza refletem uma cultura que, com ou sem isolamento social, é marcada pela violência.

Ter uma pessoa como Bolsonaro no poder só deixa claro que o brasileiro ainda pensa assim. O papel de quem assiste, portanto, é fazer as mudanças que pode, inclusive na própria forma de pensar, para que essa cultura mude e quem, sabe, traga governantes que pensem diferente para os cargos máximos no futuro.

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