Reações aos beijos do "BBB 22" mostram que travestis não são vistas como opções de amor

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"BBB 22" levanta discussão sobre transfobia (Foto: Reprodução/Globo)
"BBB 22" levanta discussão sobre transfobia (Foto: Reprodução/Globo)

Maria e Eliezer são bem resolvidos, livres e desencanados quando o assunto é sexo. Os dois se envolveram no "BBB 22", compartilharam momentos íntimos e não esconderam dos outros participantes quando transaram embaixo do edredom. Apesar de toda parceria na cama, eles garantem que continuam solteiros e separam muito bem a relação das escolhas feitas no jogo.

A relação não impede Maria de beijar Linn da Quebrada. Em todas as festas as duas aproveitam a pista para curtir um momento de pegação. Isso nunca foi problema para o casal e nem para os colegas de confinamento. Na madrugada desta quinta-feira (10), porém, Natália e Eliezer se beijaram.

Antes de Maria saber o que rolou entre os dois, alguns participantes repercutiram o caso com medo da reação da atriz e até cogitaram o fim do casal. Algo que não aconteceu quando Maria e Linn da Quebrada ficaram. É como se os beijos de Maria e Linna não fossem válidos, não fossem uma “ameaça ao casal”. Era para ser? Não, em nenhum dos casos. E, como dito acima, Maria e Eliezer são bem resolvidos. Mas é curioso notar que o ciúme só foi cogitado por terceiros quando Natália, uma mulher cis, surgiu na discussão.

Vale lembrar que Maria não ficou incomodada, reforçou que os dois são solteiros e seguiu como se nada tivesse acontecido. Para mostrar que está em paz com Natália, a atriz ainda deu um selinho na colega.

Mesmo sem perceber, porém, a casa reproduziu o que muitas travestis sentem aqui fora: transexuais não são vistas como opções de amor. O assunto é tão delicado que é até difícil abordar uma mulher trans para contar suas experiências sobre o tema. Mais de uma fonte revelou para a reportagem que prefere não acessar e expor esse lugar tão íntimo, o que é completamente compreensível.

O Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTQIA+, especialmente mulheres trans, de acordo com dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA). Em 2020, foram 175 pessoas trans assassinadas, sem contar o número de crimes não declarados.

Em entrevista à agência de jornalismo da PUC, a transexual Gabrielle Graciolli contou que é um desafio encontrar alguém disposto a assumir um relacionamento sério. Na maioria das vezes isso nem é cogitado. "O motivo é que as pessoas cis, a grande maioria homens cis, podem até se apaixonar por uma mulher trans, e querer ter um relacionamento com elas, mas eles não assumem esse relacionamento, e deixam de uma forma escondida, por conta do medo de sofrer preconceito e do que os familiares e os amigos vão pensar", explicou.

Em um desabafo publicado na página Exatamentchy, que busca empoderar a comunidade LGBTQIA+, Michelly Longo, ativista trans, também falou sobre ser vista como "objeto de prazer": "Durante o dia nos discriminam e a noite nos procuram. Dói na alma a forma como tentam tirar de nós a humanidade, acreditando que a nossa única alternativa seja fazer de nossos corpos o sustento de nosso dia a dia".

Ao Yahoo!, Lisa Gomes, primeira repórter transexual da TV, afirmou que se sente como um "pedaço de carne": "Somos vistas como chacota, somos descartáveis pela sociedade. Não somos vistas como pessoas capazes de amar, se apaixonar, construir histórias. Sou casada, mais sei o quanto é difícil encontrar um companheiro que assuma a relação sem ter medo do que a sociedade venha falar. Esses mesmos caras que discriminam, nos procuram às escondidas e ainda pedem para não falar nada".

A crueldade passa por várias camadas

Não à toa, quando Linna e Maria se beijaram pela primeira vez no "BBB 22", a atriz sentiu que poderia ser rejeitada fora da casa e chorou. "Existem muitas fanfics sobre o corpo trans. Tenho medo de ser odiada pelo Brasil", desabafou.

A fala dolorosa de Linna é um espelho da realidade fora da casa: corpos trans são hipersexualizados e consumidos como pornografia, mas não encontram representatividade nas esferas políticas, amorosas, educacionais, sociais e no mercado de trabalho. O Brasil transfóbico quer ver as travestis escondidas nas sombras, e Linna sabe o impacto que a cena pode ter no imaginário homofóbico e intolerante do país.

Um beijo como o dela e o de Maria em rede nacional não deixa de ser um ato de resistência. Assim como o posicionamento de Brunna Gonçalves, esposa de Ludmilla, que nos mostrou em um episódio do "BBB 22" que casais formados por mulheres também são invalidados de maneira geral.

Rodrigo fez chacota ao perguntar várias vezes se a dançarina é casada, mesmo sabendo a informação. O caso incomodou Lud aqui fora e, infelizmente, reflete o dia a dia da comunidade LGBTQIA+.

Machismo e racismo em questão

O beijo de Eliezer e Natália, que já se sentiu rejeitada após Lucas ficar com Eslovênia, também trouxe um peso para a manicure. Natália acredita que será julgada aqui fora por ter beijado o rapaz, o que não é difícil acontecer levando em consideração que ainda vivemos em uma sociedade machista e patriarcal. Ela e Linna, como mulheres negras e envolvidas na problematização, compartilham muitas angústias.

Na compilação "Intelectuais Negras - Estudos Feministas", a teórica bell hooks fala da alienação da mulher preta em contextos afetivos: homens querem conselhos, apoio emocional e amizade de mulheres pretas, mas não é com elas que a maioria se relaciona, casa e assume publicamente. "É sobre o ato de amar e ser amada que se alojam as hierarquias sociais prescritas e as representações feitas a respeito do corpo da mulher negra", defende Hooks.

A escritora Joice Berth também explica que negar afeto e amor para mulheres negras é uma estratégia social de dominação. "É uma verdade coletiva que toda mulher negra conhece muito bem. Negar amor para mulheres negras é uma das estratégias de enfraquecimento usadas pelo machismo e pelo racismo, ambos aliados de longa data. Porque a ausência de amor em nossas vidas, esse amor mercadológico/romântico, que é essencialmente excludente e convence os ignorantes de que 'é questão de gosto', e que é usado como instrumento de controle de mentalidades femininas de todas as raças, é uma forma eficiente de matar, literalmente, qualquer possibilidade de fortalecimento psíquico, nosso grande trunfo. Ou seja, é caminho pavimentado pro adoecimento".

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