Rejeição familiar e abuso: as histórias desoladoras dos sem-teto LGBT

“Você compraria uma xícara de chá para nós?” Pergunta meu amigo Patrick [nome fictício], enquanto caminhamos pela Berwick Street em Soho, Londres. “Três pacotinhos de açúcar”. Patrick tem 52 anos e mora nas ruas há 23 anos, entre idas e vindas. “O Natal é difícil porque eu me sinto muito longe da minha mãe e do meu irmão. Também é bom, de certa forma, porque as pessoas estão embriagadas o tempo todo, então é mais provável que elas nos deem algum dinheiro”.

Patrick é um homossexual feliz. A parte da felicidade pode ser difícil de imaginar, considerando sua situação, “mas cada dia em que eu me mantenho sóbrio e longe de problemas é outro dia em que eu posso cantar”. Ele foi exilado de uma família católica, pertencente à classe operária há mais de duas décadas, após assumir sua homossexualidade. Depois de diversas tentativas de retomar o contato, os parentes ainda não querem saber dele. Nós nos sentamos por um tempo e ele fala a respeito dos seus planos para o Natal – ele vai ser abrigado por duas noites, e está animado porque terá uma ceia de Natal. “Eu amo ser gay. Nem sempre me senti assim porque perdi minha família… sofri muito abuso… mas agora eu amo. E as pessoas também me amam, especialmente quando eu canto”.

Embora Patrick seja incrivelmente positivo, já tivemos encontros em que ele estava no meio de um ataque de pânico ou de um episódio extremamente paranoico. Os anos vivendo nas ruas e a dor causada pela rejeição da família fazem com que ele tenha dificuldade em confiar nos outros, mas ele sabe que estou escrevendo isso e está feliz por falar sobre o assunto.

Patrick é único, mas sua situação certamente não é. Um relatório do Albert Kennedy Trust publicado em 2015 mostrou que pessoas LGBT compõem quase um quarto (24%) dos jovens sem-teto. É preciso levar em conta que a Stonewall estima que entre 5-7% da população do Reino Unido se identifique como LGBT, o que significa que este grupo tem uma participação seis vezes maior do que o esperado entre a juventude sem-teto. Não há estatísticas disponíveis para pessoas da idade de Patrick.

Por que não ter uma casa afeta as vidas de pessoas LGBT com mais frequência do que o observado entre os heterossexuais? A principal razão é, infelizmente, pouco surpreendente: rejeição da família, abuso dentro da própria família, e exposição à violência como resultado da orientação sexual ou identidade de gênero, com 77% afirmando que o fato de terem assumido a homossexualidade para os pais foi o principal fator de contribuição para que fossem morar nas ruas.

Em 2016, após cortes do governo e má gestão financeira, a organização Pace and Broken Rainbow – que oferecia serviços para atender as necessidades de pessoas LGBTQIA+ – acabou fechando. Com o percentual de instituições que oferecem cuidados específicos para pessoas LGBTQIA+ caindo de 11% para 1%, de acordo com o Albert Kennedy Trust, o que significa que muitas vezes estes indivíduos têm dificuldade para encontrar abrigo em um lugar que não é voltado para eles. Por exemplo, os serviços sem um foco definido dividem os quartos entre homens e mulheres, mas para pessoas com identidades de gênero não-binárias ou transgênero, a ideia de escolher, a possibilidade de ser rotulado com o gênero errado ou de sofrer violência de outros usuários do serviço pode ser mais traumatizante do que passar a noite nas ruas.

Patrick lembra seus dias de uso de heroína e prostituição, enquanto conversamos, mas não quer que eu escreva mais do que isso sobre o assunto. Novamente, seu exemplo reflete o de outros membros da comunidade LGBTQIA+, que têm uma probabilidade significativamente maior de sofrer violência física, exploração sexual, abuso de substâncias e problemas de saúde física e mental do que outras pessoas sem-teto.

Com a proximidade do Natal, os meios de transporte param e as ruas ficam vazias enquanto as famílias se divertem em casa, e é neste momento que as necessidades das pessoas LGBTQIA+ aumentam. “Nossa comunidade tem mais chances de sofrer abusos domésticos e crimes de ódio, mas some a isso um festival cristão com foco na heteronormatividade e uma religião que, historicamente, condenou nossos comportamentos como imorais e pecaminosos, e temos um problema ainda maior,” explica Carla, do The Outside Project. “A pressão para se reunir, ‘se encaixar’ pelo bem da ‘união da família’ e ser feliz durante as festas, pode exacerbar os conflitos. Acrescente o álcool a esta mistura, já que ele costuma estar presente nesta época do ano, e você tem uma receita para crises familiares. Para aqueles que lutam contra o abuso de substâncias, há uma pressão e um desejo maior de usar – e os serviços de apoio também têm uma disponibilidade menor no período de festas”.

O The Outside Project é um abrigo de 12 camas para pessoas sem-teto, voltado especificamente para membros da comunidade LGBTQIA+, montado em um ônibus de turnê, no leste de Londres. Este é um ‘serviço sensível às identidades’, então se você se identifica como qualquer coisa diferente de cisgênero ou heterossexual, você é bem-vindo. De abrigos noturnos a espaços sóbrios, workshops, eventos, festivais de um HUB da comunidade, o grupo de ativistas, colegas e amigos que criou o The Outside Project quer oferecer apoio e abrigo, mas também um lugar para que os membros se reconectem e se integrem na comunidade LGBTQIA+. Trata-se de um projeto que vive à base de doações, e que podem ser feitas aqui.

No Natal, o grupo ofereceu serviços 24 horas. “Nós conseguimos nosso próprio espaço para dormir na Crisis [uma organização de caridade] no Natal. Queríamos levar o ônibus, mas estávamos um pouco atrasados para isso. Quem sabe no ano que vem! Nós também montaremos um HUB para a comunidade LGBTQIA+ no centro da Crisis durante o dia para tentar receber, dar as boas-vindas às pessoas e direcioná-las aos serviços específicos que elas podem precisar”.

“Se você está sozinho, enfrentando dificuldades, junte-se a nós na Crisis no Natal,” convida Carla. “Ligue para uma linha de ajuda. Afaste-se, se possível, de situações tóxicas ou estressantes. Se você está sofrendo abuso ou crimes de ódio, ou se ficar em casa não é seguro, diversas organizações podem ajudar. Aconselhamos que as pessoas chamem a polícia se sentirem que estão correndo perigo, com o entendimento de que isso nem sempre parece possível ou pode até parecer a opção menos segura”.

O que você pode fazer se não está correndo risco? “Não se sente em mesas com pessoas homofóbicas ou transfóbicas só porque é Natal ou porque você não acha que é o seu papel falar sobre o fato de que um de seus parentes está sendo excluído, criticado ou não está presente,” conclui Carla. “Não ser abusivo não é suficiente; por favor não seja passivo em relação ao comportamento abusivo dos outros”.

Do micro ao macro, há inúmeras formas de ajudar. Você pode trabalhar como voluntáriodoar dinheiro ou “roupas quentes, toalhas de banho, telefones celulares com carregadores, malas/mochilas resistentes, e um fornecimento interminável de meias”.

No fim das contas, o The Outside Project está buscando uma casa permanente. “Nossa comunidade é mais suscetível aos abusos domésticos, crimes de ódio, problemas com vícios e questões de saúde mental – fatores que estão entre as principais causas que levam alguém a se tornar um sem-teto. Quando você observa as pesquisas, juntamente com os relatos de perseguição da nossa comunidade ao usarem serviços e espaços divididos por sexo, fica sem entender por que ainda não tínhamos um abrigo específico no Reino Unido antes”.

Eu também não entendo, embora a falta de financiamento destinado a serviços para a comunidade LGBTQIA+ seja, infelizmente, algo sistemático. A evidência de que a presença de pessoas LGBTQIA+ entre a população sem-teto seja tão desproporcional sugere que passou da hora de fazermos algo a respeito. E este algo é o The Outside Project. Então, se você quer ajudar, conheça várias formas de fazer isso aqui..

“O que você quer para o Natal?” eu pergunto a Patrick. “Um quarto e um namorado,” responde ele, rindo, “mas não necessariamente nessa ordem!”

Tom Rasmussen

Refinery 29 UK