Regina Silveira cria labirinto cravejado de balas para tratar de violência na Bienal

  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
·5 minuto de leitura
Neste artigo:
  • Opa!
    Algo deu errado.
    Tente novamente mais tarde.
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.02.2020 - Regina Silveira durante o coquetel de inauguração da primeira mostra individual da 34ª Bienal de São Paulo. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress) ORG XMIT: AGEN2002101030746203
***ARQUIVO***SÃO PAULO, SP, 08.02.2020 - Regina Silveira durante o coquetel de inauguração da primeira mostra individual da 34ª Bienal de São Paulo. (Foto: Marlene Bergamo/Folhapress) ORG XMIT: AGEN2002101030746203

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um grande labirinto de vidro transparente que parece ter sido cravejado por balas de revólver deve trazer uma experiência de desconforto para os visitantes da próxima Bienal de São Paulo.

"A ideia era criar um lugar difícil. É uma passagem, como todas, difícil. O labirinto é uma metáfora de muitas leituras e ancestral. Desde as cavernas, em muitas culturas você tem registro de labirintos. A imagem dá leituras políticas", diz Regina Silveira sobre "Paisagem", instalação inédita criada por ela sob encomenda da 34ª Bienal na qual os visitantes poderão entrar --e se sentir presos.

Ocupando uma área de dez metros quadrados e com vidros um pouco mais altos do que a estatura de uma pessoa, a obra é a materialização de uma série de labirintos gráficos que Silveira, uma das principais artistas brasileiras da segunda metade do século 20, realizou inicialmente com a técnica da serigrafia nos anos 1970. Traz também outra marca recorrente de seu trabalho, a representação de tiros, usados para "quebrar" louças de porcelana na série "Crash", de 2014, por exemplo.

"Tudo, claro, tirado da violência em que vivemos, das mídias, dos jornais, das fotografias, se você abre o Google e pede fotos de tiros, você vai ter todo o nosso cotidiano", acrescenta ela, em entrevista por Zoom a partir de seu ateliê em São Paulo, explicando como a obra nova se relaciona com a sua trajetória artística.

O percurso profissional de cerca de 60 anos da artista gaúcha poderá ser visto a partir das próximas semanas tanto numa série de obras na Bienal --a quarta de que participa-- quanto numa grande retrospectiva no Museu de Arte Contemporânea da USP, o MAC, instituição com a qual tem estreita relação desde a fundação.

Silveira expôs lá diversas vezes, fez parte do conselho do museu e ajudou a formar o acervo da instituição, doando dezenas de trabalhos seus no decorrer dos anos. Ela também deu aula no Departamento de Artes Plásticas da Escola de Comunicação e Artes da USP, formando gerações de artistas e profissionais que hoje atuam no mercado, como a sua galerista, Luciana Brito.

A violência da qual fala a obra de Regina não é apenas a das armas. Trabalhando com imagens apropriadas da imprensa, sobre as quais intervém, a artista também questiona a influência desmedida de políticos, jogadores de futebol, militares e até tanques de guerra. Na série "Dilatáveis", feita nos anos finais da ditadura militar no Brasil, essas figuras são mostradas com sombras alongadas, desproporcionalmente grandes.

"São imagens de poder para eu comentar o poder de modo geral. Não tem a ver com uma arte de protesto que você faz uma retórica especial, tem a ver com o imaginário crítico do ilusionismo, em como as imagens funcionam no real. [A série] é de 1981 mas tá valendo."

Mesmo que um espectador possa relacionar o recente desfile de blindados pelas ruas de Brasília com seu tanque de guerra de sombra agigantada, a artista nega que suas obras, muitas das quais carregadas de tons políticos, se conectem a fatos específicos, de ontem ou de hoje, embora reflitam a época em que foram feitas.

Para ela, não se deve pedir à arte uma resposta à escalada autoritária no Brasil --cabe aos artistas reagir a isso, se quiserem, dentro de suas poéticas. Mas a arte pode provocar outras respostas, "porque o papel dela é a transformação da percepção, e isso pode ser feito de muitas maneiras, desde um grafite na rua até um folheto que se passa. É muito mais subversivo você surpreender por uma ação politica do que fazer uma representação que dê conta de conteúdos desse tipo."

Ao comentar a exposição no MAC, que reunirá cerca de 180 obras, a artista parece especialmente entusiasmada com uma série de xilogravuras da década de 1960 surgidas a partir de sua experiência de dois anos trabalhando no Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre, ocasião em que fazia ateliês com os pacientes para que eles pudessem conversar com os médicos sobre as suas histórias. Segundo ela, apenas uma gravura desta série teve mais circulação, e agora é o momento de mostrar o conjunto.

Por ser mais figurativa, a série do hospital psiquiátrico --realizada após seus estudos de pintura com Iberê Camargo--, contrasta com a abstração geométrica tão presente em seu trabalho a partir da década seguinte, razão pela qual a artista optou por colocar as duas linguagens lado a lado na exposição. "Eu não desenhava diretamente os pacientes, mas aquele clima todo está nessas xilos, são xilogravuras secas, de uma cor só, com pacientes levando a comida, num corredor."

O MAC apresenta também maquetes de intervenções que a artista fez em fachadas de instituições fora do Brasil, experimentações com apropriações de imagens, vídeos dos anos 1970, esboços de projetos, documentos e algumas de suas instalações mais recentes, obras de grandes proporções que reinauguram o anexo expositivo do museu após uma reforma. Estará exposto um de seus trabalhos mais conhecidos, "O Paradoxo Santo", montado inicialmente nos anos 1990 no próprio MAC.

Mas não só de política ou de temas duros se constitui o trabalho da artista. A irreverência é outra característica marcante, como quando distribuía em eventos um biscoito com o formato da palavra "arte", ou em algumas das diversas obras públicas que realizou, a exemplo das projeções de discos voadores verdes e de super heróis azuis sobre prédios de São Paulo.

"Acredito muito na arte na rua, acho que é onde ela exerce a sua função com mais clareza, porque está no espaço publico mesmo. Ela surpreende, muda o repertório, faz mágica. Como tudo aquilo que é diferente do cotidiano."

*

34ª BIENAL DE SÃO PAULO – FAZ ESCURO MAS EU CANTO

Quando De 4 de setembro a 5 de dezembro; terça, quarta, sexta e domingo, das 10h às 19h; quinta e sábado, das 10h às 21h

Onde Pavilhão da Bienal - Parque Ibirapuera, portão 3, São Paulo

Preço Grátis

REGINA SILVEIRA: OUTROS PARADOXOS

Quando De 28 de agosto de 2021 a 3 de julho de 2022; de terça à quinta, das 11h às 19h; de sexta a domingo, das 11h às 21h

Onde MAC-USP, Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301, São Paulo

Preço Grátis; necessário agendamento em sympla.com.br/visitamacusp

Curadoria Ana Magalhães e Helouise Costa

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos