Regina Duarte deixa o comando da Cultura depois de semanas de fritura

TALITA FERNANDES, DANIEL CARVALHO E GUSTAVO URIBE
BRASÍLIA, DF, 20.05.2020 - REGINA-DUARTE-DF - A atriz Regina Duarte, ao lado da deputada Carla Zambelli (PSL-SP), acena ao sair do Palácio da Alvorada, em Brasília, na manhã desta quarta (20). Após reunião com o presidente Jair Bolsonaro, ficou definido a demissão de Regina doo cargo de secretária Nacional de Cultura. (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) anunciou nesta quarta-feira (20) em suas redes sociais que a atriz Regina Duarte deixará a Secretaria Especial da Cultura de seu governo. O ator Mário Frias, que almoçou com o presidente e sua equipe na terça, é um dos cotados para o cargo.

Há menos de três meses no comando da Cultura, a atriz, que rompeu um contrato de 50 anos com a Globo para fazer parte da gestão de Bolsonaro, assumirá agora a Cinemateca Brasileira, em São Paulo.

"Regina Duarte relatou que sente falta de sua família, mas para que ela possa continuar contribuindo com o governo e a cultura Brasileira assumirá, em alguns dias, a Cinemateca em São Paulo. Nos próximos dias, durante a transição, será mostrado o trabalho já realizado nos últimos 60 dias", escreveu o presidente em suas redes sociais.

Essa é a quarta troca na área de Cultura do governo Bolsonaro, que vem sendo alvo de críticas do setor pela ausência de políticas públicas em especial durante a pandemia do novo coronavírus. O mundo das artes foi fortemente afetado pela crise econômica ocasionada pela pandemia e foi um dos primeiros setores a serem paralisados.

A mensagem de Bolsonaro foi publicada junto a um vídeo que ele gravou com Regina no Palácio da Alvorada pela manhã. A atriz esteve no local ao lado da deputada Carla Zambelli (PSL-SP) que, como mostrou a Folha, fez uma espécie de intervenção na secretaria em meio ao processo de fritura que vive Regina desde o mês passado.

​"Vim aqui perguntar para o presidente se ele está realmente me fritando. Porque eu estou lendo isso na imprensa, que eu não acredito mais, mas, de qualquer forma, eu queria que ele me disse pessoalmente: está me fritando presidente?", indaga Regina no vídeo.

"Regina, toda semana tem um ou dois ministros que, segundo a mídia, estão sendo fritados. O objetivo é sempre desestabilizar a gente e tentar jogar o governo no chão. Não vão conseguir. Jamais eu ia fritar você", responde Bolsonaro.

Numa tentativa de minimizar o fato de estar em processo de fritua, Regina diz que vai assumir a Cinemateca e que isso seria um "sonho" para ela.

"Acabo de ganhar um presente, que é o sonho de qualquer pessoa de comunicação, de audiovisual, de cinema, de teatro: o convite para fazer Cinemateca, que é um braço da Cultura que funciona lá em São Paulo e é um museu de toda a filmografia brasileira. Ficar ali, secretariando o governo, dentro da Cultura, na Cinemateca. Pode ter um presente melhor que este? Obrigado, presidente."

Em um texto quase teatral, os dois apresentam um cenário como se tivesse sido feito um acordo de igual para igual. Nos bastidores, porém, aliados de Regina relatam à reportagem o clima de apreensão e desconforto que ela vinha vivendo.

Ela chegou a desmarcar uma reunião que tinha na terça-feira (19) com o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio. A justificativa foi de que ela passou mal após ter um pico de pressão. Álvaro Antônio, chefe da pasta a que a Cultura é subordinada, teve uma reunião de última hora com Bolsonaro na terça.

Para ter uma saída honrosa da secretaria, Regina vinha trabalhando desde então em um projeto para a produção de vídeos que têm como objetivo apresentar as atividades já executadas na pasta desde março, quando ela tomou posse.

Além de Zambelli, de quem Regina é amiga, ela conta com o apoio do secretário de Assuntos Especiais da Presidência da República, o contra-almirante Flávio Rocha. A deputada federal deverá agora indicar nomes para a Cultura, uma vez que as escolhas feitas por Regina foram derrubadas por ela mesma ou por Bolsonaro.

No último final de semana, o presidente já havia comentado com deputados bolsonaristas que a atriz estava disposta a mudar de cargo. Por isso, na terça-feira (19), ele convidou o ator Mário Frias para um almoço no Palácio no Planalto.

No encontro, de acordo com assessores presidenciais, o presidente sondou o ator sobre a possibilidade de ele substituir Regina. Ele se mostrou animado com a hipótese, de acordo com relatos feitos à reportagem. No início do mês, em entrevista à CNN, Frias já havia dito que seria uma honra ocupar o posto.

Na manhã desta quarta-feira, após o encontro com Regina, o presidente sinalizou que Frias é o seu favorito, mas ele disse que, antes de fazer um convite, conversará com outros integrantes da classe artística para tomar uma decisão.

Antes de convidar Regina, Bolsonaro cogitou convidar o ator Carlos Vereza, mas suas críticas recentes ao governo levaram o presidente a desistir de fazer uma nova ofensiva.​