"Monogâmicos traem pela hipocrisia de achar que relação aberta é baixaria"

Aline e Dionatan Saporito vivem um relacionamento aberto (Foto: Arquivo Pessoal)

Por Vladimir Maluf (@vladmaluf)

"Eu era evangélica, usava saia e cabelão. Casei na igreja, aos 16", conta Ellen Coelho, 26, que trabalha na área administrativa de uma empresa. Hoje, ela vive um relacionamento aberto. Diz que é difícil, mas não se arrepende. Ellen é bissexual, curte sexo a três, grupal, troca de casais… "Se possível, na mesma cama. Ah... A vida já é tão chata, né?"

Já conhece o Instagram do Yahoo Vida e Estilo? Siga a gente!

Muito se fala sobre a decisão de abrir a relação. Mas e depois? Os adeptos ouvidos pelo Yahoo! falaram das particularidades de suas vidas amorosas e sexuais após um período de experiência. Há muitas características em comum: a primeira, é que não se trata de transar com todo mundo, mas de ter a liberdade de fazê-lo. Também há contras, porém. Exige DRs frequentes, há ciúme e críticas de quem pensa que eles vivem uma incessante orgia.

Leia também

Ellen está há 11 anos com o companheiro. "Abrimos no fim de 2017. De cara, conheci uma galera que já se relacionava de forma livre e isso me deu segurança". Mas, depois, começaram a "bater umas neuras". "Em 2019, me senti traída por ele sair com a mesma menina várias vezes. Fiquei depressiva", lembra. "Só que a gente abriu a relação exatamente para não ter sentimento de posse. Percebi que estava fazendo o que eu já havia decidido que não faria mais." As coisas melhoraram.

Ellen diz que a diferença do casamento aberto, além do óbvio, é que o tradicional já tem regras prontas. "Quando você abre, tem que construir um novo jeito de estar junto." As críticas incomodam, mas ela prefere rir delas. "As pessoas acham que eu acordo e tem uma suruba na minha casa. Muitas têm medo de vir aqui tomar uma cerveja porque imaginam que todo mundo vai transar. Eu dou risada."


Ele queria ser padre, mas ela o converteu

A arquiteta Aline Saporito, 26, está com o companheiro há cinco anos. Eles se casaram em outubro de 2019, mas se conhecem há 12. "Foi o primeiro cara que beijei. Ele queria ser padre. Queria ser padre e agora participa de suruba...", fala e ri. Ele é hétero, ela se define como pansexual. "Curto de tudo e mais um pouco."

O relacionamento não começou aberto, pois o parceiro não topou. "Eu sempre quis. Então, falei: vou esperar você se acostumar com a ideia, mas esse dia vai ter que chegar." Dionatan Saporito, 26, motorista da Uber, era virgem quando começou a namorar Aline. Viver um relacionamento aberto seria uma mudança ainda mais radical para ele, aparentemente. "Passaram dois anos e meio e ele não estava preparado. Então, falei que sentia muito, que o amava, mas não queria isso para mim. Ficamos sete meses separados, mas a gente conversou e ele decidiu tentar."

A primeira aventura sexual aconteceu logo, e foi bem esquisita para Aline. Rolou em uma casa de swing, com outro casal. "Como eu era a única na vida dele, deu aquela coceirinha no coração vê-lo transando com outra, mas passou."

A relação dos dois, segundo ela, não tem nenhuma regra. Ou quase… "A gente pode fazer o que quiser, menos no carro", conta ela. "Já pegamos muita estrada juntos, temos um carinho por esse momento, ouvindo nossas músicas… É um espaço nosso." Outra norma: não ter romance. "É sexo casual, trepada, putaria. Não é para jantar e tomar um vinhozinho, não", explica. "A maioria das vezes, é surubão, mesmo. No meu aniversário, chamei 20 para uma casa de swing."

Aline enfatiza que tudo é permitido, mas nada é obrigatório. "Não é porque eu posso sair com todo mundo que eu vou sair. Mas preciso saber que a vida é minha, só minha. Os casais monogâmicos traem pela hipocrisia de achar que relacionamento aberto é baixaria. A maioria deve transar mais fora do casamento do que a gente."

Surpreendentemente, Dionatan encarou numa boa a novidade. "Quando eu a vi com outra pessoa, me deu muito tesão." A decepção com a religião não tem a ver com seu relacionamento, afirma. "Tenho fé em Deus, mas, para mim, religião não faz mais sentido. Brinco que sou a testemunha de Jeová da putaria. Sempre falo para todo mundo conhecer uma casa de swing. Não precisa fazer nada, mas vá ver como é." 

Fim dos combinados

Matheus e Filipe abriram o relacionamento há um ano (Foto: Arquivo Pessoal)

Matheus Rodrigues, conhecido como Tcho, tem 23 anos. É pedagogo e trabalha com teatro. Ele e o namorado estão juntos há dois anos, mas abriram a relação há um. "Eu conversava muito como com o Filipe sobre precisar ter a minha individualidade. E ele disse que achava bonito, mas sabia que seria um processo difícil." 

Eles combinaram, então, que poderiam sair sozinhos e fazer o que tivessem vontade, mas sem sexo ou manter contato depois. "Eu acabei furando o acordo e contei para o Filipe. Foi um problema... Conversamos de novo e resolvemos abrir tudo. Não tem combinado. Vamos vivendo."

Eles moravam juntos. Por isso, quando um não estava em casa, o outro logo imaginava que a ausência significava uma relação extraconjugal -- o que nem sempre era verdade. Eles preferiram, então, viver em casas separadas. E a experiência tem sido boa, segundo ambos. 

"Fico feliz de ter liberdade. Eu tinha muitas travas sexuais e com meu corpo. Era evangélico. Minha vida melhorou. A gente pode experimentar coisas com outras pessoas e juntos. E dá tesão saber o que ele fez com os caras, principalmente quando estamos transando." 

Os dois ainda sentem ciúme, mas se dizem mais maduros por poderem conversar abertamente sobre tudo. "Ser monogâmico, na teoria, parece mais simples, mas é como ter um emprego com carteira assinada: dá uma segurança ilusória." 

 Filipe Salvador, 28, conta que ele e Tcho batizaram o relacionamento que têm como "autônomo". Ele trabalha com produção de conteúdo e de teatro. Para ele, ser monogâmico não funcionava. "Geralmente, a gente idealiza um modelo de relacionamento que só existe na nossa cabeça", diz. "Isso não quer dizer que monogâmicos não são felizes. Cada pessoa precisa encontrar o seu jeito de se relacionar. Mas, para mim, a diversidade sexual é muito boa. É humano. É natural."

Começar aberto

Vinicius e Vitória Camacho têm um casamento aberto (Foto: Arquivo Pessoal)

Vinicius Cremaschi, 31, é servidor público e está em uma relação aberta, oficialmente, desde outubro de 2019. "Mas estamos juntos desde o começo do ano passado". É o primeiro relacionamento aberto que ele tem. "Nas relações monogâmicas, faltava algo que impedia de eu me envolver. Foi uma busca por sinceridade."

A vida sexual dele é diferente da que a parceira tem. Para Vinicius, é gostoso sair, conhecer uma mulher, ter sexo casual e acabou. Para ela, não. "A Vitória tem homens com quem fala com regularidade e, de vez em quando, sai com eles. Eu tinha uma visão de exclusividade emocional, mas ela não vê assim. Concordei, mas ainda é algo que estamos trabalhando."

Vinicius e Vitória ainda estão se adaptando, mas estão certos de que só querem se relacionar desse jeito. "Comecei a refletir: no que afeta o meu relacionamento ela sair com alguém? Quando estou com ciúme, em vez de brigar, eu me pergunto: existe uma razão real, além dos pensamentos introjetados sobre monogamia?" 

Vitória Camacho, 24, é companheira de Vinícius. Ela estuda geografia. Também está decidida sobre sua liberdade. "Eu tive outra experiência e não quero." E ela afirma que sua vida sexual é bem mais pacata do que imaginam. "As pessoas acham que é putaria. Não é disso que se trata, mas de construir uma relação com liberdade."

Para ela, é um tipo de relação mais complexo do que um tradicional. "Porque mexe com questões que as pessoas não lidam: insegurança, ciúme, medo do abandono." Mas, segundo Vitória, não faz sentido ter medo de perder o parceiro. "Como perder algo que você não possui? Não temos a posse de alguém. Além do mais, nem sempre os dois têm as mesmas necessidades sexuais e fantasias. O mais complicado é compreender que não é errado."