Regina tomará posse com a meta de pacificar e pôr a cultura acima das ideologias

TALITA FERNANDES
***ARQUIVO***BRASÍLIA, DF, 29.01.2020 - A atriz Regina Duarte fala com jornalistas após encontro com o presidente Jair Bolsonaro, em Brasília. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - Mais de um mês depois de ter aceitado o convite do presidente Jair Bolsonaro, a atriz Regina Duarte assume nesta quarta-feira (4) a Secretaria Especial da Cultura. Ela tem o desafio de conciliar as expectativas de um governo conservador com os anseios da classe artística, que espera da nova secretária uma abertura maior em relação aos ocupantes anteriores do cargo. 

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A cerimônia está marcada para às 11h no salão nobre do Palácio do Planalto. A posse contará com a presença de representantes da classe artística e de políticos. Regina será a terceira secretária a comandar a pasta. Desde do começo do mandato de Bolsonaro, a secretaria é marcada por uma série de controvérsias.

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Publicamente, a atriz vem dizendo que tem como missão pacificar a Secretaria e fazer com que a cultura esteja acima de ideologias.  No entanto, no intervalo entre o convite e a posse, ela enfrentou resistências de parte da classe artística e até da ala ideológica que apoia o presidente.

Regina, que encerrou na semana passada o contrato de mais de 50 anos com a TV Globo, foi escolhida para substituir o dramaturgo Roberto Alvim, demitido do cargo por Bolsonaro em 17 de janeiro após a publicação de um vídeo que parafraseava um ministro da Alemanha nazista. 

O antecessor de Alvim, Henrique Pires, já havia deixado a Secretaria da Cultura em meio a polêmicas, ele acusou seu então chefe, o agora ex-ministro da Cidadania Osmar Terra de censura.

A Secretaria da Cultura permanecerá subordinada ao Ministério do Turismo, comandado por Marcelo Álvaro Antônio. Bolsonaro transferiu o órgão de pasta após a demissão de Pires e divergências com Terra. 

Por parte do governo, o presidente prometeu carta branca à atriz. Porém, seus auxiliares veem com reserva o tamanho dessa liberdade. 

No cargo há 14 meses, Bolsonaro já deu demonstrações de que interfere na gestão de seus subordinados toda vez que sua visão de governo é confrontada. 

Já foram alvo de críticas públicas e processos de fritura até mesmo ministros populares como Sergio Moro (Justiça) e Paulo Guedes (Economia).

Ao longo de sua vida política, Bolsonaro criticou leis de incentivo à Cultura, como a Lei Rouanet, e defendeu o incentivo de uma produção com ideologia mais conservadora e ligada às igrejas. 

As classes política e artística aguardam o anúncio da equipe que foi montada por Regina. A lista de convidados para a posse e o nome de seus auxiliares são mantidos em segredo.

Ela demitiu em menos de um mês a reverenda Jane Silva, após ser criticada por artistas. O convite para que a reverenda assumisse o cargo de secretária-adjunta da Cultura foi visto como um aceno ao conservadorismo da gestão Bolsonaro. 

Essa, contudo, não foi a única divergência de Regina com o meio artístico do qual é egressa. 

Outro estremecimento se deu quando a atriz publicou, no fim de janeiro, uma foto mosaico com os rostos de artistas que disseram publicamente apoiar o noivado entre ela e Bolsonaro. 

O post acabou sendo apagado após reclamações de colegas de profissão que contestaram o uso das imagens. 

"Vou tirar o post com artistas porque agora é Maitê [Proença] pedindo para sair. Meu desejo de pacificar, de unificar a classe artística já mostra que a resistência ideológica vai bater forte e tentar impedir que a polarização reinante possa ser vencida. Vou, no entanto, lutando para que a cultura do nosso do país possa estar acima de ideologias e partidos", publicou a atriz, na ocasião, em seu perfil no Instagram.

Antes de aceitar o convite para assumir a Cultura da gestão Bolsonaro, Regina teve dois encontros presenciais com o presidente e fez visitas à estrutura da secretaria. Ambos se valeram de termos ligados a relacionamentos como namoro e noivado para se referir ao período, que durou quase 15 dias.

A relação entre eles teve início ainda durante o período eleitoral. 

Em outubro de 2018, Regina visitou Bolsonaro no Rio de Janeiro quando ele se recuperava em casa da facada sofrida em setembro durante agenda de campanha. 

Eternizada nas televisão brasileira como a Viúva Porcina, da célebre novela Roque Santeiro, ou como a Helena dos folhetins de Manoel Carlos, a faceta política de Regina se popularizou na campanha presidencial de 2002, quando ela disse ter medo de eventual vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. 

Na última semana, ela publicou nas redes sociais uma mensagem de apoio às manifestações populares marcadas para 15 de março, em favor do governo e em oposição ao Congresso. 

Nem mesmo entre os apoiadores de Bolsonaro há consenso sobre sua chegada ao governo. O escritor Olavo de Carvalho usou as redes sociais para criticá-la. 

Ele se queixou da possibilidade de a atriz excluir de seu quadro de servidores seus seguidores. Ele é o guru ideológico do bolsonarismo. 

"Se a Regina Duarte quer mesmo se livrar de indicados do Olavo de Carvalho, a pessoa principal que ela teria de botar para fora do ministério seria ela mesma", escreveu Olavo nesta terça-feira (3).